Cidades

Estudos sobre a ancestralidade do gaúcho são destaque no encerramento da 46ª Semana Científica do Hospital de Clínicas

Edição deste ano teve como tema “Ciência Conectada e Inclusiva”

Pesquisadora Maria Cátira Bortolini, junto com a tradicionalista e secretária de Cultura Liliana Cardoso, discutiram sobre ciência, cultura e identidade
Pesquisadora Maria Cátira Bortolini, junto com a tradicionalista e secretária de Cultura Liliana Cardoso, discutiram sobre ciência, cultura e identidade Foto : Camila Cunha

A 46ª Semana Científica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) encerra nesta sexta-feira, com o tema “Ciência Conectada e Inclusiva”, e contou com mais de 1,4 mil trabalhos expostos. No encerramento, a pesquisadora Maria Cátira Bortolini, junto com a tradicionalista e secretária de Cultura Liliana Cardoso, tratou da ancestralidade da população gaúcha por meio de estudos sobre genética, misturando ciência, cultura e identidade.

A professora, junto com seu grupo de pesquisa, trabalha com a ancestralidade genômica e estuda sobre como foi a construção da identidade genética do povo gaúcho.

“Até há pouco tempo, antes da genética, as ancestralidades eram muito identificadas pela cor da pele, pelo perfil fenotípico. Isso é um indicador de certas ancestralidades, óbvio. Mas existe o não óbvio, existe ancestralidade genética, e que se passou muito tempo atrás, que pode não deixar marcas no fenótipo e, ainda assim, a pessoa carregar aquela ancestralidade continental diferenciada”, destacou Maria Cátira.

Ela lembra que o tipo de ancestralidade indígena encontrada no Estado, por exemplo, tem herança charrua, com os indígenas pampeanos, e que, por isso, só terá herança charrua quem é gaúcho.

Um dos estudos da professora, que foi publicado na revista internacional Nature, revelou que os povos originários americanos carregam variantes genéticas únicas, antes não representadas em estudos baseados em populações europeias. Com base na análise de 128 genomas completos de alta cobertura, o maior conjunto do tipo já analisado para populações indígenas americanas, o estudo revelou uma diversidade genética muito maior do que a previamente conhecida, incluindo mais de 1,4 milhão de variantes inéditas.

A professora também destaca que pertencimento cultural e identidade tradicional gaúcha podem existir de forma independente da ancestralidade genética ou da vivência prática no campo. “As pessoas podem ter um um pertencimento com relação à identidade gaúcha tradicional campeira e nunca ter pisado em uma estância, uma fazenda. Gaúchos de Porto Alegre vestem bota e bombacha e vão para o Acampamento Farroupilha sem nunca ter tido lida no campo. Isso é questão de pertencimento. A cultura pode andar muito à margem do resto”.

"A gente vê que a cultura é a transversalidade que perpassa tudo que a gente entende na transformação da vida do cidadão. Talvez muito poder público não chegue lá na ponta, mas a cultura está lá e ela chega primeiro”, destacou a secretária Liliana Cardoso.

Ao longo dos dias de evento, os debates trataram sobre temas relacionados à medicina de precisão, uso da ​inteligência artificial na saúde e adaptação dos hospitais às mudanças climáticas. Também foram realizados cursos sobre ​saúde da população negra, coletas biológicas, saúde única e comunicação inclusiva.

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