Saúde

Polilaminina: entenda como a molécula testada em lesões da medula pode auxiliar a recuperar movimentos do corpo

Pesquisa de mais de 25 anos é conduzida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas ainda aguarda aval da Anvisa seguir para fase de teste em seres humanos

De acordo com a OMS, lesões na medula afetam anualmente entre 250 e 500 mil pessoas no mundo
De acordo com a OMS, lesões na medula afetam anualmente entre 250 e 500 mil pessoas no mundo Foto : Leandro Maciel

Nos últimos dias, foi divulgada a descoberta brasileira da existência de uma molécula testada em lesões da medula espinhal que pode ajudar a devolver movimentos a quem não consegue mais andar, devido a um medicamento experimental capaz de regenerar neurônios e restaurar funções motoras perdidas. É o caso de uma pesquisa de 25 anos, conduzida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que mostrou ser possível tratar totalmente ou parcialmente quem perdeu os movimentos do corpo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que lesões na medula afetam anualmente entre 250 e 500 mil no mundo.

Uma das pessoas que tiveram a chance de recuperar os movimentos por meio do medicamento foi Bruno Drummond de Freitas, de 31 anos. Em 28 de abril de 2018, com 23 anos, ele sofreu um acidente de carro, teve uma lesão na medula e ficou tetraplégico. Não mexia nada do pescoço para baixo. “Não lembro de nada, só lembro de ter acordado depois da cirurgia sem movimento nenhum”, conta.

Os estudos mostraram que a eficácia da proteína é maior quando injetada após o trauma. No caso do paciente Bruno, a aplicação foi feita menos de 24 horas depois da lesão. “Três semanas depois do acidente, eu conseguia mexer o dedão do pé, e começaram a criar mais esperanças de recuperação de movimento”, relata Bruno. Durante dois anos, ele passou por muitas sessões de fisioterapia e voltou a andar. O progresso foi lento, mas aconteceu: seus primeiros passos foram com um andador, que passou para uma bengala e, depois, por conta própria.

Como ocorreu o estudo

A pesquisa, conduzida há mais de duas décadas, foi encabeçada pela pesquisadora e professora Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. O remédio experimental foi feito a partir da placenta humana. Nela, os pesquisadores descobriram que a proteína natural da Laminina, uma molécula ainda pouco explorada, é capaz de regenerar neurônios e ajudar na recuperação de funções motoras perdidas por pacientes com lesões na medula espinhal. “É uma satisfação você ver que as apostas que fez ao longo da sua vida estavam certas”, diz a pesquisadora.

A pesquisa foi descoberta em 2007. Em 2018, foi incorporada ao laboratório Cristália, e depois formalizada como uma parceria com a universidade em 2021. A pesquisadora afirmou que, por um tempo, o foi mantido sem divulgação por não haver patente, concedida só em 2025.

Oito pacientes receberam a mesma medicação de Bruno, e, durante o tratamento, seis apresentaram melhoras significativas. As pessoas que estavam classificadas no nível mais grave de paralisia conseguiram recuperar os seus movimentos. A atleta paralímpica de rugby, Hawanna Cruz Ribeiro, também foi submetida como voluntária ao ensaio clínico de Tatiana. Ela ficou tetraplégica em 2017 depois de sofrer uma queda de 10 metros de altura, e ter perdido os movimentos do pescoço para baixo. "Hoje tenho muito mais movimento dos braços, controle de tronco, minha sensibilidade melhorou", relata.

O estudo mais recente, publicado em agosto deste ano, evidencia os estudos já feitos em animais e teve como objetivo avaliar o efeito da polilaminina em cães com LME crônica. Nele, a forma aprimorada da proteína natural laminina demonstrou promover a regeneração axonal e a recuperação funcional em modelos animais de lesão medular aguda (LM), e o estudo a aponta como “segura e potencialmente benéfica em humanos” quando administrada nos primeiros dias após uma lesão da medula espinhal (LME) traumática.

| Foto: Leandro Maciel

Etapa de pesquisa em humanos ainda aguarda aprovação da Anvisa

O laboratório afirmou que aguarda há alguns anos a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fazer a ampliação do estudo clínico regulatório ampliado do medicamento. Claudiosvam Martins, coordenador de pesquisa clínica da Anvisa, afirmou que o estudo passou pela fase inicial, ainda restam quatro. “O desenvolvimento completo tem essa fase inicial que a gente chama de pré-clinica. Depois há mais quatro fases ou etapas, que a pesquisa ocorre em humanos, a parte clínica”, explica.

Por meio de nota, a Anvisa informou que tem discutido e orientado a empresa por meio de reuniões técnicas, desde a submissão dos primeiros dados no final de 2022 e início de 2023. E que, atualmente, a agência aguarda os dados complementares da empresa sobre os estudos pré-clínicos, considerados “indispensáveis” para avaliar se o produto pode seguir para fase de teste em seres humanos. Foi informado que os dados submetidos para a Anvisa, até o momento, referem-se apenas aos estudos iniciais da fase pré-clínica (sem uso em seres humanos). O processo aberto na Anvisa é para avaliação da proposta de ensaio clínico utilizando-se o produto biológico polilaminina para o tratamento de lesões de medula espinhal em humanos.

A nota acrescenta que a empresa patrocinadora está realizando os testes não clínicos complementares dentro das normativas regulatórias e que, embora os resultados de laboratórios sejam “promissores”, “ainda não é possível fazer qualquer afirmação quanto à segurança e eficácia da substância”, sendo um processo “normal” quando se trata da avaliação de candidatos a medicamentos, e que não há como antecipar prazos para autorizar a pesquisa com seres humanos antes da apresentação dos dados completos.