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Febre da proteína na alimentação movimenta indústria de lácteos

De olho na tendência de busca por saúde e bem-estar, marcas de laticínios ampliam oferta de derivados de leite enriquecidos com macronutriente e levam mais informação aos rótulos

Prateleiras expõem uma variedade de bebidas proteicas lácteas, que viraram sensação entre diferentes públicos
Prateleiras expõem uma variedade de bebidas proteicas lácteas, que viraram sensação entre diferentes públicos Foto : Mauro Schaefer

É praticamente impossível circular pelo supermercado sem notar o hype: a proteína parece estar em todo lugar. Antes mais associado aos praticantes de musculação, o macronutriente ultrapassou o nicho dos suplementos alimentares e passou a ser mencionado com pompa nos rótulos dos mais diversos itens, de biscoitos a refrigerantes. Atenta às tendências nutricionais, a indústria de lácteos investe cada vez mais em derivados de leite com alto teor desse atributo, ao mesmo tempo em que cresce a demanda por whey protein, o concentrado mais usado no enriquecimento industrial dos produtos. Quem observa a onda diz que ela veio para ficar.

Para o pesquisador Paulo do Carmo Martins, da Embrapa Gado de Leite, com sede em Juiz de Fora (MG), o segmento de lácteos vive um cenário sem precedentes na medida em que a sociedade ficou mais complexa.

“Temos o idoso que assume que é idoso e quer mostrar que tem vitalidade. Temos diferentes gerações, todas com uma perspectiva de valorizar o alimento sob a ótica não apenas do sabor, mas sob uma ótica nutricional. As famílias estão menores, e cada vez mais as pessoas buscam alimentos funcionais, fáceis de consumir”, analisa Martins.

Poucas transformações, porém, vêm influenciando tanto o carrinho de compras quanto a popularização dos medicamentos injetáveis conhecidos como GLP-1, as famosas “canetas emagrecedoras”. Indicadas no tratamento da obesidade, elas reduzem o apetite e podem exigir maior quantidade de proteína no prato para evitar a perda de massa muscular. Isso, segundo Martins, elevou o leite a um novo status, pois o alimento já contém naturalmente proteína em sua composição.

“As canetinhas estão mudando o padrão alimentar no Brasil e no mundo. O alimento passa a ser valorizado não porque é saboroso, mas porque tem proteína. E a indústria de lácteos tem sido hábil em criar alternativas de consumo por faixa etária. Você já imaginou ter fila para bebida láctea no Rock in Rio? Isso aconteceu este ano”, destaca Martins, referindo-se a uma ação inédita da Piracanjuba. Em setembro, a empresa levou à Cidade do Rock um estande de 100 metros quadrados para ativação de marca e experimentação da edição especial de uma linha de bebidas proteicas.

O diretor administrativo da Cooperativa Santa Clara, Alexandre Guerra, atesta a agilidade da indústria em agregar valor a itens que já faziam parte da rotina do consumidor. Ele resume a tendência citando uma linha do tempo dos lançamentos da marca gaúcha para contemplar a demanda por bem-estar.

“(Primeiro), os produtos integrais. Aí vieram os produtos com probióticos; os ‘zero lactose’, que é uma linha grande, com queijos, leites, cremes; os produtos com redução de sódio, os ‘triplo zero’ (zero gordura, zero açúcar, zero lactose). Agora estamos falando de proteína”, enumera o executivo, prevendo que a próxima febre serão as bebidas lácteas enriquecidas com fibras, voltadas à terceira idade.

Em resposta às expectativas do consumidor, Guerra afirma que a Santa Clara vem inovando na apresentação dos produtos. As tendências impactam também a comunicação da marca. Oferecida em caixinhas de 250 mil com 15 gramas de proteína, a linha de bebidas Pro, por exemplo, ganhará em novembro uma versão em 500 ml com 30 gramas do macronutriente. “Agora começamos a informar na embalagem o quanto tem de proteína a cada 100 gramas. No mês que vem (novembro), vamos destacar, por exemplo, nos queijos fatiados, que a cada 100 gramas de queijo tem 25 gramas de proteína. O consumidor quer saber exatamente a quantidade que está levando”, explica.

