O Centro de Oncologia Lydia Wong Ling do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, celebra uma década de atuação como um dos mais importantes centros médicos do país na área. Para comemorar a data e debater o estágio atual da vacina contra o câncer, a instituição realizou mais uma edição de seu tradicional Grand Round, desta vez com a presença de duas pesquisadoras da Universidade de Oxford, na Inglaterra, referência global em medicina e pesquisa científica.
As cientistas Isabela Pedroza-Pacheco e Carol Sze Ki Leung, do Centre for Immuno-Oncology (CIO) de Oxford, chegaram à Capital gaúcha em um momento singular para o tratamento oncológico. Na quarta-feira, os laboratórios farmacêuticos Merck e Moderna anunciaram resultados positivos na fase final dos ensaios clínicos de seu tratamento experimental, baseado em uma terapia de RNA mensageiro contra o câncer de pele, destinada a pacientes com melanoma em estágio avançado.
“Isso realmente é uma notícia maravilhosa na Medicina, e de fato, um verdadeiro marco histórico”, disse Isabela. De acordo com elas, no cenário convencional de cirurgia para melanoma em estágio avançado, o tumor costuma retornar muito rapidamente, mas a terapia experimental, associada à imunoterapia, se mostraram promissoras para dar uma sobrevida mais longa aos pacientes em tratamento, porém há necessidade de cautela.
“Ainda precisamos dos dados reais, e de maneira esperançosa, serão analisados e publicados os dados”. Mesmo com a boa notícia, uma vacina única para o câncer poderá não acontecer, apesar de a tecnologia de RNA ser um caminho provável para novos avanços. “Há mais de cem ou duzentos tipos de câncer, então não estamos desenvolvendo apenas uma. Tentamos realmente construir uma plataforma onde possamos aplicar esta tecnologia para múltiplos cânceres”, comentou Carol.
Para isto, a inteligência artificial poderá ser uma importante aliada nisto. “Este é um momento muito empolgante para sermos capazes de prever, a partir dos tumores do paciente, o que terá maior probabilidade de gerar uma resposta imunológica. Estamos usando modelos matemáticos e a possibilidade de usar IA para ajudar os cientistas. Vacinas contra o câncer treinam o sistema imunológico a reconhecer e atacar células tumorais”, salientou Isabela, com ambas dizendo que as pesquisas têm avançado de forma significativa na última meia década, especialmente durante e após a pandemia da Covid-19.
Brasil como pioneiro na pesquisa contra vírus que causa 200 mil cânceres por ano
“Nós não imaginaríamos, cinco anos atrás, que estaríamos hoje com estes resultados em comparação com o que temos hoje”, disse Carol. Oxford é referência especialmente na busca de uma vacina contra o vírus Epstein-Barr (EBV), associado a cerca de 200 mil casos de câncer por ano em todo o mundo, em média, e que infecta de maneira crônica mais de 90% da população adulta global, segundo pesquisas.
Em abril deste ano, o Brasil firmou um acordo, via Ministério da Saúde e instituições como a Fundação Oswaldo Cruz, para conduzir o primeiro ensaio clínico de fase inicial no mundo para este eventual imunizante contra o EBV. No caso do Brasil, as pesquisadoras salientaram que a genética da população local deve ser um fator preponderante. De acordo com elas, mais de 95% das informações genéticas utilizadas para desenhar as vacinas vêm de populações do Reino Unido e Estados Unidos, com um percentual mínimo de latino-americanos.
O Moinhos de Vento vem desenvolvendo projetos para buscar mudar esta realidade, com R$ 129 milhões investidos e 27 mil pacientes envolvidos desde 2015, por meio do Proadi-SUS, especialmente em cânceres de mama, próstata, colo do útero e HPV. A desinformação e as notícias falsas com relação às vacinas preocupam, com as pesquisadoras defendendo uma comunicação científica clara, acessível e transparente.
“Há muitas décadas de pesquisa que apoiam a segurança dessa tecnologia. Estamos realmente tentando explicar ao público o que estamos fazendo em termos simples, dizendo a eles o que fazemos e quais os benefícios”, comentou Isabela. Mas há uma confiança depositada no Brasil, descrito como um país que “ama vacinas”, não apenas pela parceria firmada formalmente. “É um dos países com maior adesão à vacina da Covid-19. É por isso que estamos realmente animadas em desenvolver esses tipos de imunizantes aqui”.
Chefe do Centro de Oncologia: “Muitos com câncer avançado podem conviver com a doença de forma perfeitamente normal”
O chefe do Centro de Oncologia do Moinhos de Vento, Sérgio Roithmann, salientou não ter havido casualidade a chegada de Isabela e Carol em meio às novidades na vacina contra o câncer de pele. “O câncer é um dos principais problemas de saúde do mundo, então o Moinhos de Vento decidiu há muito tempo que esta seria uma de suas prioridades. Nosso grande objetivo no Centro de Oncologia é reunir no mesmo lugar e oferecer para os pacientes todas as modalidades possíveis”, disse Roithmann.
“Já estamos pensando nos próximos dez anos, e vemos que nos últimos dez, houve uma mudança nos tratamentos, com a maior prescrição de drogas imunoterápicas. Temos boas respostas a doenças que anos atrás, nem sonhávamos. Tem muita gente com diagnóstico de câncer avançado, e que pode conviver com a doença de forma perfeitamente normal”. Para ele, na próxima década a tendência será o que é chamado de terapia celular. “Vamos modificar nossas células defensoras do organismo para que elas ataquem com mais eficácia os tumores, e aí entram as vacinas”, disse o profissional.
No entanto, ele confirmou um maior número de diagnósticos, principalmente de pessoas mais jovens, com faixa etária entre 18 e 40 anos, com maior prevalência de cânceres de mama e intestino, que antes apareciam em pessoas acima de 50 anos. “Não sabemos ainda a causa, mas temos a ideia de que tenha a ver com a mudança nos hábitos de vida, com o maior consumo de alimentos ultraprocessados, poluição e pouco exercício. Temos que estar atentos”, comentou Roithmann.