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“Achei que o equipamento estava com defeito”: físico recorda acidente com césio-137, que virou série na Netflix

Walter Mendes palestrou para estudantes de Física Médica sobre “A Ciência por Trás da Série” que retratou a tragédia de 1987 em Goiânia

Físico Walter Mendes Ferreira durante palestra em Porto Alegre
Físico Walter Mendes Ferreira durante palestra em Porto Alegre Foto : Fabiano do Amaral

Quando se aproximou da Vigilância Sanitária de Goiânia, com o detector ligado, o físico Walter Mendes Ferreira acreditou que o aparelho estivesse estragado. “Achei que o equipamento estava com defeito, porque não conseguia medir. Eu estava a uns 60 metros da Vigilância, e começou a saturar a medida. Tecnicamente, em uma situação dessa, ou se está na presença de um campo de radiação muito intensa ou está com defeito”, recorda.

Após substituir o detector por outro, o jovem cientista voltou ao local e teve a certeza de que os equipamentos não tinham qualquer avaria. Ele estava diante daquele que é considerado o maior acidente radiológico já registrado no mundo fora de uma usina nuclear.

O caso do Césio-137 aconteceu em Goiânia em setembro de 1987 e é retratado na série “Emergência Radioativa”, lançada pela Netflix em março de 2026. De lá para cá, o assunto ganhou uma superexposição midiática e despertou curiosidade no grande público.

O físico Walter Mendes Ferreira foi o primeiro cientista a identificar que o fator que levava dezenas de pessoas a procurarem hospitais com sintomas como tonturas, náuseas e queimaduras estava ligado à contaminação por substância radioativa.

O césio tinha saído de um aparelho localizado em um centro abandonado de radiologia. Foi retirado de lá por catadores de lixo, que o venderam a um ferro-velho. Dentro de um cabeçote da máquina, havia pouco mais de 29 gramas de uma substância que parecia com o sal, mas que emitia um brilho fascinante - e que era radioativa.

Uma megaoperação precisou ser montada na cidade, com isolamento de ruas inteiras, demolição de casas, triagem de parte da população no Estádio Olímpico e internação hospitalar de centenas de pessoas. O acidente gerou 6 mil toneladas de rejeitos, que foram acondicionados em contêineres concretados.

Quase 40 anos depois, Ferreira é chefe da Divisão de Emergências Radiológicas (Dieme) da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Desde o lançamento da série, ele passou a percorrer o Brasil dando palestras, participando de podcasts e videoconferências. A 68ª atividade dessa turnê ocorreu em Porto Alegre - daqui, ele seguiria para Santa Catarina e Minas Gerais.

A palestra “A Ciência por Trás da Série da Netflix” lotou o auditório da Faculdade de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) em uma quinta-feira à tarde. Promovida pelo Centro Acadêmico Marie Curie, a atividade integrou a Jornada Acadêmica do curso de Física Médica da universidade. Cabe lembrar que a capital é pioneira na área de Física Médica e teve o primeiro curso de graduação do país.

“Série retrata fielmente o acidente”

A minissérie é um sucesso no streaming e, na segunda semana em catálogo, alcançou o primeiro lugar mundial na Netflix. Foi assistida por cerca de 7 milhões de pessoas. Entre os dias 23 e 29 de março, foi a obra de língua não inglesa mais assistida no período nessa plataforma.

Na avaliação do cientista, a série representa a história de forma bastante fidedigna. Apenas alguns detalhes foram adaptados para dar dramaticidade à obra. “Não fui contaminado, o cachorro não me mordeu e minha esposa, até estava grávida, mas não perdeu o bebê. Ela tem uma certa dramaturgia, mas a série retrata fielmente o acidente de Goiânia”, exemplifica.

Outro ponto que foi adaptado é que o protagonista, Márcio, representado pelo ator Johnny Massaro, é baseado em Walter mas condensa em si fatos ocorridos com outros cientistas envolvidos na operação.

“A série tem cenas que não aconteceram comigo, mas que foram reais. Representa o pânico da população, as preocupações, greve dos médicos. Realmente, é tudo real aquilo.”

Cobertura Correio do Povo | Foto: Reprodução

A série foi criada pelo cineasta brasileiro radicado em Los Angeles Gustavo Lipsztein e produzida para a Netflix pela Gullane Entretenimento. Walter Mendes Ferreira destaca que Lipsztein ouviu diversos profissionais envolvidos no episódio para construir o roteiro.

“Ele é filho de uma colega nossa, que trabalhava na própria CNEN. Falou para a mãe que queria fazer a série sobre o acidente, com obediência a critérios técnicos, em homenagem aos físicos, engenheiros, médicos e demais profissionais envolvidos. A mãe colocou ele para estudar o acidente e depois ele começou as gravações. Em 2019, ele gravou comigo, fui o último a gravar. Na pandemia, ele interrompeu o trabalho. Depois, ele concluiu e, em 2025, a Netflix procurou ele para comprar a série.”

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“Acidente é um marco regulatório em diversas áreas”

O acidente de Goiânia foi um marco mundial. O cientista cita que, a partir dele, foram criados protocolos de atuação e atendimento em diversas áreas. Walter destaca o atendimento aos pacientes afetados. “Mudou no mundo todo a forma de atender os pacientes. Ali, atuaram médicos que haviam atuado em Chernobyl, médicos franceses, alemães, suecos, americanos, sob comando dos médicos brasileiros.”

Aspetos regulatórios foram alterados. Planos de emergência foram criados e alterados. O próprio cientista passou a atuar como perito das Nações Unidas para América Latina e Caribe, dando orientação, treinando pessoas e criando planos de emergência em diversos países.

Ele destaca ainda o aprendizado do trabalho integrado entre cientistas, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil e o treinamento desses profissionais de socorro. A instrumentação nuclear passou por grandes mudanças, bem como a avaliação de impactos ambientais e os estudos sobre o comportamento de césio no ambiente.

O episódio trouxe à tona a necessidade urgente de um plano de comunicação, para levar informação à população de maneira adequada, evitando ruídos e o pânico generalizado. “O acidente de Goiânia é considerado o maior acidente radiológico do mundo (fora de uma usina). Ele é um marco regulatório sob todas essas áreas”, conclui.

Demanda dos jovens por informação “aumentou violentamente”

Sua trajetória pessoal e profissional foram marcadas pelo caso de 1987. Ele recorda que estava em Goiânia visitando parentes quando foi comunicado da situação. Ao longo dessas quatro décadas, falou incontáveis vezes sobre o caso. Quase sempre, o público alvo era formado por cientistas e acadêmicos, a fala era mais técnica e o tema gerava interesse em um público mais restrito.

“Isso eu venho falando há 39 anos. Foi com a série, que criou-se essa dimensão. A série é um sucesso mundial, realmente. Nos primeiros três meses foi uma avalanche”, afirma o físico.

Pouco antes de encarar centenas de jovens cientistas em formação em mais uma da série de palestras, Walter Mendes avalia que a formação daquela plateia talvez seja o grande legado trazido pela obra.

“O jovem cientista, que tem 30 e poucos anos, não sabia como isso tudo tinha sido feito. A demanda por informações de crianças e jovens aumentou violentamente. É evidente que, desde quando eu identifiquei a substância, isso mudou completamente minha vida. Mas não nessa dimensão pública. Os pequenos dramas que foram inseridos na série prenderam a atenção de todos. E isso gerou uma procura por informação muito grande. Um dos legados importantes dessa história toda foi despertar o interesse do jovem cientista.”