Na última semana, uma decisão técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ganhou repercussão política e rendeu protestos e memes nas redes sociais. A fiscalização detectou possíveis falhas no controle de produção de uma fábrica da Ypê em Amparo (SP) e constatou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa.
O microrganismo, comum no ambiente, é conhecido por causar infecções principalmente em pessoas com a imunidade comprometida. A contaminação levou a Anvisa a suspender a fabricação, comercialização e distribuição de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes da marca com lotes de numeração final 1.
A decisão levou em conta fatores novos, mas também o histórico de problemas com contaminação da empresa, que já enfrentou problemas semelhantes em 2024 e 2025.
A empresa recorreu e levantou a suspensão. Mesmo assim, a agência mantém o alerta de risco sanitário e orienta os consumidores a não usar 23 itens com lotes de final 1 afetados pela decisão.
O que era apenas uma decisão técnica ganhou contornos surpreendentes nas redes sociais bolsonaristas, tornando-se bandeira política da direita.
Diversos perfis publicaram vídeos em que pessoas aparecem supostamente bebendo detergente Ypê diretamente da embalagem, outros utilizam o produtos para lavar as mãos ou tomar banho - incentivando o consumo dos produtos, apesar das recomendações sanitárias.
Afinal, por que faz mal ingerir detergente?
Produtos de limpeza não são indicados para o consumo humano e, portanto, não passam pelos testes de segurança necessários para esta finalidade. Os riscos trazidos pela ingestão de detergente incluem reações gastrointestinais, vômitos e diarréia.
As manifestações dependem da dose ingerida. Em doses muito pequenas, as reações tendem a ser leves. Mas a ingestão de doses elevadas de detergente pode levar à morte, afirma Rafael Linden, doutor em Biologia Celular e Molecular e professor titular da Universidade Feevale.
“Esses produtos contêm tensoativos, sequestrantes, corantes e conservantes que podem provocar reações gastrointestinais severas, com lesões na mucosa, náuseas, vômitos e diarréia. Doses elevadas podem gerar lesões erosivas no trato gastrointestinal e o vômito associado a esta ingestão pode causar quadros de pneumonite química”, explica o professor.
O desconforto gástrico pode se manifestar em poucos minutos. Em caso de ingestão - acidental ou proposital - a recomendação é procurar atendimento médico rapidamente. Forçar o vômito não é indicado.
“Não são indicadas medidas como indução de vômito pelo risco de complicações, como aspiração pulmonar”, afirma Linden.
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“Anvisa não tem lado partidário”
Em um dos vídeos, um homem entorna um frasco de detergente Ypê e faz um gesto obsceno direcionado a “petistas”. Em outro vídeo, o deputado federal Sargento Fahur (PL-PR) aparece lavando o bigode com o produto.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, se manifestou nessa segunda-feira,11, em defesa da agência. "A Anvisa não tem lado partidário, o único lado que a Anvisa tem é o da saúde das famílias brasileiras", afirmou Padilha.
O ministro destacou a participação de órgãos ligados ao governo de São Paulo, comandado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas, na ação que fiscalizou a fábrica da Ypê. Padilha citou ainda que o diretor responsável pela área técnica da Anvisa, Daniel Meirelles Fernandes Pereira, “foi indicado no governo Bolsonaro, atuou no Ministério da Saúde naquele período e hoje cumpre uma função técnica dentro da agência”.
O caso chegou até a Procuradoria-Geral da República (PGR). O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) anunciou que pedirá à PGR uma investigação contra a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Cleitinho (Republicanos-MG) por incentivarem o uso de produtos da marca Ypê mesmo após alertas sanitários emitidos pela Anvisa.
Independente da orientação política e ideológica de cada um ou da marca de detergente de preferência, ingerir detergente ou outros produtos de limpeza faz mal à saúde e, em doses elevadas, pode até levar à morte.