por Leticia Pasuch e Renê Almeida
A crise climática global, definitivamente, deixou de ser apenas uma projeção distante e pode ser percebida cada vez mais no dia a dia. Chuvas e secas acima da média e eventos extremos se tornaram mais frequentes. O cenário impõe desafios a diversos segmentos da economia do Rio Grande do Sul, entre eles, o setor de energia, que vê riscos de fornecimento diante da confirmação de mais um fenômeno El Niño neste ano. Diante disso, as energias renováveis surgem como uma alternativa para diversificar a matriz energética e trazer mais segurança e competitividade ao Estado. Durante o 6º Fórum de Energias Renováveis, evento promovido pelo Correio do Povo em parceria com o Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), na última terça-feira, no Teatro CIEE-RS Banrisul, em Porto Alegre, os painelistas ressaltaram o potencial do Estado para liderar o desenvolvimento do setor no país.
A forte participação na geração hidrelétrica, o potencial eólico e as condições favoráveis para a expansão da energia solar e de biomassa foram características citadas para colocar o território gaúcho no centro do debate sobre a transição energética. O evento contou com a presença de autoridades, especialistas do setor, empresários, gestores públicos e estudantes, com debates técnicos sobre o futuro da energia do RS e do Brasil. Os painéis concluíram que a transição para uma matriz energética diversificada tornou-se uma questão econômica e estratégica, exigindo planejamento integrado entre órgãos, setor produtivo e sociedade civil para mitigar riscos e proteger o Estado. Como reforçou o presidente da Cotrijal, Nei Manica, ao abrir o evento, lidar com desafios e crises impostas ao setor traz oportunidades.
“O RS poderá e deverá ser novamente propulsor de desenvolvimento. Mas precisamos que alguns entraves sejam desburocratizados, para que possamos avançar nos projetos”, disse. “Isso não pode ser desassociado da atuação de diferentes órgãos e também do setor produtivo.”
Em ano de eleições estaduais e federal, o assunto deve estar na pauta das próximas gestões governamentais. Atualmente, o RS ainda importa cerca de 30% da energia que consome. “Como queremos segurança energética se não produzimos ao menos nossa necessidade de consumo?”, questionou o vice-presidente do Sindienergia-RS, Rafael Salamoni.
A demanda por maior segurança energética precisa provocar ações do poder público, conforme a presidente do sindicato, Daniela Cardeal. Ela observou que, hoje, existe um avanço na organização do licenciamento ambiental no setor de energias renováveis, com mais segurança para o investidor, e que a principal missão é promover ampla educação para a descarbonização. A executiva também reforçou que nenhum dos desafios que envolvem a matriz energética do RS será resolvido por uma única área, já que temas como segurança energética não envolvem apenas o setor elétrico.
“Segurança energética é segurança alimentar, industrial, para investir. É segurança para gerar empregos, atrair e manter trabalhadores. É para que as próximas gerações possam construir seus projetos de vida aqui”, disse.
A relevância que as hidrelétricas têm para assegurar as demais fontes de energia foi lembrada pelo diretor de Hídricas do Sindienergia-RS, Roberto Zuch.
“A fonte hídrica é mais do que segurança energética, é segurança de fornecimento, porque tem constância, apesar da sazonalidade. Tem uma constância de qualidade, tem controle de emissão, de frequência. Tem cadeia produtiva 100% nacional, não tem problema com guerra, independe de fatores internacionais. E tem a longevidade da fonte, não fica com manutenção extremamente cara. Além disso, tem segurança ambiental.”
Transportes
Diversificar a matriz energética passa por investimentos na descarbonização de meios de transporte em logística, indústria e agronegócio. O secretário estadual de Logística e Transportes, Clóvis Garcez Magalhães, lembrou que, no passado, hidrovias e ferrovias eram os principais meios de acesso ao interior do RS. Posteriormente, foram substituídas pelas rodovias.
“A multimodalidade é essencial para o Estado. A primeira condição é a recuperação das hidrovias como modal sustentável. É o meio de transporte com o menor consumo energético para deslocar a maior capacidade de produtos”, disse.
Para fortalecer o modal, ele informou que há um investimento de R$ 631 milhões do Fundo Rio Grande (Funrigs) para desassoreamento e dragagem de rios. Além disso, destacou as dificuldades de recrutar e treinar mão de obra para os modais, diante do envelhecimento da população. “Nunca deixaremos de ter o rodoviário como fator determinante no modelo logístico do RS, mas temos o desafio de fazer a migração do modelo de biodiesel e biometano como elemento fundamental para adequação de nossas frotas”, afirmou.
“Temos que transportar passageiros nas estradas, não cargas”, completou Daniela.