Maior empresa de lácteos do Brasil, o grupo Lactalis também acompanha o movimento com novidades no portfólio de marcas da empresa, entre as quais a Parmalat e a Batavo. Um exemplo é a linha Parmalat Fit, de iogurtes, bebidas lácteas e queijo muçarela com alto teor proteico. O diretor da multinacional francesa no Brasil, Guilherme Portella, diz que, na corrida da proteína, ainda há muito espaço para crescimento.

“O que o consumidor busca cada vez mais é o padrão nutricional. A parte de proteínas cresce a duplo dígito no Brasil. É uma tendência global e, quando você analisa o consumo per capita (no mundo), é muito maior do que o brasileiro. Por efeito do uso das canetas, deve se ampliar bastante nos próximos anos”, avalia Portella.

Segundo o executivo, o consumo de derivados de leite no Estado é superior à média nacional, aproximando-se dos números registrados nos vizinhos Uruguai e Argentina. “O gaúcho tem muito presente na sua dieta o consumo de queijos, de leite fluido e, agora, de proteína. 60% do (leite) que se produz aqui tem que ser transformado e vendido em outros estados do Brasil. De qualquer maneira, o mercado per capita do Rio Grande do Sul é o maior per capita do Brasil”, diz Portella, que também é presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindilat-RS).

Ingrediente escasso

Paulo Martins, da Embrapa, observa que o interesse crescente por suplementos de whey protein e alimentos enriquecidos com proteínas possibilitou aos laticínios o aproveitamento do soro do leite, líquido que sobra da produção de queijos. Sem valor comercial, o resíduo era usado na alimentação de suínos ou descartado em cursos d’água. “Era um problemão, gerava impacto ambiental, multa”, lembra.

Hoje, apesar do potencial de expansão dos alimentos proteicos, os laticínios ainda não conseguem atender à demanda do mercado em razão de um gargalo na capacidade das indústrias que filtram e secam o soro bruto de leite, para transformá-lo no pó usado nas formulações. Muitas indústrias compram ingredientes como o WPC (Whey Protein Concentrado) de terceiros, e o Brasil depende da importação. No caso da Lactalis, a empresa mantém uma unidade produtiva integrada à sua fábrica de queijos em Três de Maio.

“É um processo supertecnificado, o mais tecnológico que existe dentro da cadeia de laticínios. Mas novos investimentos têm sido realizados para aumentar cada vez mais essa capacidade de produção no mercado nacional”, diz Guilherme Portella.

Pesquisa reflete novos padrões de consumo

Iogurtes sem lactose, bebidas proteicas e leite em pó apresentaram crescimento em levantamento da Embrapa Gado de Leite | Foto: Fabiano do Amaral

Os investimentos para unir o apelo dos derivados de leite ao dos atributos de bem-estar vem se refletindo no Radar do Consumo de Lácteos, pesquisa do Centro de Inteligência do Leite (CILeite) da Embrapa Gado de Leite, com sede em Juiz de Fora, em Minas Gerais. A última publicação indicou um avanço no consumo de bebidas lácteas proteinadas, que saltou 38,3% em setembro na comparação com o mesmo mês de 2025 e acumula alta de 39,1% nos primeiros nove meses deste ano.

No levantamento, são analisadas 13 categorias de lácteos e 43 linhas de produtos, explica a pesquisadora da Embrapa Gado de Leite Kennya Siqueira, coordenadora do estudo.

“A bebida láctea proteinada é um caso bem interessante, porque começamos com isso lá atrás, eram (itens) mais direcionados para jovens e crianças e agora você tem um público ‘fitness’, mais preocupado com bem-estar, que está buscando essa bebida. São produtos de nicho, ainda não atingem a população toda, mas estão crescendo muito”, avalia Kennya.

