O senador Aécio Neves (PSDB-MG), ao voltar nesta quarta-feira, ao Senado após 21 dias de afastamento determinado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, disse que não retornava com "rancor ou ódio", mas atacou o Ministério Público Federal e fez críticas aos irmãos Joesley e Wesley Batista, do Grupo J&F. No plenário, o tucano – presidente licenciado do partido – afirmou ser vítima de uma armação "ardilosa" e "criminosa", preparada por "empresários inescrupulosos" e por "homens de Estado".
No plano partidário, porém, Aécio não encontrou boa recepção no dia seguinte à decisão do Senado. O presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati (CE), defendeu a renúncia do mineiro do comando da legenda. "Agora ele não tem condições, dentro das circunstâncias que está, de ficar como presidente do partido. E nós precisamos ter uma solução definitiva e não provisória", disse Tasso, em declaração que surpreendeu alguns tucanos.
Aécio evitou polemizar. "Não trato de questões partidárias pela imprensa." Ele está afastado do cargo desde maio, após a divulgação da delação da J&F, que o implica diretamente. Em conversa gravada por Joesley, o tucano pede R$ 2 milhões. Ele nega que o dinheiro seja propina e diz que foi um pedido de empréstimo para pagar sua defesa na Operação Lava Jato. Mesmo afastado da presidência do partido, Aécio continuou a ter influência e conseguiu manter o
PSDB na base aliada do presidente Michel Temer. O senador é um dos principais fiadores da sigla do apoio ao peemedebista.
Já Tasso indica pode ceder à ala que defende a ruptura com Temer, encabeçada pelos "cabeças preta", ala mais jovem de deputados tucanos. A posição do presidente interino da legenda foi ratificada pelo vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). "É um ato unilateral, mas existe um sentimento no partido de que ele deve formalizar a saída. Isso é inegável. Acho que a manifestação pública que eu fiz e o senador Tasso fez vai ter algum efeito na reflexão (de Aécio Neves), mas isso não retira o caráter unilateral da decisão", afirmou o senador.
Reunião
O resultado da votação de ontem foi apertado, por 44 votos a favor do tucano, que precisava de pelo menos 41 votos para derrubar a decisão STF e retomar o mandato. À noite, a bancada do PSDB se reuniu para conversar com Aécio sobre sua possível saída da presidência do PSDB, mas até a conclusão desta edição, o encontro não havia terminado.
O senador mineiro deixou a reunião, antes do fim, e se recusou a responder se continua ou não à frente do partido. Apesar de pregar a renúncia de Aécio do comando tucano, o presidente interino defendeu a votação que derrubou as medidas cautelares contra o colega de partido. Segundo ele, porém, a decisão foi mal interpretada.
Para Tasso, apesar de poder retomar o mandato parlamentar, os problemas de Aécio ainda não acabaram. "Agora, aqui no próprio Senado ele vai ter o Conselho de Ética e ele vai ter que se defender. Ao mesmo tempo, o julgamento no STF continua." Já a Executiva Nacional da legenda divulgou uma nota para negar que os votos contra o afastamento de Aécio tenham sido fruto de um acordo relacionado à votação da denúncia contra Temer na Câmara.
Corporativismo
Na votação desta quarta, dez dos 12 senadores da sigla se manifestaram a favor de Aécio. Somente o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), que estava viajando, não votou.
O tucano mineiro, que está em viagem oficial em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, afirmou que o resultado da votação de ontem "dialoga com o corporativismo e a impunidade". "Um deboche", acrescentou o senador em mensagem à reportagem.
No seu discurso, Aécio disse também que foi alvo de "graves ataques" nos últimos dias por parte de alguns senadores, mas que retornava à Casa "sem rancor ou ódio".
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