Enquanto a Europa começa a recorrer a híbridos para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas na produção de uvas, produtores gaúchos já colhem as frutas da variedade Lorena há quase duas décadas. Nem de mesa (americanas/vitis labrusca) e nem apenas fino (europeias/vitis vinífera), o vinho decorrente da variedade ocupa um espaço próprio no universo de Dionísio e de Baco - os famosos deuses grego e romano associados à bebida. Do laboratório à taça, a espécie desenvolvida em 15 anos de pesquisa pela Embrapa é encontrada dos garrafões a rótulos mais sofisticados na Expointer 2025, em Esteio.
O chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da unidade Embrapa Uva e Vinho, Henrique Pessoa dos Santos, destaca que a Lorena vem se consolidando como uma variedade capaz de derrubar barreiras históricas do setor e trazendo novas perspectivas à viticultura.
“Juntamos esses dois mundos, a rusticidade da vitis labrusca e o sensorial da vitis vinífera”, explicou, referindo-se a cultivar sobre a Lorena.
A variedade apresenta ciclo intermediário, alto potencial produtivo, boa resistência às principais doenças de videiras com aroma e sabor moscatel ideais para a elaboração de vinhos brancos de mesa aromáticos e frisantes. “Botanicamente é um híbrido porque juntou duas espécies, mas a parte sensorial lembra um vinho fino”, detalhou. Santos acrescenta que a legislação brasileira, em razão da uva Lorena ser um varietal híbrido, não permite a classificação como vinho fino. “A Embrapa está atuando para rever essa categoria. Na Europa, região tradicional dos vinhos finos, em função das mudanças climáticas, o setor teve que dar o braço a torcer e começar a introduzir híbridos. O detalhe importante é que saímos (Brasil) na frente”, pontuou.
O chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento complementou que os europeus começaram a considerar as variedades híbridas como uma ferramenta de adaptação, para resistência e garantia de safra. “Eles estão trabalhando com produtos com característica de vinho fino, a exemplo do Lorena. Aqui (Brasil) também temos que dar outra valorização”, afirmou Santos.
Nessa direção, a Embrapa está lançando o concurso 1ª Seleção de Vinhos de BRS Lorena, estimulando as vinícolas de todo o país a participarem com o objetivo de incentivar a melhoria contínua da qualidade dos vinhos e derivados elaborados com a cultivar. Santos adianta que serão diversas categorias: vinho branco (seco, demi-sec e suave) vinho branco frisante (seco, demi-sec e suave), espumantes naturais (brut e demi-sec), vinhos licorosos e suco de uva integral. As inscrições iniciam a partir de 22 de setembro.
Mateus Dalla Corte, proprietário da Vinícola Dallavino, em Garibaldi, oferece degustação aos visitantes do Pavilhão da Agricultura Familiar, na Expointer. Ele conta que foi um dos pioneiros em seu cultivo, há 23 anos, com o objetivo de fazer um teste.
“Ela se adaptou muito bem na minha propriedade e também na região do Vale dos Vinhedos, de graduação muito boa que proporciona um vinho adocicado e leve de ser consumido. Pode ser apreciado o ano inteiro, harmoniza com carnes e até sobremesas”, destacou.
Conforme Corte, atualmente, 80% da produção de vinho branco na sua vinícola é feita com a uva Lorena.