Outro destaque do estudo é o tradicional leite em pó, apontado como a categoria de maior crescimento do painel em 2026, com avanço de 18,2% em setembro e de 6,7% no acumulado do ano. A publicação sugere que esse desempenho se deve ao uso do produto como um complemento proteico de menor custo, observando que, nas redes sociais, ganham espaço receitas de alimentos que o adicionam ao leite fluido, ao iogurte ou combinado ao whey protein. “O (aumento) do preço do longa vida não explica totalmente isso. Estamos vendo uma mudança estrutural no caso do leite em pó”, afirma Kennya.

O Radar destaca ainda que a demanda por linhas de iogurte sem lactose aumentou 22,3% em setembro frente ao mesmo mês do ano passado, enquanto as demais linhas da categoria caíram 10,3% na mesma base de comparação. Kennya explica que, como envolve uma amostra focada no varejo do interior de Minas Gerais, a pesquisa não reflete o mercado nacional. “Mas ela dá um direcionamento do consumo. As pessoas estão indo com propósito no supermercado. Você não vai simplesmente comprar um requeijão: você tem uma variedade tão grande, por exemplo, um requeijão light, um requeijão sem lactose, e vai procurar atributos específicos”, diz a pesquisadora.

Nutricionista explica necessidades e riscos na ingestão de proteínas

Fabiane Dal-Ri Campbell atende pacientes bariátricos, além de gestantes, lactantes, bebês e crianças na rede de saúde pública nos EUA | Foto:

Radicada nos Estados Unidos, a nutricionista gaúcha Fabiane Dal-Ri Campbell é especializada no atendimento a pacientes bariátricos e também atende gestantes, lactantes, bebês e crianças na rede de saúde pública do condado de Arlington, no estado da Virgínia. A pedido da reportagem, ela respondeu a questões relacionadas ao uso de proteínas na alimentação.

Quantidade ideal

Para adultos saudáveis com Índice de Massa Corporal (IMC) dentro da faixa ideal, que não estão se recuperando de cirurgia nem em processo de emagrecimento, mas buscam uma alimentação equilibrada, consumir de 0,8 a 1,0 grama de proteína por quilo de peso corporal já é suficiente (para pessoas a partir de 50 anos, recomenda-se 1,0 a 1,5 grama/kg de peso corporal devido ao processo de sarcopenia (perda de massa muscular). Para atletas de alto rendimento, a recomendação é de 1,2 a 2,0 g/kg de peso corporal. Essa quantidade é facilmente alcançável com o consumo de ovos, carnes, frutos do mar, leite e derivados, nozes, lentilha, feijão, quinoa, grão-de-bico, tofu e manteiga de amendoim, sem precisar recorrer a alimentos fortificados com whey ou proteínas de soja, ervilha ou cânhamo, ou ainda suplementos proteicos em pó.

De acordo com a OMS, a ingestão ideal de proteínas para pessoas saudáveis deve ser de 10% a 15% do consumo total de energia (total de calorias) diária. O brasileiro médio chega a 18%, mesmo nas classes sociais de menor renda. Nos Estados Unidos, a média é de 16%, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (NHANES) dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Consumo exagerado

A ingestão de proteína em quantidades muito acima das necessidades do indivíduo pode causar aumento de peso (principalmente se a maior fonte de proteína for rica em gordura saturada), problemas digestivos, constipação, desidratação, sobrecarga nos rins, dor de cabeça e irritabilidade.

Fontes mais saudáveis

Nem todos os alimentos ricos em proteína são iguais quando se trata de processamento. Barras de proteína, shakes e outros produtos fortificados podem fornecer quantidades impressionantes de proteína — mas muitas vezes ao custo de dezenas de aditivos, adoçantes artificiais e alto processamento industrial. Carnes secas, queijos duros (como parmesão), sementes e farinhas de leguminosas estão entre os alimentos que fornecem a maior quantidade de proteína por 100 gramas. Essas fontes de “comida de verdade” superam a maioria dos produtos altamente processados fortificados com proteína.

