Um relatório da Oxfam divulgado, nesta terça-feira (20), mostra que produtos tóxicos demais para uso dentro da União Europeia continuam sendo produzidos na Europa e exportados para dezenas de países. “Plantações em países como Brasil e África do Sul são pulverizadas com grandes quantidades de agrotóxicos altamente perigosos (AAPs) fabricados por empresas europeias. Além das frutas, vegetais e commodities agrícolas, trabalhadores rurais, suas comunidades e o meio ambiente são expostos aos impactos desses produtos químicos tóxicos”, diz o documento.
Segundo a Oxfam, os pesticidas altamente perigosos representam aproximadamente um terço dos ingredientes ativos utilizados globalmente e são empregados principalmente em países do Sul Global, onde os mecanismos de proteção e regulamentação costumam ser mais frágeis. No Brasil, os AAPs correspondem a 49% de todos os agrotóxicos vendidos, uma proporção muito superior à observada em países da União Europeia, como a Alemanha, onde representam apenas 12% das vendas.
O relatório mostra como as políticas e a regulamentações da União Europeia criam um duplo padrão, protegendo parcialmente sua própria população e meio ambiente enquanto permitem que substâncias proibidas continuem sendo produzidas e exportadas para outros países. Em 2024, os Estados-membros da UE exportaram quase 122 mil toneladas de pesticidas proibidos dentro do bloco, mais do que o dobro do volume exportado em 2018.
“Não é aceitável que a União Europeia proíba determinados agrotóxicos para proteger sua própria população e, ao mesmo tempo, permita que essas mesmas substâncias sejam produzidas e exportadas para outros países. Esse duplo padrão transfere os riscos para trabalhadores rurais, comunidades e territórios do Sul Global, enquanto os benefícios econômicos ficam concentrados em poucas empresas”, afirma Viviana Santiago, diretora da Oxfam Brasil.
O Brasil, maior mercado de pesticidas do mundo, foi o segundo maior importador desses produtos proibidos pela UE, recebendo cerca de 15 mil toneladas em 2024, mostra o documento. Só naquele ano, aproximadamente 908 mil toneladas de ingredientes ativos foram comercializadas no país.
O relatório destaca ainda que seis dos dez pesticidas mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia, mas continuam sendo pulverizados sobre lavouras e áreas próximas a florestas por tratores, aviões e drones. “Esse uso intensivo está diretamente ligado ao modelo agrícola baseado em grandes monoculturas voltadas para exportação, como soja, café e cana-de-açúcar, altamente dependentes de agrotóxicos.”
Apenas quatro empresas controlam 61% do mercado global de pesticidas e obtiveram cerca de € 2,7 bilhões em receitas (R$ 15,37 bilhões) provenientes da venda de pesticidas altamente perigosos, evidenciando a concentração de poder econômico e os lucros gerados por esse comércio tóxico.
Enquanto isso, a expansão do mercado brasileiro segue acelerada. Em 2025, o país registrou um novo recorde de aprovações, com 725 novos pesticidas autorizados, um aumento de quase 10% em comparação com o recorde anterior de 663 produtos registrados em 2024.
“É preciso interromper a exportação de agrotóxicos proibidos e avançar em regras que coloquem a saúde, os direitos das pessoas e a proteção ambiental acima dos interesses comerciais”, conclui Viviana Santiago.
