Cerca de duas horas antes do início da audiência pública do Senado na 25ª Expodireto Cotrijal, centenas de produtores rurais aguardavam, sob o sol do meio-dia, a abertura das portas do auditório que abrigou o evento. O espaço, com capacidade para 300 pessoas, ficou pequeno para o ato convocado pelo senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS), e terminou ocupado por políticos, integrantes de entidades de representação do agronegócio gaúcha (parceiras na iniciativa) e instituições e empresas relacionadas ao setor.
Lá fora, agrupados em torno dos dois telões instalados pela organização da feira, ficou a multidão de produtores rurais. Todos eles aguardando uma solução para as dívidas acumuladas com as perdas acumuladas com safras perdidas desde 2020. Entre eles, estavam, por exemplo, José Scheibler, 67, e o filho Jeferson, 40, ambos produtores de soja, aveia e trigo em Bagé, cerca de 460 quilômetros distante de Não-Me-Toque, onde a Expodireto é realizada.
“Ano passado, perdemos 80% da lavoura por excesso de chuva”, disse o pai.
“Temos de nos esforçar agora para tentar salvar um pouco do que conseguimos conquistar a vida toda”, complementou. Jeferson prevê que entre 30% e 40% da soja plantada pela família na safra 2024/2025 tenha sido consumida pela falta de chuva e calor que afetam o Rio Grande do Sul desde meados de dezembro.
Marlene Busch, 64, veio do interior desde Ernestina, cerca de 40 quilômetros distante do parque da Expodireto. Professora aposentada, Marlene aguardava na fila de mais de cem metros (e que não era uma fila indiana) representando a família que produz soja, aveia e gado de corte em uma propriedade de 30 hectares.
“Estou marcando mês a mês. Em fevereiro, choveu 51 milímetros. Deveria ter chovido uns 200 milímetros, no mínimo”, disse Marlene, lamentando, emocionada, os prejuízos nos campos cobertos com a oleaginosa.
“Que venha uma mudança para o agro, securitização e que baixe o preço dos insumos”, pediu.
Poucos metros adiante de Marlene, estava Ivaldo José Frigetto, 50, de São Domingos do Sul, e Valmor Faé, 63, de Casca. A dupla de produtores segurava, estendida, uma faixa propondo o fim do pedágio no transporte de cargas do agro. Frigetto e Faé relataram ter criado o movimento “Pedágio Não” no dia 21 de dezembro.
“Como é que a gente vai transportar grãos e insumos com mais um custo?”, questiona Faé.
Relatando terem sido recebidos pelo secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Maciel Capeluppi, para apresentar a reivindicação, Frighetto promete, eventualmente, fazer crescer o protesto. “Estamos tentando primeiro por meio da conversa, mas, se não conseguirmos, vamos fechar estradas”, diz.