Agronegócio
No agronegócio, considerado motor definitivo da transição energética global, o principal desafio é a redução drástica das emissões de gases do efeito estufa e a reorganização dos sistemas de produção e consumo de energia em escala global, pontuou Paula Hofmeister, coordenadora da Comissão de Meio Ambiente da Federação da Agricultura do Estado do RS (Farsul). Ela defendeu necessidade de mais investimentos na agropecuária tropical e brasileira, além do olhar voltado a agricultura de baixo carbono e práticas de produção com foco em bioenergias, que entram nesse rol.
“As lavouras brasileiras são um eixo estratégico, tanto na segurança alimentar como na segurança climática. A gente tem nossa base de agricultura, da produção agropecuária através do Plano de Agricultura de Baixo Carbono, que já foi levado para os fóruns internacionais. A gente já colocou o plano ABC como modelo internacional de agricultura sustentável”, destacou.
Diretor-jurídico e executivo da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz-RS), Anderson Belloli destacou que, ainda que haja muitos entraves, o Brasil é um dos países mais sustentáveis do mundo.
“Nunca tivemos um ambiente tão favorável para desenvolvimento e reconhecimento desse setor, que é fundamental e que pode colaborar, inclusive, para o desenvolvimento de outros, como o caso das energias limpas. Porque temos um negócio extremamente competente, que produz muito mais, mas ainda tem tantas barreiras.”
Novos projetos
O presidente da Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra), Jerônimo Goergen, criticou, porém, que o país não se organizou adequadamente para administrar as energias.
“O Brasil é um país reagente, não é um país que propõe. Vê que tem que correr atrás e, agora, vamos correr atrás.”
Segundo ele, se houvesse uma verdadeira organização, o país poderia ocupar espaço maior na transição energética. “Não precisa vender mais o Rio Grande do Sul, a gente sabe o potencial que tem. O Rio Grande do Sul, hoje, tem grandes oportunidades para outros projetos que se avizinham”, disse Rodrigo Huguenin, diretor de Energia da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema). Também secretário do Comitê de Planejamento Energético do RS (Copergs), ele destacou que há uma expansão das fronteiras energéticas do Estado, em especial, a eólica, tanto onshore e offshore e, ainda, o avanço em iniciativas de adesão a biometano e biodiesel.
Licenças
Hoje, o RS possui oito plantas de biodiesel e é um dos maiores produtores em nível nacional, produzindo 218 mil metros cúbicos ao mês. Há mais duas plantas em fase de Licença Prévia (LP), primeira etapa do Licenciamento Ambiental, que irá permitir mais 33 mil metros cúbicos ao mês de energia. Já em relação à geração de biomassa, que começou no Estado com o objetivo de dar um destino final à casca de arroz, hoje há 14 empreendimentos gerando 86 megawatts com cavacos e restos de madeira, além da casca de arroz.
Há mais três empreendimentos em fase de Licença de Instalação (LI) para gerar mais 58 MW. Já para energia eólica, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis (Fepam) emitiu 31 licenças, que somam 1,7 GB de produção. Em relação à energia hídrica, o Estado possui 136 empreendimentos, totalizando 1,9 GB de geração, e mais 35 em fase de LI e LP.
Eólicas
O diretor de Eólicas do Sindienergia-RS, Guilherme Sari, falou sobre os desafios de trazer grandes investidores para o Estado a fim de torná-lo autossuficiente no setor. “Enxergo um momento diferenciado. Que vai fazer nos próximos anos, até 2030, ter investimentos fortes e bilionários no setor de energia eólica.” Ele detalhou que o setor de eólicas viveu um momento ruim recentemente devido à falta de infraestrutura de transmissão.
“A gente sentiu que tem grandes projetos e, hoje, sabe de grandes investidores que chegaram, grandes obras que vão acontecer. Há pelo menos três grandes empreendimentos que devem acontecer entre 2027 e 2028 e alguns deles para gerar energia já em 2030”, revelou.
Apesar disso, apontou que é preciso planejamento para a implantação de novas linhas de transmissão, para que não haja o retrocesso que houve no passado. “É muito importante o redesenho do sistema de transmissão do Estado”, alertou repetidamente o diretor de Transmissão do Sindienergia-RS, Frederico Behrends. Ele chamou atenção para a necessidade de expansão desse sistema e de se olhar o setor como estratégico para o desenvolvimento do RS.
“Os desafios são muito grandes. Mas, se todas as energias juntas olharem com o mesmo foco, vamos ter o Estado sem dependência externa.”
A união dos setores de renováveis também foi destacada pelo diretor de Offshore do Sindienergia-RS, Guilherme Grossi.
