Rural

Elo entre trabalho e história nos campos

Cães treinados auxiliam no manejo dos rebanhos e ajudam a preservar uma tradição nas propriedades rurais do Rio Grande do Sul

O ovelheiro gaúcho é uma raça de cão pastor originária dos pampas
O ovelheiro gaúcho é uma raça de cão pastor originária dos pampas Foto : Diego Paz / Divulgação / CP

A imagem do homem do campo é clássica: sobre um cavalo, ele conduz o rebanho, acompanhado sempre do cachorro. Tão antiga quanto a própria atividade pecuária, essa relação de trabalho e companheirismo atravessa as fazendas e otimiza suas produções. Onde a pecuária é a base econômica, os cães são elementos imprescindíveis para a manutenção dos rebanhos.

Na lida, estabelece-se uma relação de confiança e respeito que otimiza a rotina. Apesar de ser impossível determinar o momento exato da domesticação, sabe-se que eles já viviam ao lado dos seres humanos há mais de 15 mil anos, conforme apontam análises publicadas na revista científica Nature. Os animais passaram a acompanhar as atividades diárias das civilizações, atuando na agricultura, na caça e também como companhia.

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As raças, distintas entre si, passaram a ser selecionadas por suas aptidões. O trabalho campeiro é uma dessas habilidades. Desenvolvida na divisa entre a Escócia e a Inglaterra, a raça Border Collie começou a conduzir rebanhos, auxiliando os fazendeiros em uma região montanhosa e, muitas vezes, de difícil locomoção. Aos comandos dos pastores, eles levavam, traziam e agrupavam ovinos.

Condução de Rebanhos

Com a pelagem moderadamente longa ou curta, sendo a combinação preta e branca a mais clássica, os border collies podem apresentar outras cores, como marrom, tricolor e o padrão merle, caracterizado por manchas irregulares. São cães enérgicos e inteligentes, capazes de atender aos comandos de forma eficiente por meio de uma combinação entre instinto e treinamento. Os animais trabalham junto aos produtores, otimizando tempo e, de acordo com os criadores, reduzindo a necessidade de mão de obra. Dentro das fazendas, atuam na condução dos rebanhos de ovinos ou bovinos.

“É um companheiro de trabalho, tecnologia que está aí à disposição e é mais uma ferramenta diante de um contexto de escassez de mão de obra também”, conta Fredy Gonzalez, produtor rural que trabalha com gado.

É através do olhar que eles pastoreiam. Aos comandos do produtor, curvam-se, quase se deitam, mas permanecem com as patas voltadas para a frente, sempre preparados para agir. Os instintos são selecionados ao longo da linhagem desses cães. Para que compreendam suas funções, eles passam por processos de adestramento.

“Depois de um ano de idade, ele já tem uma maturidade, tanto física, na sua musculatura, na sua resistência, no seu sistema esquelético e mental. Na sua cabeça, ele já tem uma maturidade que permite, digamos, ter tanta vontade de trabalhar com o rebanho a ponto de aceitar as formas de trabalho que o treinador irá ensinar. Ele vai querer tanto o rebanho que, no final, vai terminar fazendo a vontade do treinador porque quer muito conduzir.”

Natural da Colômbia, o produtor chegou ao Brasil para cursar Zootecnia na UFRGS e, na pecuária gaúcha, criou raízes. Atualmente, trabalha no gerenciamento das Fazendas Montenegro, localizadas em Encruzilhada do Sul e Rio Pardo. “Eu sempre fui amante dos cães de trabalho, cães de função, e aí o border collie entrou na minha vida”, explica sobre o início da criação, que surgiu de uma necessidade da lida.

“O cão existe aqui na fazenda para o bem-estar do rebanho, para a condução do rebanho e para realizar todos os processos produtivos. Nós também temos ovelhas aqui, mas o cão foi pensado para o gado. No nosso caso, selecionamos cães para trabalhar com gado. Então, surgiu como uma necessidade, mas, assim como nós tivemos essa necessidade, enxergamos que outras pessoas também precisam desse auxílio”, salienta.

Há cinco anos, a propriedade realiza a seleção de cães, buscando aprimoramento genético e valorizando o desempenho no trabalho de campo.

“Buscamos um cão que seja cooperador, que tenha confiança e atitude diante do gado. Porque a gente trabalha com sistemas de produção de bovinos de corte na cria, e a vaca com a cria é uma presa, enquanto o cachorro, podemos dizer, é um predador, mesmo sendo um cão domesticado. Então, a vaca o entende como um predador”, afirma.

Ou seja, o desafio é encontrar um equilíbrio entre cães capazes de impor respeito sem comprometer o bem-estar do rebanho.

*Sob supervisão de Karina Reif.

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