Cidades

Exemplo da Aegea no Rio ilustra os desafios e caminhos para a Corsan no Rio Grande do Sul

Deputados estaduais visitaram comunidades que passaram a ser atendidas, a sede da Águas do Rio e uma estação de tratamento, para conhecer o trabalho realizado no Rio

Deputados estaduais do RS visitaram a Águas do Rio, concessionária administrada pela Aegea no Rio de Janeiro
Deputados estaduais do RS visitaram a Águas do Rio, concessionária administrada pela Aegea no Rio de Janeiro Foto : Guilherme Sperafico / Especial / CP

A visita de uma comitiva da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, na quinta-feira (29), expôs os principais desafios e aprendizados que a Aegea pretende aplicar na concessão da Corsan, assumida em 2023. Liderados pelo deputado Marcus Vinicius de Almeida (PP), sete parlamentares e um assessor conheceram de perto os resultados do trabalho da Águas do Rio, concessionária que também é operada pela Aegea desde o fim de 2021.

Considerado como exemplo de sucesso pela empresa, o Complexo da Mangueira, na Zona Norte da capital fluminense, enfrentou problemas históricos com abastecimento irregular e ligações clandestinas, que marcaram décadas de abandono à população. Na comunidade, onde cerca de 40 mil endereços estão mapeados, apenas 7 mil ainda não foram atendidos.

Esta menor parte, ainda não atendida totalmente pela empresa, exemplifica os desafios encontrados no início da concessão. Em cada viela, é possível visualizar fiações elétricas dividindo espaço com canos e mangueiras que transportam água de forma precária e irregular. Apesar disso, a transformação é visível na maior parte do complexo, onde há, inclusive, uma espécie de gratidão expressada pelos moradores.

Canos de ligações clandestinas de água dividem espaço com fios de luz na área ainda não atendida por completo no Complexo da Mangueira | Foto: Guilherme Sperafico / Especial / CP

Carlos da Costa Silva, o Lilinho da Mangueira, de 74 anos, lembra do passado sem saudade. Instalador de água por conta própria, hoje paga sua fatura com orgulho. “Gosto muito porque o pessoal me trata muito bem. E eu pago minha água direitinho”, diz o morador, com a alegria característica dos cariocas.

Morador da Mangueira, Carlos da Costa Silva di\z que paga sua tarifa com orgulho | Foto:

Desde que assumiu a concessão, a Aegea contratou 8 mil trabalhadores, dos quais quase 5 mil são moradores de comunidades. A estratégia é fundamental para a execução do programa “Vem com a Gente”, que articula o atendimento domiciliar com a mobilização social.

Logo cedo, as equipes se reúnem em um dos galpões da empresa para alinhamentos, oração e alongamento. Em seguida, seguem para os bairros mapeados, onde instalam hidrômetros, cuidam da parte comercial e convencem os moradores da importância de ter água tratada em casa.

O convencimento acaba facilitado, também, por conseguir resolver outro problema dos moradores, além do esgoto e água potável: a comprovação de endereço. Até então, com a energia e instalação de água feita através dos chamados “gatos”, era necessário buscar junto às associações de moradores um documento que atestava a residência na comunidade. Com a chegada da água, este problema foi sanado.

Em todas as favelas, a população arca apenas com o pagamento de uma tarifa social, mesmo que o consumo seja superior ao limite previsto. Desta forma, também é realizado um trabalho de conscientização sobre o uso d'água, que já resultou em redução do desperdício.

O modelo de aproximação social virou marca da companhia. Um dos casos mais emblemáticos é o de Clayton Guilherme da Silva, 39 anos, hoje coordenador comercial. Morador do Arará, inicialmente fingiu viver na Mangueira para conquistar a vaga. Depois foi identificado, mas permaneceu. Tornou-se peça-chave quando a empresa passou a atuar em sua própria comunidade.

Em três anos, foi de agente de campo a supervisor. Hoje, cursa engenharia ambiental. “Foi uma evolução como pai, marido e funcionário. A Aegea me transformou”, afirma.

Clayton Guilherme da Silva é um dos exemplos de transformação pessoal e profissional dentro da empresa | Foto: Guilherme Sperafico / Especial / CO

A ideia de formar dentro das comunidades os agentes da própria transformação é um dos pilares definidos pela empresa. Alexandre Bianchini, vice-presidente responsável pela região Sudeste, resume o tripé: água, esgoto e comunidade. “Somos uma empresa privada, mas prestamos um serviço público. A única garantia em um projeto de 35 anos é conquistar a licença social. E ela vem da prestação de serviço de qualidade para todos”, diz.

