Engenheiro civil por formação e pecuarista por vocação, Celso Jaloto transformou a propriedade Estância Luz de São João, localizada em São Gabriel, em referência e inovação no manejo bovino. Ele apostou no bem-estar animal como diferencial competitivo e, atualmente, a mangueira circular que desenhou com as próprias mãos é vitrine de resultados no campo e no mercado.
Na pecuária moderna, uma mangueira anti estresse é um corredor especialmente projetado para conduzir o gado de forma calma e segura. Com formato curvo, paredes fechadas e piso antiderrapante, ela reduz as reações de ansiedade e agitação dos animais, protege o trabalhador rural, facilitando o manejo e valoriza a genética do rebanho. Jaloto acrescenta que o projeto pioneiro reduz acidentes, aumenta prenhez e melhora a qualidade da carne.
Diferente das mangueiras tradicionais, que muitas vezes causam agitação e acidentes devido ao excesso de barulho, ângulos bruscos ou sensação de confinamento, a mangueira anti estresse é planejada a partir do comportamento natural dos bovinos. O gado tem tendência a circular e se sentir mais confiante quando não enxerga o ponto final do trajeto. Já as paredes são fechadas para evitar distrações visuais e os corredores possuem larguras adequadas para permitir passagem fluida, sem pontos que provoquem paradas ou amontoamento. A decisão de realizar a obra na Estância Luz de São João, foi inspirada nos estudos da doutora em ciência dos animais, a norte-americana Mary Temple Grandin.
Há 23 anos à frente da propriedade, herdada por sua esposa, Jaloto contou que começou a priorizar a raça bovina Braford por ser mais dócil e de fácil manejo. Por conta disso, identificou a necessidade de promover uma modernização na infra-estrutura e nas técnicas empregadas na estância. Os animais, por exemplo, se caracterizam por terem mais altura, necessitando de uma mangueira apropriada.
“Cheguei a conclusão que era (melhor) trabalhar com troncos, mangueiras e bretes que os contivesse e que o manejo sanitário e reprodutivo ocorresse de forma mais tranquila”, explicou.
Adotou então, as orientações bem-sucedidas da cientista norte-americana. Diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Mary começou a defender, na década de 70, que princípios semelhantes para acalmar pessoas com a condição também deveriam ter sua aplicação estendida para os animais. Atualmente, ela é referência mundial pelas técnicas revolucionárias em bem-estar e pecuária sem violência.
Segundo Jaloto, essas mudanças de conceito na propriedade reduziram, inclusive, o tempo de lida com o rebanho.
“Depois que eu construí essa mangueira na propriedade começaram a aparecer até interessados em fotografar. Vários pecuaristas copiaram (a ideia)”, contou.
A infraestrutura, diz ele, tem dimensões que podem ser alteradas e personalizadas de acordo com a necessidade de cada propriedade.
Na Estância Luz de São João, ele optou por 30 metros de comprimento, de frente a fundo, com os bretes de aproximação. “Em uma ‘embretada’ coloco em torno de 15 animais adultos num único serviço”, detalhou. A mangueira anti estresse também possui apoio em todo seu entorno para os trabalhadores acessarem os animais em vários dos seus pontos, para realizar diversos serviços como vacinação ou condução para tronco de contenção”, acrescentou o pecuarista.
“Os animais vão se acostumando e ficando mais dóceis porque não estão sendo castigados ou maltratados”, complementou. Para ele, a estrutura reduz significativamente o nível de cortisol, o hormônio do estresse, no rebanho. Não é apenas uma questão de conforto , mas um investimento em eficiência, segurança e qualidade dentro da porteira, além da sustentabilidade econômica.
A Estância Luz de São João produz touros para leilões, ventres e embriões. A genética Braford da propriedade está presente em 13 estados, contando com o Rio Grande do Sul. Entre eles, estão São Paulo, Minas Gerais, Tocantins, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.
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