Cidades

11 dias depois do temporal, clientes seguem sem energia elétrica no Sul do Estado

Em Pelotas, grande parte do apagão ocorre zona rural

Vários postes seguem tortos ou até mesmo caídos na zona rural, em Pelotas
Vários postes seguem tortos ou até mesmo caídos na zona rural, em Pelotas Foto : Ledinara Wrege Knopp / Especial / CP

Onze dias após o forte temporal que atingiu o Sul do Estado, centenas de pessoas seguem sem energia elétrica na região. Em Pelotas, grande parte dos problemas estão concentrados na zona rural. A agricultora Ledinara Wrege Knopp, mora com o esposo, no 3º Distrito, em Cerrito Alegre. Ela conta que desde 21 de setembro abriu diversos protocolos junto à CEEE Equatorial e que o problema não foi resolvido.

“Mandamos mensagens. Já perdi as contas de quantas vezes telefonei, falei com a assistente virtual, reclamei com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e ninguém resolve”, lamentou.

Segundo ela, próximo de sua moradia há fios de alta tensão pendurados e postes caídos. “Contamos mais de 50 moradores sem energia. O banho é de bacia ou canequinha. Para conservar as coisas, quem tem gerador ajuda os vizinhos”, relatou. Ledinara disse que, pelo custo elevado do diesel, liga o gerador em sua casa oito horas por dia. “É muito mais caro que o consumo de energia. Então ligamos somente para manter os alimentos e puxar água da bomba. Só aparecem aqui as caminhonetes da CEEE e os funcionários tiram fotos. Tem que vir caminhão pesado para trocar os postes e isto não veio”, frisou.

Morador da Cascata, o encanador Osvaldo Insauriaga convive com o mesmo problema. “Estou gastando muito com o gerador, que ligamos somente quando estamos em casa à noite”, afirmou. Insauriaga revelou que o problema no fornecimento de energia elétrica causa falta de água. “Convivemos há 11 dias com postes e fios caídos sobre a via e a concessionária só atende via aplicativo. O banho na minha casa tem sido um caos, pois o gerador não é forte o suficiente para ligar o chuveiro”, lamentou. Ele liga o equipamento três horas por noite. “Uso para que possamos, junto com vizinhos, carregares os celulares e para tentar conservar alguma coisa de comida”, justificou.

Perdas na zona rural

Morador da Colônia Santa Áurea, em Pelotas, o agricultor Rogério Doro conta que já perdeu em torno de 10 quilos de carne, por falta de energia elétrica. “Os alimentos estão estragando no freezer. Tentamos ligar o gerador, mas chega um ponto que não conseguimos manter”, argumentou. A moradia de Doro tem placas solares, mas como o sistema é conectado a rede, não funcionam. Ele mora com a esposa, ao lado da casa dos sogros. As duas residências usam o mesmo gerador.

“É complicado, pois o equipamento não é muito forte, então não liga o chuveiro”, lamentou. Doro conta que o gerador consome em média três litros de óleo diesel por hora. “Não é igual a energia elétrica. Estamos usando como um quebra-galho e o freezer mesmo ligado somente três horas por dia começamos a perder alimentos, como já aconteceu com o que estava na geladeira”, afirmou.

Gilnei Maurício Bosembecker Polnew trabalha na propriedade da família na Colônia Santa Bernardina e convive com a falta de energia elétrica desde 21 de setembro. “Estamos sem luz total. Queríamos colocar os animais na pastagem e não posso ligar a cerca elétrica”, relatou. Ele revelou que os alimentos são preparados no fogão à lenha. “Tenho comprado pouca carne, para tentar comer em no máximo dois dias. Do contrário, estraga. Estávamos para abater um novilho quando deu o temporal. Sorte que não fizemos isto. Já tive que colocar fora feijão e outros alimentos. O banho como antigamente, no paninho ou frio”, comentou.

O que diz a CEEE Equatorial

Por meio de nota, a CEEE Equatorial informou que já restabeleceu 99,8% dos clientes afetados pelo temporal de 21 de setembro, mas admite que cerca de 2 mil clientes na região estão com o serviço interrompido. “As ocorrências em atendimento envolvem, em muitos casos, trechos da rede severamente danificados e estruturas de alta tensão, que exigem intervenções de maior complexidade. Esses reparos demandam materiais específicos, equipes especializadas, maior tempo de execução e procedimentos adicionais de segurança”, justificou.

A direção da empresa participou de uma reunião com prefeitos e vereadores da região e não estabeleceu um prazo para o restabelecimento total da energia elétrica na região, mas garantiu que está trabalhando para que isto ocorra o mais breve possível.

Condenação pelo ciclone de 2023

A 1ª Vara Cível de Pelotas julgou parcialmente procedente uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público contra a CEEE-D e a Equatorial, em razão da demora no restabelecimento do fornecimento de energia elétrica após o ciclone que atingiu a região entre os dias 11 e 13 de julho de 2023.

Na decisão, o juiz Marcelo Malizia Cabral estabeleceu que consumidores dos municípios de Pelotas, Capão do Leão, Morro Redondo, Arroio do Padre e Turuçu que permaneceram sem energia elétrica por mais de 24 horas em áreas urbanas ou por mais de 48 horas em áreas rurais terão direito à indenização por danos morais.

O valor fixado foi de R$ 5 mil para cada unidade consumidora atingida, desde que a situação seja comprovada. Além disso, as empresas foram condenadas ao pagamento de R$ 3 milhões por danos morais coletivos, quantia que será destinada ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL). A CEEE Equatorial disse que ainda não foi intimada da decisão judicial, que cabe recurso.

Veja Também