O trabalho rural na Penitenciária Estadual de Sapucaia do Sul reúne perfis distintos. No grupo que atua no local, há alguns que reencontram uma atividade conhecida e outros que descobrem uma nova possibilidade para o futuro.
Leia mais
Entre oportunidades e limites do trabalho
Assim como Nelson, de 77 anos, que voltou a lidar diariamente com a terra na prisão, Ronildo, de 58 anos, conta que apesar de exercer, predominantemente, as profissões de pedreiro e de pintor, foi criado no interior e já plantou milho e soja. “O trabalho aqui ajudou, não fiz mais nada de errado”, afirma, lembrando que os planos para o futuro são voltar para o convívio da família e, quem sabe, continuar mexendo com as plantas.
Bem diferente é a trajetória de Juan, de 36 anos. Ele é o mais novo do grupo. Antes da prisão, trabalhou em uma padaria, em empresas e fazia serviços temporários. Neste período, não chegou a ter contato com a agricultura. “Aprendi aqui”, afirma. Para ele, o tempo na horta é menos penoso e mais agradável. “Muitas pessoas fumam aqui dentro. É melhor ficar fora, ao ar livre”, descreve.
Ao deixar o sistema prisional, pretende voltar para a cidade onde mora a mãe. Não espera encontrar trabalho no campo, mas acredita que o conhecimento adquirido poderá ser aproveitado de outra forma. “Já é uma possibilidade”, diz, ao imaginar uma pequena horta em frente à casa da família.
Outro integrante da equipe é Renato, de 68 anos. Caminhoneiro de profissão, ele já tinha contato com atividades rurais antes da prisão, principalmente em serviços particulares e no cultivo em casa. Desde setembro de 2025 na Pess, ajuda a produzir alimentos destinados ao refeitório da unidade e também às doações feitas para instituições. Quando deixar o sistema prisional, pretende voltar à antiga profissão. Ainda assim, diz que o trabalho na horta faz diferença na rotina do cárcere.
“É como estar em liberdade aqui, né? Tu pode pegar sol. Tu está fazendo o que tu gosta”, resume.
Universidade entram em campo
Histórias como essas mostram que a horta pode representar diferentes oportunidades. Em algumas unidades, esse processo é reforçado por universidades, que levam conhecimento técnico sobre horticultura, manejo orgânico e cultivo de hortaliças, com o objetivo de ampliar a formação dos apenados e qualificar a produção em si.
Uma das experiências foi desenvolvida pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) Campus Bento Gonçalves. Contemplada em um edital do Ministério da Educação (MEC), a instituição ofereceu, em 2022 e 2023, duas turmas do curso de Formação Inicial e Continuada (FIC) de Horticultor Orgânico, com carga horária de 160 horas, no Presídio Estadual de Bento Gonçalves.
Segundo a professora de agronomia Andressa Comiotto, os detentos já mantinham uma horta, mas o curso agregou conhecimento técnico e infraestrutura. Durante o projeto, foram adquiridos equipamentos, ferramentas, mangueiras, mudas e insumos para o cultivo orgânico. Os participantes também receberam orientações sobre controle de pragas e doenças por meio de inseticidas e fungicidas orgânicos.
Devido às especificidades do ambiente prisional, a experiência exigiu adaptações. Como as aulas práticas dependiam da disponibilidade dos agentes penitenciários, apenas cinco apenados participavam por vez, em um cronograma previamente aprovado pela direção da unidade. Ao final do curso, os participantes receberam certificado de conclusão.
Além da qualificação, a professora lembra momentos que marcaram a experiência, como a presença de alguns presos que não colocavam os pés na terra há cerca de dez anos e outros voltaram a comer morango depois de 15 ou 20 anos. A estrutura da horta também foi ampliada ao longo do programa, incluindo a implantação de uma estufa, que permitiu a manutenção do cultivo no inverno. Agora, a universidade busca recursos para começar uma experiência rural em um estabelecimento em Montenegro.
Na Campanha, uma iniciativa semelhante foi desenvolvida pela Universidade da Região da Campanha (Urcamp), em Bagé. Professores e estudantes do curso de Agronomia realizaram visitas à unidade, ensinaram técnicas de semeadura em bandejas, preparo dos canteiros, adubação orgânica e manejo em geral.
Segundo a professora do Curso de Agronomia da Urcamp Ana Claudia Huber, o espaço já possuía canteiros, sombrite e sistema de irrigação. Durante o projeto, a equipe melhorou a estrutura, orientou o plantio e doou sementes. A iniciativa, no entanto, teve curta duração porque os apenados desistiram. “Os apenados acharam muito trabalhoso. No início, ensinamos a semearem nas bandejas, depois eles já estavam pedindo doação de mudas de hortaliças porque não queriam semear e acabou de vez. Penso que o projeto foi muito rápido e não deu tempo de realizar mais oficinas”, esclarece, mostrando que nem todas as iniciativas têm o resultado esperado.
Mesmo assim, a experiência continua inspirando novas ações. A Urcamp mantém parceria com o presídio de Rio Grande, para onde doa sementes e mudas. A produção é utilizada no refeitório da unidade, e parte dos alimentos também é destinada a doações. Em Bagé, há planos para um projeto com apenados do regime semiaberto, por meio de oficinas de aprendizagem e da implantação de uma nova horta.
Para Ana Claudia, iniciativas desse tipo podem contribuir para a reinserção social dos detentos.
“Penso que o projeto é extremamente interessante para os apenados voltarem à vida social com uma luz no fim do túnel, mais motivados.”
Produção rural em presídios do RS