Rural

Redes voluntárias de acolhimento para agricultores

Após perdas em virtude de efeitos climáticos e dívidas, produtores encontram apoio em iniciativas espontâneas

Iniciativas de escuta e acolhimento surgem como caminhos para prevenir novas tragédias
Iniciativas de escuta e acolhimento surgem como caminhos para prevenir novas tragédias Foto : Mauro Schaefer

Histórias como a de Pedro, de 35 anos, mostram o impacto do cenário da saúde mental no campo, principalmente em momentos de instabilidade. Dedicado à produção de grãos, o agricultor enfrentou sucessivas perdas por estiagem e enchentes, acumulando dívidas. “Ele não conseguia aceitar ter conseguido chegar a um patamar que muito almejava e ter que abrir mão de tudo”, conta a ex-esposa Maria, com quem teve um filho. Pedro começou arrendando pequenas áreas, vendeu o carro para comprar um trator e ampliou a produção, mas três safras ruins comprometeram o projeto que ele tinha para os anos seguintes. Ao perder maquinário, terras e crédito, entrou em desespero.

“Não sabia lidar com a ideia de ficar devendo”, lembra Maria.

Ela também relata que o homem não buscou tratamento para a depressão e não tirava tempo para cuidar da própria saúde. Após a morte, a família segue lidando com o luto e as consequências financeiras. “O pai dele era avalista de alguns financiamentos. Então, ficou com as dívidas”, afirma. A história é única, mas reúne elementos observados em diferentes regiões do Rio Grande do Sul: perdas climáticas sucessivas, endividamento crescente e dificuldade de compartilhar o sofrimento emocional. Diante desse contexto, iniciativas de escuta e acolhimento surgem como caminhos para prevenir novas tragédias no campo.

Grupos

Para falar sobre o assunto e dar suporte a quem apresenta sofrimento mental no campo, tanto pela situação de quebra de safra, como por outras razões, redes voluntárias se formaram no Estado. Após perder 80% da produção de soja nas enchentes de maio de 2024, a produtora rural Graziele de Camargo, de São Sepé, passou a receber relatos de agricultores desesperados. Em poucos meses, um grupo criado para troca de informações evoluiu para uma mobilização com milhares de integrantes e, depois, para o projeto SOS Coragem no Campo, voltado ao apoio psicológico gratuito.

Segundo dados informais reunidos pelo grupo, desde julho do ano passado, 37 produtores teriam tirado a própria vida no Estado. Embora não oficiais, os números indicam, para a produtora, a dimensão do sofrimento. Em menos de um mês, a rede já reunia cerca de 8 mil participantes. O foco inicial era pressionar por medidas emergenciais de renegociação de débitos, mas a frequência de relatos sobre problemas emocionais levou à criação de atendimentos com psicólogos voluntários de diferentes estados, realizados de forma on-line. O projeto também oferece um canal digital de escuta, que funciona como porta de entrada para orientação e encaminhamento.

“Percebemos que não bastava discutir dívida e política agrícola. Havia pessoas adoecendo”, afirma Graziele.

Segundo ela, a maioria dos casos envolve homens, que têm maior dificuldade de compartilhar angústias. A constatação levou à criação de ações voltadas ao fortalecimento da presença feminina nas propriedades e ao apoio às esposas e filhas de produtores. “Aquele produtor que está com problemas tem a esposa, a filha, a mãe. Elas estão junto e apoiando. Ele se sente mais fortalecido para enfrentar o problema”, observa a agricultora.

Além do atendimento psicológico, o movimento mantém articulação com sindicatos e busca diálogo com o governo estadual para que a experiência contribua com políticas públicas permanentes de saúde mental no meio rural. “No interior, muitas vezes ninguém sabe o que o vizinho está passando. Por ser mais isolado, complica muito mais. A gente entendeu que precisava criar um espaço de escuta”, diz. O contato pode ser feito diretamente pelos links presentes nas redes sociais ou por mensagens na página @sosagrorsbr, no Instagram.

Leia na íntegra as reportagens da série.

Entre lavouras e silêncio: a saúde mental dos agricultores em alerta no Rio Grande do Sul

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