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Sobrevivente do Holocausto relata experiências e alerta sobre antissemitismo no Brasil: “Tenho medo”

Ruth Sprung Tarasantchi contou parte de sua história de vida à estudantes no Centro Israelita Porto-alegrense

Bate-papo com sobrevivente do Holocausto, Ruth Sprung Tarasantchi, ocorreu no Centro Israelita Porto-alegrense
Bate-papo com sobrevivente do Holocausto, Ruth Sprung Tarasantchi, ocorreu no Centro Israelita Porto-alegrense Foto : Fabiano do Amaral/ CP Memória

“Fiquem unidos sempre”. Foi com essa frase que Ruth Sprung Tarasantchi, judia e sobrevivente do Holocausto, encerrou o bate-papo que teve com jovens estudantes no Centro Israelita Porto-alegrense, recentemente. Aos 92 anos, ela contou parte de sua história de vida, quando ainda criança, durante a Segunda Guerra Mundial, foi perseguida e aprisionada em um campo de concentração na Itália. O encontro foi promovido pela entidade em sua sede, no bairro Bom Fim, na Capital, e integrou a programação dedicada à memória da Shoá — termo em hebraico que se refere ao extermínio de judeus.

Ruth Sprung Tarasantchi nasceu em 25 de outubro de 1933, em Sarajevo, na antiga Iugoslávia. Atualmente, a cidade é a capital da Bósnia e Herzegovina. Durante o período da ocupação nazista, foi aprisionada com a família e passou quatro anos em Ferramonti, um dos 15 campos de concentração instituídos pelo ditador italiano Benito Mussolini.

“Quando tivemos que fugir da Iugoslávia, foi muito difícil. Chegar a um país, a Itália, sem conhecer a língua, foi difícil. Depois passei a adorar a Itália, não tenho dúvida nenhuma. Mas o começo foi complicado, quando me colocaram no colégio, eu não sabia falar nada de italiano, e as meninas fizeram bullying comigo”, relatou ao Correio do Povo.

Mesmo após a libertação, ao fim da guerra, as dificuldades para conseguir roupas e alimentos na Itália continuavam. “Eu me lembro que tinha o pé grande e não havia sapato para mim. Meu pai conseguiu um pedaço de couro, e o sapateiro fez um par. Eu olhava aquele sapato como se fosse uma rainha, porque nunca tinha tido um”, contou.

Presidente do Centro Israelita, Rafael Bán Jacobsen (C) e professor Ilton Gitz (E) também participaram da conversa com Ruth Tarasantchi | Foto: Fabiano do Amaral

Além disso, o medo era constante. “Tínhamos muito medo de nos matarem, de nos levarem para campos de concentração, medo de sermos metralhados, de sermos bombardeados. Isso é a guerra.”

Após o fim do conflito, Ruth e a família já não tinham mais casa.

“Perdemos nossa nacionalidade. Quando a guerra acabou, meu pai não quis voltar para a Iugoslávia, porque na nossa cidade quase todos os judeus foram mortos — só nós sobrevivemos. Não dava para voltar. Ficou a casa, ficou tudo, mas ninguém quis retornar. Os poucos que se salvaram também não voltaram.”

Somente em 1947 ela e a família conseguiram chegar ao Brasil. Aqui, Ruth construiu carreira como artista plástica, pesquisadora e historiadora da arte, com atuação reconhecida na preservação do patrimônio cultural e na difusão do conhecimento histórico. Também participou da criação do Museu Judaico de São Paulo, inaugurado em 2021, para o qual doou parte de seu acervo pessoal. Hoje, aos 92 anos, fala português fluentemente e diz ter orgulho de ter a cidadania brasileira.

Ao longo das últimas décadas, tem se dedicado a compartilhar seu testemunho como forma de contribuir para a preservação da memória do Holocausto. No encontro em Porto Alegre, deixou uma mensagem aos estudantes:

“Vocês, jovens, têm que contar aos filhos como foi o Holocausto. Eles precisam saber o que foi e o pavor que é o antissemitismo, que, infelizmente, qualquer coisa que acontece é sempre contra os judeus. Sempre foi e sempre vai ser”.

Ao final da fala, a sobrevivente demonstrou preocupação com o antissemitismo no Brasil, que, segundo ela, tem crescido nos últimos anos. “Antes era pontual e eu não sentia. Mas agora a situação está grave. Estou com medo, não por mim, que já estou velha, mas pelas futuras gerações”, afirmou.

Preservação da memória

O encontro em Porto Alegre foi mediado pelo presidente do Centro Israelita, Rafael Bán Jacobsen. Ele destacou que depoimentos como o de Ruth são fundamentais para a preservação da memória do Holocausto. “Sabemos o quanto essas situações, limites da experiência humana, são ricas em ensinamentos e sempre importantes de serem revisitadas, em qualquer contexto. Ainda mais hoje, no Brasil, em que o antissemitismo tem se mostrado mais intenso, esse testemunho ganha novo significado e se torna ainda mais relevante”, afirmou.

Também participou do encontro o professor Ilton Gitz, especialista em Educação Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém.

Presidente do Centro Israelita, Rafael Bán Jacobsen (C) e professor Ilton Gitz (E) também participaram da conversa com Ruth Tarasantchi | Foto: Fabiano do Amaral

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