Política

Tucanos cobram renúncia de Aécio

Presidente interino do PSDB acredita que deputado "não tem condições" de permanecer na presidência do partido

Presidente interino do PSDB acredita que deputado "não tem condições" de permanecer na presidência do partido
Presidente interino do PSDB acredita que deputado "não tem condições" de permanecer na presidência do partido Foto : Marcelo Camargo / Agência Brasil / CP
O senador Aécio Neves (PSDB-MG), ao voltar nesta quarta-feira, ao Senado após 21 dias de afastamento determinado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, disse que não retornava com "rancor ou ódio", mas atacou o Ministério Público Federal e fez críticas aos irmãos Joesley e Wesley Batista, do Grupo J&F. No plenário, o tucano – presidente licenciado do partido – afirmou ser vítima de uma armação "ardilosa" e "criminosa", preparada por "empresários inescrupulosos" e por "homens de Estado".

No plano partidário, porém, Aécio não encontrou boa recepção no dia seguinte à decisão do Senado. O presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati (CE), defendeu a renúncia do mineiro do comando da legenda. "Agora ele não tem condições, dentro das circunstâncias que está, de ficar como presidente do partido. E nós precisamos ter uma solução definitiva e não provisória", disse Tasso, em declaração que surpreendeu alguns tucanos.

Aécio evitou polemizar. "Não trato de questões partidárias pela imprensa." Ele está afastado do cargo desde maio, após a divulgação da delação da J&F, que o implica diretamente. Em conversa gravada por Joesley, o tucano pede R$ 2 milhões. Ele nega que o dinheiro seja propina e diz que foi um pedido de empréstimo para pagar sua defesa na Operação Lava Jato. Mesmo afastado da presidência do partido, Aécio continuou a ter influência e conseguiu manter o
PSDB na base aliada do presidente Michel Temer. O senador é um dos principais fiadores da sigla do apoio ao peemedebista.

Já Tasso indica pode ceder à ala que defende a ruptura com Temer, encabeçada pelos "cabeças preta", ala mais jovem de deputados tucanos. A posição do presidente interino da legenda foi ratificada pelo vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). "É um ato unilateral, mas existe um sentimento no partido de que ele deve formalizar a saída. Isso é inegável. Acho que a manifestação pública que eu fiz e o senador Tasso fez vai ter algum efeito na reflexão (de Aécio Neves), mas isso não retira o caráter unilateral da decisão", afirmou o senador.

Reunião

O resultado da votação de ontem foi apertado, por 44 votos a favor do tucano, que precisava de pelo menos 41 votos para derrubar a decisão STF e retomar o mandato. À noite, a bancada do PSDB se reuniu para conversar com Aécio sobre sua possível saída da presidência do PSDB, mas até a conclusão desta edição, o encontro não havia terminado.

O senador mineiro deixou a reunião, antes do fim, e se recusou a responder se continua ou não à frente do partido. Apesar de pregar a renúncia de Aécio do comando tucano, o presidente interino defendeu a votação que derrubou as medidas cautelares contra o colega de partido. Segundo ele, porém, a decisão foi mal interpretada.

Para Tasso, apesar de poder retomar o mandato parlamentar, os problemas de Aécio ainda não acabaram. "Agora, aqui no próprio Senado ele vai ter o Conselho de Ética e ele vai ter que se defender. Ao mesmo tempo, o julgamento no STF continua." Já a Executiva Nacional da legenda divulgou uma nota para negar que os votos contra o afastamento de Aécio tenham sido fruto de um acordo relacionado à votação da denúncia contra Temer na Câmara.

Corporativismo


Na votação desta quarta, dez dos 12 senadores da sigla se manifestaram a favor de Aécio. Somente o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), que estava viajando, não votou.

O tucano mineiro, que está em viagem oficial em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, afirmou que o resultado da votação de ontem "dialoga com o corporativismo e a impunidade". "Um deboche", acrescentou o senador em mensagem à reportagem.

No seu discurso, Aécio disse também que foi alvo de "graves ataques" nos últimos dias por parte de alguns senadores, mas que retornava à Casa "sem rancor ou ódio".