Saúde

Primeiro transplante de membrana amniótica em criança para tratamento de queimaduras é realizado no HPS

A terapia, de caráter regenerativo e inovador, foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em maio de 2025

A membrana amniótica — obtida durante o parto mediante autorização da gestante — possui propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e cicatrizantes
A membrana amniótica — obtida durante o parto mediante autorização da gestante — possui propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e cicatrizantes Foto : Cristine Rochol/PMPA

O Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre realizou, na sexta-feira, 14, o primeiro transplante de membrana amniótica em uma criança no Brasil desde que a técnica passou a integrar oficialmente o Sistema Único de Saúde (SUS), em junho deste ano.

O procedimento marca um avanço significativo no tratamento de pacientes queimados e abre novas possibilidades terapêuticas para casos pediátricos e adultos considerados de média e alta complexidade.

A terapia, de caráter regenerativo e inovador, foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em maio de 2025 e incluída no Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. A partir dessa atualização, passou a ser vista como um importante divisor de águas no atendimento às vítimas de queimaduras. A membrana amniótica — obtida durante o parto mediante autorização da gestante — possui propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e cicatrizantes, atuando como uma camada protetora capaz de barrar microrganismos e acelerar o processo de regeneração da pele.

Apesar de seu uso já ocorrer no país desde os anos 2000, a aplicação era restrita a casos emergenciais, mediante liberações específicas dos hospitais, devido à ausência de regulamentação. Com a normatização estabelecida em 2025, o transplante passou a ter diretrizes claras, protocolos padronizados e garantia de oferta pelo SUS, aumentando a segurança e a previsibilidade da técnica.

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Com isso, o Rio Grande do Sul — tendo Porto Alegre como referência — tornou-se o primeiro estado a implementar um fluxo contínuo e estruturado para indicação, captação, preparo e aplicação da membrana amniótica, ampliando o acesso dos pacientes e qualificando os serviços envolvidos.

Primeiro caso pediátrico — O transplante foi realizado em um menino de 1 ano, morador de Mostardas, que sofreu queimaduras com óleo quente, atingindo cerca de 8% do corpo. Ele chegou ao HPS na manhã do dia 13 e, devido à gravidade e à localização dos ferimentos, teve indicação imediata para o procedimento, idealmente feito nas primeiras 48 horas para reduzir o risco de infecção e evitar múltiplas trocas de curativos.

A intervenção foi conduzida pelo cirurgião-plástico Renato Rodrigues, com participação da cirurgiã plástica Carla Sulzbach, dos técnicos de enfermagem Emerson Santos, Raquel Ricarte Duarte e Luana Abreu, do anestesista Luciano Saldana e do enfermeiro Marcos Portela.

“A cada desbridamento, é necessário oferecer uma cobertura substituta da pele — seja por autoenxerto, matriz dérmica, membrana amniótica ou, em último caso, materiais sintéticos de alto custo. Essa nova terapia representa um salto para o HPS e para quem atendemos, trazendo uma opção segura, eficiente e muito mais acessível”, afirma a diretora do hospital, Tatiana Breyer.

O procedimento foi viabilizado por meio de articulação com o Banco de Tecidos da Santa Casa de Porto Alegre, responsável pela captação, processamento e fornecimento da membrana. Desde outubro, a instituição já contabiliza 12 coletas — cinco no primeiro mês e sete em novembro.

“Estamos vivenciando um momento decisivo na consolidação da captação e uso da membrana amniótica para queimaduras. Esse avanço amplia o acesso e qualifica o cuidado, impactando diretamente na recuperação dos pacientes”, destaca o coordenador do Banco de Tecidos da Santa Casa, Eduardo Chem.

Embora o Ministério da Saúde tenha dado o prazo de 180 dias — contados desde 24 de junho — para que a terapia seja implementada nos serviços do SUS, Porto Alegre se antecipou e já realiza o procedimento de forma integrada à rede de transplantes.

A primeira captação ocorreu em 7 de outubro, e o primeiro transplante no Estado foi feito em 5 de novembro, também na Santa Casa. O Hospital Cristo Redentor igualmente realizou o tratamento recentemente. O caso atendido no HPS representa o quinto transplante de membrana amniótica já registrado na Capital.

Resultados e perspectivas — De acordo com a médica Luciana Barcellos, responsável técnica pela Pediatria e UTI Pediátrica do HPS, a técnica tem potencial para alterar totalmente o curso da internação. “Os curativos tradicionais de longa permanência têm custo elevado e são um dos principais insumos no tratamento do paciente queimado. A membrana amniótica, fornecida sem custo pelo banco de tecidos, substitui esse processo e ainda traz benefícios comprovados: cicatrização mais rápida, menos dor, redução de coceira e retrações, além de menor risco de complicações”, explica.

Normalmente, pacientes queimados permanecem internados por cerca de 1,3 dia para cada 1% da área corporal atingida. Em um caso de 10% do corpo queimado, por exemplo, são cerca de 13 dias de internação. Estudos indicam que a utilização da membrana pode reduzir esse período em até nove dias.

A membrana permanece aderida à pele por aproximadamente 14 dias, sem necessidade de trocas, e se desintegra conforme ocorre a cicatrização. A expectativa é que a criança tratada receba alta antes do décimo dia de internação, caso mantenha a boa evolução apresentada até o momento.