Pecuarista há 23 anos, Celso Jaloto teve seu trabalho acompanhado pelos cães ao longo da trajetória. Em sua propriedade, a Fazenda Luz de São João, em São Gabriel, cria gado Braford, com melhoramento genético, e foi pioneiro na implementação de um sistema de bem-estar animal no abate do gado. Entre as inovações adotadas está uma mangueira circular antiestresse, que potencializa o bem-estar dos animais, facilita o manejo e garante mais segurança para quem trabalha na estrutura.
“Em uma mangueira comum, você vai fazer um serviço e leva duas horas. Dentro daquela mangueira, tu vai levar uma; com certeza, metade do tempo. Quanto menos tempo você ficar com o gado na mangueira, menos perdas vai ter, como perda de quilos em decorrência do estresse. Então, quanto menos estresse, menos problema para o animal.”
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Respeito e sintonia na condução do rebanho
Engenheiro de formação, Jaloto conta que os cães são uma tecnologia incorporada ao cotidiano da propriedade, onde, além dos bovinos, também trabalha com ovinos da raça Corriedale.
“No dia a dia, é isso, eles estarem acompanhando os peões para uma recorrida, para facilitar o manejo. Dentro da mangueira, principalmente com ovelhas, quando se quer embretar, colocar no brete. Você tem uma área grande da mangueira e quer que a ovelha entre naquele pequeno funil que é o brete para fazer um procedimento ou aplicar um medicamento. Nessa hora, o cão ajuda muito para que tudo aconteça sem atropelos, sem machucar os animais. Outra coisa é que, quando esses cães estão trabalhando, seja com bovinos ou ovelhas, você não vê nem ouve nenhum latido. Eles não latem. Controlam com o olhar. Eles olham para o dono, o peão dá o comando, e eles já correm para executar. É impressionante”, descreve.
Obediência e agilidade
Para o pecuarista, um bom cão de manejo é aquele que executa instantaneamente a ordem que o criador determina, seja para parar ou para deitar, agindo com obediência e de forma ágil.
“Sabe a importância do momento de correr e a importância do momento de caminhar apenas. Essa receptividade, essa percepção que o animal tem é fruto do treinamento e da prática diária junto ao rebanho, utilizando os seus instintos. Utilizando os seus instintos para fazer o que os seus antepassados fizeram e passaram no DNA: de que ele é um cão de pastoreio e não um cão de casa”, diz.
A principal função desses cães é a condução dos rebanhos. “Os peões saem com os cães para recorrer o campo, entrar em uma invernada que é cercada e fazer uma cavalgada, um giro em todo o perímetro daquela área para ver se não tem animal machucado, doente, deitado, enfim, os mais diversos problemas. Então, eles vão junto com os peões”, salienta.
Quando precisam reunir os animais, os cães vão à frente e os trazem para o ponto desejado, uma reculuta, como explica Jaloto.
“É um movimento de trazer esses animais para onde você vai poder fazer um trabalho melhor, um tratamento ou até mesmo trazê-los da invernada até a mangueira para fazer um serviço mais completo.”
A partir da década de 2000, surge a Associação Gaúcha de Criadores de Border Collie, entidade com foco no aprimoramento genético e na valorização do cão de pastoreio. Com a participação da Estância Luz de São João, a entidade organiza provas de pastoreio, reunindo exemplares da raça para valorizar ainda mais a atividade.
Vocação para parceria com o peão
Para aprimorar o desempenho dos trabalhadores caninos, é preciso adestramento. O Senar oferece cursos destinados à preparação de tutores. Dilermando Barros ministra as aulas, é produtor rural e proprietário da empresa Meia Lua: “Nós temos vários cursos relativos ao treinamento de pessoal para a área rural, desde pastagens, capacitação de pessoas e vários outros na área de ovinocultura. E, entre esse portfólio, nós temos o curso de adestramento de cães”, diz.
O curso é promovido em diferentes localidades pelos sindicato rurais e tem duração de três dias, sendo o primeiro teórico e os seguintes práticos.
“O curso do Senar treina as pessoas, ensina a como trabalhar com esses animais. Mostra como adestrar para que o produtor possa tirar o máximo de proveito desse tipo de relação, desse tipo de instrumento. Eu chamo de tecnologia; é uma tecnologia em que se usam animais.”
Através do trabalho, esses cães mostram que sua verdadeira vocação nasce da parceria com o peão.
*Sob supervisão de Karina Reif.