Alimentos processados

Para identificar a quantidade de proteína nesses alimentos, deve-se revisar a tabela nutricional e verificar a quantidade de proteína por porção do produto e por 100 gramas (se quiser comparar com a quantidade de proteína fornecida por 100 gramas de outros alimentos). Para alimentos não processados, consultar tabelas nutricionais ajuda o consumidor a descobrir quantas gramas de proteína suas escolhas diárias desse nutriente fornecem.

Resumo da obra: proteínas são fundamentais para a manutenção da saúde, mas o alto teor proteico de um alimento processado não significa necessariamente que seja um alimento saudável. O ideal é escolher fontes de proteínas das categorias 1 e 3 do sistema NOVA, que classifica os alimentos acordo com o grau de processamento industrial. Consumir um alimento ou macronutriente em excesso pode causar mais mal do que bem.

Medicamentos GLP-1 (canetas emagrecedoras)

Indicados exclusivamente para tratamento da diabetes tipo 2 ou para pessoas com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, isto é, com Índice de Massa Corporal (IMC) ≥ 30 (obesidade) ou IMC ≥ 27 (sobrepeso). Esses fármacos não devem ser empregados com o objetivo de promover perda de peso rápida por pessoas que não se enquadram nessas condições. Adicionalmente, o benefício depende da continuidade do tratamento; a interrupção do uso resulta na reconquista do peso perdido.

Orientações sobre canetas emagrecedoras

Em razão da sensação de saciedade induzida por esses medicamentos, muitos pacientes enfrentam dificuldade em ingerir uma quantidade de alimentos suficiente para suprir suas necessidades de macronutrientes (proteína, carboidrato e gordura), micronutrientes (vitaminas e minerais) e fibras. Quando o consumo energético fica muito reduzido, é importante, ao menos, tentar preservar a proporção ideal de macronutrientes para não comprometer funções fisiológicas e proteger a massa muscular. O ideal seria consumir aproximadamente 50% do total de calorias provenientes de carboidratos; por volta de 20% do total de calorias provenientes de proteínas; 30% provenientes de gordura. Se a ingestão energética for excessivamente baixa, pode ser necessária a administração de suplementos de vitaminas e minerais para prevenir deficiências. Déficits crônicos de vitaminas e minerais podem desencadear diversas patologias.

De modo geral, é indicado que pacientes em processo de perda de peso – independentemente do uso de medicamentos da classe GLP-1 – tenham um consumo diário de proteínas mais elevado que indivíduos saudáveis que não pretendem perder peso. Isso ocorre porque a ingestão de alimentos com alto teor de proteína aumenta a saciedade e contribui para manter a massa muscular quando o déficit energético é muito grande. Para adultos com sobrepeso, mas sem comorbidades, ingestões de 1,0 a 1,2 g/kg de proteína por quilograma de peso corporal são consideradas suficientes. Para pacientes adultos com obesidade, recomenda-se 1,0 a 1,5 g/kg de proteína por quilograma de peso ajustado como valor suficiente.

Independentemente de peso e idade, indivíduos com determinadas enfermidades (queimaduras, doença hepática, doença renal, câncer, pós-cirúrgico e outros casos) têm necessidades nutricionais diferenciadas, portanto a quantidade recomendada de proteína também pode variar significativamente.

Seja por praticidade/conveniência ou para garantir o consumo da quantidade diária recomendada de proteína para pacientes com apetite reduzido, bebidas prontas para o consumo (shakes de proteina) ou iogurtes fortificados com proteína (normalmente proveniente do soro do leite de vaca, ovelha ou cabra, ou seja, whey) são muito populares nos Estados Unidos. Esses alimentos também tendem a ser usados como substitutos de refeições. Em geral, essas opções fornecem uma quantidade de proteína de 20 a 30 gramas (o equivalente a 2 ou 3 ovos ou 80 a 100 gramas de peito de frango). Suplementos de proteína em pó produzidos a partir do soro de leite animal (whey) são mais frequentemente consumidos por esportistas ou pessoas interessadas no desenvolvimento de hipertrofia muscular.

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