Dos 236 piquetes presentes no Acampamento Farroupilha, um em especial carrega importante representatividade histórica para a presença negra no Rio Grande do Sul. O piquete Pêlo Escuro busca prestar homenagem ao poeta Oliveira Silveira, um dos principais responsáveis pela idealização do Dia da Consciência Negra, e também preservar a história e as tradições afro-gaúchas. No espaço, estão pendurados cartazes e banners com a imagem do escritor e referências à sua trajetória. Os elementos presentes auxiliam a resgatar a memória de um dos ícones da cultura negra que viveu em solo gaúcho.
A proposta do piquete é, principalmente, ampliar a presença e a visibilidade da cultura afro dentro de uma das principais celebrações tradicionalistas do Rio Grande do Sul – o acampamento –, valorizando manifestações, personagens e memórias que fazem parte dessa identidade, conta Edegar Barbosa, conhecido como Cacaio, um dos colaboradores do piquete.
Cacaio vive o Acampamento Farroupilha há muitos anos, antes mesmo da criação do piquete. Hoje, trabalha como avaliador de projetos culturais. Pilchado dos pés à cabeça, ele reforça a importância de haver testemunhos dessa cultura no tradicionalismo. Para ele, Oliveira Silveira é como uma semente colocada na terra e, que hoje, dá frutos.
"A gente está aqui dando um testemunho da nossa cultura e da nossa resistência, em relação a essa política repressora que tivemos por muitos anos, e que hoje ainda temos dificuldade de mostrar a nossa cara, justamente porque foi negado por muitos esse tipo de oportunidade."
Ele lembra que o dia Dia da Consciência Negra no Brasil foi idealizado em função da atuação do escritor, por meio de suas obras literárias e das histórias contadas da participação dos negros na construção do Estado, principalmente relacionado à Guerra dos Farrapos e a participação dos Lanceiros Negros, que lutaram junto à tropa.
Memórias do acampamento
Cacaio viveu o acampamento ao lado do poeta. "Ele sempre estava de pilcha, bota, bombacha e com aquele sorriso largo. Sempre com aquela vontade e aquele ímpeto", descreve. Na época, ainda nem existiam os piquetes de madeira, e os acampamentos eram montados com lonas. Mas eles estavam lá marcando presença.
A filha de Oliveira Silveira e fundadora do piquete, Naiara Rodrigues Silveira, lembra das memórias afetivas que o acampamento trazia para o escritor. "Meu pai amava estar no Acampamento, remetia à infância dele em Rosário do Sul. Meu pai nasceu em 1941, na Campanha, na fazenda. E o acampamento era um momento em que ele tinha para relembrar a vida dele no campo."
O neto, filho de Naiara, cresceu entre os piquetes do Parque Harmonia, acompanhado do avô todos os anos. "Meu pai comprava todo ano uma pilcha nova para ele, porque crescia muito rápido. No final do acampamento, as botas estavam num estado que não tinha mais recuperação", ri.
O piquete Pêlo Escuro foi construído em 2022, ano em que o tema do acampamento era "Etnias do Gaúcho: Rio Grande, Terra de Muitas Terras". À época, o foco foi relacionado ao resgate e homenagem à diversidade étnica que formou a identidade e a cultura do gaúcho.
"É muito importante que o acampamento Farroupilha abra esta porteira ainda mais para que existam mais piquetes que valorizem as culturas dos povos originários das populações negras, das culturas afro-brasileiras e afro-gaúchas. Exatamente para que a gente entre em diálogo com todas as etnias do Rio Grande do Sul", diz Sátira Machado, atual patrona do piquete.
Todos os anos, são realizados saraus, rodas de poesia, palestras e visitas de escolas e outros grupos. Ao longo dos dias de acampamento, o espaço promove diversas atividades para público de todas as idades, visando destacar a participação dos negros na formação cultural e histórica do Estado.
"Nossa resistência mostra que a gente não perdeu. Pelo contrário. Como diz o gaúcho, nós somos esteio, estamos fortes e firmes para continuar essa luta", complementa Cacaio.
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