“A segurança energética do RS mora na complementaridade. O Estado tem vocação para todas as fontes renováveis e tem potencial enorme de crescimento.”
Ele lembrou que um quarto do potencial de geração eólica offshore está no RS, mas carece de regulamentação. “A eólica offshore é um novo plano de industrialização. E não é só a comunidade costeira que vai ser impactada positivamente. Vamos possibilitar a produção nacional de fertilizantes na agricultura, de aerogeradores na siderurgia.”
Biogás e biometano
O crescimento da demanda por energias renováveis tem impulsionado novos investimentos no RS e projetos que se destacam e atraem interesse de investidores. Carolina Bahia, gerente-executiva Institucional & Cliente da Sulgás, destacou que o Estado precisa de uma matriz energética firme, segura e ligada à transição energética, cada vez mais atendendo às demandas atuais. A companhia, que distribui gás natural no RS, começou a distribuir o biometano em sua rede e a fomentar projetos para a adesão de outras empresas, com o objetivo de contribuir para a descarbonização da matriz energética gaúcha. Ela também pontuou a utilização de combustíveis alternativos que possam representar redução de emissões.
“A gente fala tanto da mistura do gás natural com o biometano quanto com o biometano 100% sendo utilizado como uma alternativa, por exemplo, ao diesel.”
Para o diretor de Desenvolvimento e Estratégia da Ultragaz, Aurélio Ferreira, energia renovável é a tendência e o RS vanguardista no setor. Ele defendeu o biometano como alternativa para o transporte urbano, sendo mais viável na parte operacional e no abastecimento. E destacou a importância do modelo voluntário por parte das empresas, diante das metas de descarbonização. O grande desafio, no entanto, está na aquisição de novos veículos. Ferreira ressaltou a importância de políticas que incentivem a conversão de frotas.
Diretora de Sustentabilidade da Corsan Aegea, Liliani Cafruni contou que a companhia possui como pilar estratégico o trabalho com 39 mil MWh/mês, equivalente a 145 mil residências. Ela lembrou que uma empresa de saneamento não trabalha sem energia, por isso, a companhia trabalha com projetos de iniciativas de biomassa e energia solar em diversos municípios gaúchos.
Transição energética justa
Garantir que o processo de transição energética ocorra de forma justa e inclusiva segue como um dos maiores desafios para o RS. A expansão de fontes renováveis precisa ser acompanhada por políticas que distribuam benefícios, gerem oportunidades de trabalho qualificado e evitem a ampliação de desigualdades, ao mesmo tempo em que se assegure segurança energética e competitividade, apontaram os painelistas.
O gerente de Planejamento do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Alexander Leitzke, destacou como o organismo vem trabalhando para centralizar os recursos do país para a Região Sul, a fim de viabilizar investimentos, principalmente, em um cenário de elevação nas taxas de juros, que trava a economia. Entre as ações, há parcerias para projetos de infraestrutura. Foram alguns editais lançados a partir do Fundo Verde, voltado a programas de sustentabilidade, além de outros projetos de impacto social em regiões atingidas pelas enchentes.
“Entendemos que, ao apoiar os projetos, a melhor forma possível é trazer as melhores condições financeiras, menores taxas de juros e maior prazo. Essas variáveis, juntas, realmente ajudam a viabilizar os projetos e tirá-los da gaveta, como os de geração de energia, de distribuição, de biomassa e biogás e assim por diante”, disse.
Resiliência
No caso do RS, acrescenta-se o componente da resiliência climática. O Estado não sofre apenas com chuvas intensas, mas também com longos períodos de estiagem, que se intensificaram nos últimos 20 anos. A necessidade de estratégias para migrar parte de sua matriz para energias renováveis, sem perder o desenvolvimento das regiões carboníferas, historicamente relacionadas a esse segmento, foi apontada por Rafael Valverde, CEO da desenvolvedora de projetos de energia renovável Sowitec Brasil.
“A transição energética justa precisa criar oportunidades para os locais que deixarão de ser grandes polos de geração de energia em função de suas características, promovendo o desenvolvimento de novas tecnologias e formas de apoio a essas comunidades”, afirmou.
Ele lembrou que 89% do carvão mineral do Brasil está no Estado. “A descarbonização surge para o Rio Grande do Sul como parte importante dessa estratégia de redução do aquecimento global, de melhorar a questão de resistência às mudanças climáticas, junto com um trabalho de resiliência.”
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O Fórum de Energias Renováveis foi realizado pelo Correio do Povo e pelo Sindienergia-RS. O evento teve o patrocínio de Corsan, BRDE, Senar, Sulgás e Governo do Estado do RS, além do apoio do CIEE-RS.