Ele brinca que o cenário anterior era de simulação. “A companhia fingia que prestava serviço, a população fingia que pagava, e a vida seguia", acrescenta.

Os números evidenciam o desafio. O estado do Rio de Janeiro tem 17,4 milhões de habitantes. Destes, 1,6 milhão ainda não têm acesso à água tratada. Outros 7,2 milhões não contam com coleta de esgoto. Apenas 43,6% do que é coletado é tratado. Além disso, 32% da água tratada se perde antes de chegar às casas.

Ao assumir a concessão, a Aegea encontrou 1,2 milhão de pessoas sem água encanada na região de atuação, além de mais da metade da população sem acesso a esgoto. A resposta não foi apenas estrutural, mas de método: a empresa optou por começar de casa em casa. Nos primeiros anos, 800 mil moradores passaram a ser atendidos, inclusive em diversos complexos de favelas, como o próprio Complexo da Mangueira.

Em paralelo, obras estruturais também avançaram. O Centro de Operações Integradas (COI), por exemplo, é a sede administrativa e operacional da empresa. Com 5 mil metros quadrados, abriga 350 profissionais que trabalham 24 horas por dia monitorando os sistemas em tempo real. Ali, equipes técnicas, incluindo engenheiros, cruzam dados, acompanham veículos, preveem chuvas com até uma semana de antecedência e reagem rapidamente a qualquer ocorrência.

Centro de Operações Integradas coordena todo o trabalho realizado pela concessionária | Foto: Guilherme Sperafico / Especial / CP

Há parcerias com o governo estadual, que permitem à empresa coordenar ações inclusive em operações policiais ou situações emergenciais, como incêndios. A tecnologia vai além, contando com um satélite que passa a cada 14 dias pela cidade, identificando vazamentos com precisão de até 85%. A meta é reduzir as perdas para 25% até 2030. Quando a empresa assumiu, esse índice era de 70%.

Outra frente crítica enfrentada pela Águas do Rio foi o Túnel Interceptor Oceânico, construído em 1971 para levar esgoto e águas pluviais da Glória a Copacabana. O túnel, com 9 quilômetros de extensão e 5,5 metros de diâmetro, estava assoreado em 70%. “Brincávamos que tudo que desapareceu no Rio nos últimos 50 anos estava lá dentro”, diz Bianchini.

Após a remoção de 3 mil toneladas de resíduos, as chamadas “línguas negras” — manchas escuras que apareciam nas praias após chuvas de 30 mm — passaram a não aparecer, mesmo em eventos acima de 70 mm. Com isso, praias antes impróprias para banho hoje apresentam altos índices de balneabilidade.

Na estação de tratamento de esgoto (ETE) Alegria, última parada da comitiva gaúcha, os dados também impressionam. A maior do Rio e a segunda da América Latina, trata atualmente 1.800 litros de esgoto por segundo, com capacidade para 2.500. Localizada na zona norte, atende mais de 1 milhão de pessoas.

No local, o processo é biológico. Sem produtos químicos, as bactérias naturais são estimuladas para remover poluentes. O lodo resultante, passa por tratamento secundário antes de ser destinado corretamente a aterros sanitários. A água, descontaminada, é devolvida a um afluente da Baía de Guabanara. No entorno da estação, também houve preocupação ambiental. Com a despoluição da Baía, 72 mil metros quadrados de mangue foram plantadas.

ETE Alegria, operada pela Águas do Rio, é a segunda maior da América Laina | Foto: Guilherme Sperafico / Especial / CP

Entre os dados e projetos apresentados pela empresa, o relato da dona Rudi - uma moradora de uma comunidade localizada a poucos quilômetros de uma das áreas mais valorizadas do país, em Copacabana - ganha contorno simbólico. Aos 63 anos, nunca teve chuveiro e levava água em balde para o banho de caneca.

Quando a equipe responsável pela instalação da água na moradia soube, comprou um chuveiro na lojinha local e instalou com recursos próprios. “Se tivesse que responder em uma frase, diria que estamos aqui para resolver a vida das pessoas”, resume Bianchini.

A meta da Aegea no Rio é chegar, até 2031, com 90% da população atendida com água e esgoto. A experiência fluminense, apresentada aos deputados, teve como principal intuito apresentar, não apenas um modelo técnico, mas também demonstrar aos parlamentares o propósito da empresa, com o desenvolvimento do trabalho no Rio Grande do Sul.

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