Em meio ao atual período de revisão do Plano Diretor, Porto Alegre completa 254 anos, em 26 de março, com aspectos que refletem os processos urbanísticos vividos ao longo da sua história. Em mais de dois séculos, a Capital gaúcha passou por transformações profundas que redefiniram os limites do território, a paisagem urbana e a identidade de seus bairros, mudanças que marcam a identidade da cidade e das comunidades até hoje.
Durante parte de sua história inicial, o município teve sua expansão urbana limitada pelos muros que, até 1845, cercavam o atual Centro Histórico, mantendo fora desse perímetro regiões como a Cidade Baixa e o Bom Fim, populações à época marginalizadas. Em 1914, a cidade ganha destaque nacional ao ser a primeira Capital a ter um plano diretor, aprovado em 1959.
O professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UniRitter Natan Arend, mestre em Planejamento Urbano e Regional com foco em Porto Alegre e vice-presidente Sul na Direção Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), explica que as decisões urbanísticas tomadas ao longo do tempo ainda influenciam a forma como a população vive e se relaciona com a cidade.
Formação urbana e os primeiros bairros
Fundada em 1772, Porto Alegre teve sua origem diretamente ligada à relação com o Guaíba. O primeiro núcleo urbano se formou ao redor do porto localizado no atual Cais Mauá, cuja posição geográfica facilitava a atracação de embarcações e impulsionava o comércio. “A cidade se destaca pelo porto que conta com a vantagem geográfica de estar localizado ao norte da península, protegendo as embarcações dos ventos e garantindo segurança do embarque e desembarque de produtos”, explica Arend.
A partir dessa relação com o rio, o Centro Histórico se consolidou como núcleo urbano e econômico do município. “A cidade nasce da conexão com o Guaíba, que se estabelece inicialmente pelo comércio, dando ao Centro o papel fundamental para o escoamento da produção do Rio Grande do Sul”, afirma. A urbanização inicial se estruturou principalmente em três vias: a Rua dos Andradas, popularmente conhecida como Rua da Praia, conectada diretamente ao porto, e as ruas Duque de Caxias e Riachuelo, situadas na parte mais elevada do morro.
Com o passar das décadas, o município passou por um crescimento populacional acelerado. Porto Alegre tinha cerca de 44 mil habitantes em 1870 e chegou a aproximadamente 180 mil em 1900. Em 1950, a população já alcançava cerca de 300 mil moradores. Esse crescimento foi impulsionado por processos econômicos mais amplos, como a industrialização e o êxodo rural. O desenvolvimento do 4º Distrito como polo industrial teve papel central nesse movimento, atraindo trabalhadores em busca de emprego.
Segundo Arend, essa dinâmica econômica influenciou diretamente a expansão geográfica da cidade. “Com o Centro já consolidado, o 4º Distrito se tornou o grande polo industrial da cidade, atraindo trabalhadores e imigrantes que chegavam em busca de emprego.”
A partir desse movimento, a cidade passou a crescer principalmente em direção à zona Norte, tendo a Avenida Farrapos como um eixo de expansão urbana ligado à classe operária e às atividades industriais. Enquanto isso, segundo o docente, as classes média e alta também se deslocavam para novas regiões, ocupando áreas mais altas. Esse movimento partiu da região da Duque de Caxias em direção a bairros como Independência, Moinhos de Vento e, posteriormente, áreas mais ao norte da Capital, chegando até a região do atual Três Figueiras.
O crescimento populacional acelerado e o aumento da circulação urbana passaram a exigir maior organização territorial. Nas décadas seguintes, a expansão da cidade e a popularização do automóvel criaram novas demandas de mobilidade e infraestrutura, que levariam à elaboração dos primeiros planos estruturados de desenvolvimento urbano.
Planejamento urbano pioneiro e planos diretores
O docente explica que apesar da percepção de crescimento desordenado que parte da população expressa, Porto Alegre possui longa tradição em planejamento urbano. “Porto Alegre foi a primeira Capital regional do País a ter um Plano Diretor, com tentativas de organização desde 1914, sendo pioneira no estabelecimento de planos viários com princípios definidos”, reforça Arend.
