O período de festas de fim de ano, tradicionalmente associado à alegria, união familiar e celebrações, também pode representar um dos momentos de maior vulnerabilidade emocional para muitas pessoas. A pressão social para demonstrar felicidade, fazer balanços positivos e traçar um “novo começo” pode intensificar sentimentos de estresse, frustração, ansiedade e tristeza, especialmente quando a realidade individual não acompanha as expectativas impostas.
No Brasil, dados da International Stress Management Association (Isma-BR) indicam que os níveis de estresse e ansiedade podem aumentar em até 75% no fim de ano, impulsionados por fatores como sobrecarga de trabalho, demandas financeiras, conflitos familiares e pouco tempo para descanso. Para quem já convive com transtornos como depressão ou ansiedade, esse cenário pode agravar sintomas e silenciar sofrimentos.
Segundo o psicólogo hospitalar Matheus Camboim da Silva de Quadros, do Hospital Mãe de Deus, o fim de ano carrega um simbolismo emocional importante, o que propicia que algumas pessoas fiquem mais sensíveis nesse período.
“Nos remete a esse simbolismo de renascimento, de aproximação principalmente da família, que é um núcleo muito importante para o nosso desenvolvimento, mas onde também moram muitos dos nossos conflitos. Quando a gente se aproxima disso, acaba mexendo em muitas questões emocionais”, explica.
De acordo com o psicólogo, o calendário social favorece momentos de reflexão mais profunda. “Esse simbolismo de fechamento e de um novo começo ajuda a gente a refletir. Toda vez que a gente reflete, acaba acessando questões que durante o ano ficam um pouco mais mascaradas”, afirma Quadros.
Esse contexto torna especialmente significativo o Janeiro Branco, campanha nacional que propõe uma reflexão coletiva sobre saúde mental. Conforme destaca o Ministério da Saúde, a iniciativa busca estimular o diálogo, reduzir estigmas e reforçar que o cuidado emocional deve fazer parte da rotina das pessoas e das políticas públicas.
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Estafa física e mental: quando o descanso não acontece
Outro fator que pesa sobre a saúde mental no fim de ano é a estafa física e emocional, sobretudo para quem segue trabalhando, ou até trabalhando mais, nesse período. Quadros chama atenção para a contradição entre a necessidade de pausa e as exigências do sistema.
“Ao mesmo tempo em que parece que o corpo precisaria de um espaço para relaxar e elaborar esse simbolismo de fim de ciclo, existe um sistema em que o final de ano envolve muito consumo, festas, gastos e, para isso, muitas pessoas acabam trabalhando mais.” Para explicar a importância do descanso, o psicólogo utiliza uma metáfora simples.
“Assim como no crescimento muscular ou até numa receita de pão, não é só estímulo. Depois de estimular, é preciso deixar descansar para crescer. O descanso é fundamental para conseguir elaborar muitas coisas.”
Segundo ele, quando o cansaço se acumula, a capacidade de perceber o próprio estado emocional fica prejudicada. “Quando a gente está muito estressado, muito cansado, não consegue enxergar bem como está. Uma cabeça mais tranquila ajuda a ter mais clareza sobre a saúde emocional e física.”
Terapia como cuidado essencial, não exceção
Apesar de a terapia ser hoje mais conhecida, o acesso ainda é limitado para parte da população brasileira, seja por questões financeiras, estruturais ou por não ser vista como prioridade. Para Quadros, o cuidado com a saúde mental deve ser entendido como algo básico.
“É difícil pensar em algum ser humano que não vá passar por sofrimento em algum momento da vida. A terapia não vai necessariamente resolver o problema, mas ajuda a criar mais recursos de encaminhamento e de elaboração.”
O psicólogo também destaca a necessidade de políticas públicas e iniciativas institucionais que ampliem o acesso ao atendimento psicológico. Ele disse que hoje já existem políticas fundamentais disponíveis tanto no SUS quanto em alguns ambientes de trabalho, principalmente após a atualização da NR-1, que torna obrigatório aos empregadores o cuidado com a saúde emocional dos trabalhadores.
“É importante pensar em serviços de qualidade. Às vezes, atendimentos muito curtos, de 20, 30 minutos, não permitem nem começar um processo. Saúde mental precisa de tempo e espaço.” Ele observa que muitos tabus já começaram a ser quebrados, inclusive com relatos públicos de atletas e figuras conhecidas, o que ajuda a legitimar o cuidado psicológico.
“Uma mente mais cuidada entende melhor seus limites, enxerga melhor seus problemas e melhora a forma de conviver com as pessoas ao redor”.
Um convite à reflexão e ao cuidado
Após a pandemia, a saúde mental passou a ocupar um espaço mais central no debate público. Para Quadros, cuidar da mente é também um gesto de responsabilidade consigo e com os outros. “Não é fácil sentar numa cadeira ou abrir uma chamada e começar a falar sobre si. É um desafio. Mas, ao longo do tempo, isso faz muita diferença, não só para a pessoa, mas para todo o seu ciclo social.”
Em um país onde a depressão atinge cerca de 10% da população ao longo da vida, segundo o IBGE, falar sobre saúde mental no fim e no início do ano é uma estratégia de prevenção, acolhimento e empatia. Nem sempre as festas são leves e reconhecer isso é o primeiro passo para um começo de ano mais possível e humano.
“No pós-pandemia, a gente entendeu que a saúde mental não tem como ser deixada de lado e que é uma responsabilidade. A pessoa que cuida da saúde mental é uma pessoa muito responsável. É isso que as pessoas precisam entender e também se permitir", finalizou o psicólogo.