O suicídio é a mais solitária das mortes, escreveu Otávio Frias Filho, no livro Queda livre, no qual aborda o tema. Em 2017, decidi tratar desse assunto na minha dissertação em Comunicação Social. Naquele momento, era noticiado um aumento nos casos de automutilação envolvendo jovens.
Falar sobre a relação entre o suicídio e o jornalismo era uma forma de entender como a imprensa poderia colaborar na maneira de expor o tema. Afinal, durante anos predominou o tabu de que o assunto não deveria ser veiculado para não gerar o efeito de contágio, em outras palavras, não estimular outros casos. Como falar sem poder falar? Uma equação difícil. Afinal, é preciso dar luz a determinados assuntos para desenvolver estratégias e enfrentar os problemas.
Recordo, então, de uma entrevista com o especialista nacional no assunto, doutor Neury Botega, afirmando que essa visão mudou. Ele foi enfático ao dizer que essa fase havia passado. E que, para ele, o desafio atual era saber como falar. A imprensa não deve abordar a temática do suicídio para glorificar ou gerar conteúdo sensacionalista. Apesar de, infelizmente, isso ainda ocorrer, o foco deveria ser abrir espaço e gerar debates em que a saúde mental e o sofrimento psíquico não fossem encarados com preconceito, mas seriedade.
Que o sofrimento do outro, ou o de si mesmo, pudesse reverberar e encontrar acolhimento antes de um efeito trágico.
Foi exatamente esse o desafio que eu e a minha colega Karina Reif nos colocamos ao trazer nesta série de reportagens o sofrimento que se esconde entre plantações ou terrenos descampados. Do mesmo lugar de onde vem parte importante do Produto Interno Bruto (PIB), também nasce a dor. Que essas histórias e orientações de especialistas ajudem a ser uma fonte de esperança e de acolhimento aos que mais precisam. Afinal, é responsabilidade de toda a sociedade, incluindo o poder público, achar formas de evitar que essas tragédias sigam ocorrendo.
Leia na íntegra as reportagens da série
Entre lavouras e silêncio: a saúde mental dos agricultores em alerta no Rio Grande do Sul
O que mais causa sofrimento ao agricultor
O impacto na vida das pessoas que ficam
Redes voluntárias de acolhimento para agricultores
Escuta e prevenção do suicídio no meio rural