A primeira iniciativa de organização do território ocorreu com o Plano Geral de Melhoramentos, de 1914. O projeto tinha foco na modernização do sistema viário e na abertura de grandes avenidas para melhorar a circulação na região central. Entre as intervenções planejadas estavam vias como as avenidas Júlio de Castilhos, Otávio Rocha e Borges de Medeiros, além da construção da primeira ponte sobre o Arroio Dilúvio.
Nas décadas seguintes, novas propostas ampliaram o planejamento urbano. O Plano Gladosch, elaborado entre 1935 e 1937 e executado a partir de 1938, projetou o sistema de radiais e avenidas perimetrais da cidade e instituiu o Conselho do Plano Diretor.
Já em 1959, Porto Alegre publicou o primeiro plano diretor formal, que passou a organizar o território por zonas residenciais, industriais e comerciais. A partir do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), versão aprovada em 1979, os planos passaram a incorporar também questões ambientais e paisagísticas. Duas décadas depois, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental (PDDUA) foi aprovado como planejamento vigente. A versão atualmente em vigor foi definida a partir da revisão de 2010 do PDDUA.
Segundo Arend, muitas intervenções previstas nesses documentos também provocaram deslocamentos populacionais. Antes da canalização do Arroio Dilúvio, por exemplo, a região da Cidade Baixa possuía uma área alagável conhecida como Ilhota. Para a área, foi executado, entre 1975 e 1979, o Projeto Renascença, com recursos do Banco Nacional de Habitação (BNH) via Plano CURA (Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada), que realizou obras de reestruturação urbana que alteraram o território e sua população. “O projeto buscava recuperar áreas urbanas em decadência e resolver problemas de alagamento da Cidade Baixa que se estendiam até parte do Centro Histórico”.
Ao mesmo tempo, essas obras provocaram mudanças profundas na ocupação da cidade. “Esse processo gerou uma gentrificação muito forte, removendo quilombos e populações de baixa renda das regiões centrais, a exemplo da Ilhota”, contextualiza.
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Bairros como espaços de memória cultural
As transformações urbanas não alteraram apenas o desenho físico da cidade. Ao longo das décadas, elas também impactaram profundamente as práticas culturais e a identidade dos bairros. As migrações provocadas por projetos de urbanização e pela abertura de grandes vias redistribuíram comunidades pela cidade. Em muitos casos, populações que viviam em regiões centrais foram deslocadas para áreas periféricas.
O surgimento da Restinga, por exemplo, está diretamente ligado a esse processo. A partir de 1969, moradores removidos da região da Cidade Baixa e de áreas próximas foram transferidos para o bairro, que inicialmente não possuía infraestrutura urbana. Somente dois anos depois o Banco Nacional de Habitação iniciou a construção de habitações no local.
Processo semelhante ocorreu no bairro Mário Quintana, que recebeu moradores removidos de diferentes regiões da cidade devido a obras viárias e projetos de urbanização.
Com os deslocamentos, muitas manifestações culturais acompanharam essas comunidades. “A cultura popular negra acabou sendo levada para as franjas da cidade, como as expressões culturais concentradas no extremo sul e no extremo norte, como a transferência do Carnaval para o Porto Seco”, explica Arend.
Ao mesmo tempo, bairros tradicionais ainda preservam memórias dessas comunidades. Regiões como Cidade Baixa e Menino Deus mantêm espaços de resistência cultural ligados à história de populações que antes habitavam essas áreas, como quilombos e centro culturais.
No contexto contemporâneo, uma nova transformação urbana tem alterado a relação da cidade com o território: a reaproximação com o Guaíba. “A requalificação dos trechos da Orla melhorou muito a qualidade dos espaços públicos e o aproveitamento social da região”, comenta.
Segundo o professor, tais mudanças têm alterado a forma como os moradores se relacionam com o território urbano. “Essa transformação voltou a população para atividades de lazer e vem tornando a cidade mais atrativa, proporcionando estilos de vida que combinam saúde e esporte”, completa o professor.