O excesso de chuva que acompanhou a safra de trigo no Rio Grande do Sul, por causa do fenômeno El Niño, favorece a ocorrência de bacteriose nas lavouras e acende um alerta para a produção de sementes. A Embrapa Trigo adverte que a bactéria causadora da queima das folhas pode ser transmitida às novas plantas por meio das sementes, reforçando a importância de selecionar áreas com baixa incidência da doença para a produção do insumo.
A safra de trigo entra na reta final no Rio Grande do Sul e o ambiente, segundo a Embrapa, é desafiador por conta da umidade na maioria das regiões produtoras. Esse contexto tem agravado a incidência de doenças como as que causam fungos, com manchas foliares, ferrugem e oídio. Lesões translúcidas e com características de queima também têm sido registradas nas folhas das plantas, mas possivelmente causadas pelo ataque de bactérias.
A alta umidade e as temperaturas em torno de 15 a 20ºC favorecem o desenvolvimento de bactérias da espécie Pseudomonas syringae pv. syringae, agente causal da queima bacteriana da folha de trigo.
“Pseudomonas é habitante natural das folhas de trigo, mas também sobrevive em restos culturais e em sementes. Quando as condições climáticas são ideais ao desenvolvimento da bactéria, como neste ano, a população bacteriana aumenta a tal ponto que a ação das toxinas produzidas contribui significativamente para o aparecimento de sintomas de queima das folhas”, explica o pesquisador da Embrapa Trigo, João Leodato Nunes Maciel.
Manejo recomendado
Não existe um defensivo agrícola registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para controle de bacteriose na cultura do trigo e os fungicidas não servem para o controle das bactérias, que podem continuar no ambiente mesmo após a aplicação do defensivo. “No entanto, nesta época, o produtor deve fazer a aplicação de fungicidas para controlar fungos e prevenir doenças de espiga. Em algumas lavouras com cultivares suscetíveis à ferrugem e manchas, a infecção por outros patógenos, incluindo bactérias, pode ser favorecida devido à maior debilidade da planta, sendo então necessário continuar o controle para as demais doenças e não sobrestimar o potencial de dano causado pela bactéria”, afirma João Leodato.
Sementes de trigo
Pseudomonas syringae pv. syringae é uma bactéria capaz de sobreviver em diversos ambientes, tais como na superfície de plantas hospedeiras (se alimentando de substâncias produzidas nas folhas, mesmo sem causar sintomas), no solo, em restos culturais e nas sementes. A partir da semente de trigo ela pode ser transmitida para a nova planta.
Os sintomas dessa infecção aparecem já nas folhas primárias, na forma de lesões com aspecto encharcado, de cor verde-acinzentado a marrom-claro. Entretanto, a presença de Pseudomonas em sementes de trigo não tem sido associada à podridão ou morte de raízes das plantas.
A confirmação de que P. syringae pv. syringae está presente na semente pode ser realizada por meio de testes laboratoriais. Contudo, o pesquisador João Leodato Maciel reitera que não existem produtos bactericidas oficialmente registrados para o tratamento de sementes.
Ainda, segundo ele, os resultados obtidos na avaliação de tratamentos preventivos, como a termoterapia, não forneceram dados suficientes para recomendar esta prática como uma medida de manejo da doença viável tecnicamente. “A recomendação para evitar ou minimizar os danos da queima bacteriana causada por Pseudomonas é a utilização de sementes livres da bactéria, condição que está diretamente vinculada ao uso de sementes produzidas em lavouras com baixa ocorrência da doença”, orienta Maciel.
O pesquisador avalia que o uso de cultivares resistentes à doença também é uma medida importante que, entretanto, no Brasil se torna limitada devido ao pouco volume de informações relativas à reação das cultivares à queima bacteriana.
