Economia

Split payment poderá causar volta do dinheiro físico em pequenos comércios no futuro, diz especialista no Tá na Mesa

Sistema para eliminar sonegação, a ser implementado em 2028, retém tributos no ato da venda, enquanto reforma tributária não é bem compreendida pela maioria das empresas

O Tá na Mesa da Federasul traz para a discussão as mudanças promovidas pela reforma tributária que entrarão em vigor a partir de 2026. Os executivos convidados são eles os diretores da CMPC Brasil, Diego Merino; da Lojas Lebes, Dulce Consuelo Gobbe; da Lojas Renner, Luciano Teixeira Agliardi e o CEO do Tax Group, Luiz Wulff
O Tá na Mesa da Federasul traz para a discussão as mudanças promovidas pela reforma tributária que entrarão em vigor a partir de 2026. Os executivos convidados são eles os diretores da CMPC Brasil, Diego Merino; da Lojas Lebes, Dulce Consuelo Gobbe; da Lojas Renner, Luciano Teixeira Agliardi e o CEO do Tax Group, Luiz Wulff Foto : Camila Cunha

Os impactos da reforma tributária, especialmente no chamado split payment, sistema a ser implementado para facilitar a retenção de impostos e combater a sonegação, foram discutidos na reunião-almoço Tá na Mesa, da Federasul, nesta quarta-feira, no Palácio do Comércio, em Porto Alegre. Diretores de empresas discutiram como a medida deve impactar, especialmente, o fluxo de caixa das companhias. Para o CEO do Tax Group, Luis Wulff, com ele, o modelo de tributação se unifica, provendo reequilíbrio nas operações.

“A ideia é que, com a reforma, exista uma equalização de concorrência, que de fato seja melhor para quem tenha o melhor processo produtivo e não simplesmente por uma questão tributária. Estamos há 50 anos no modelo antigo, e, nos próximos cinco, mudaremos para o novo”, disse ele. Em vez de a empresa receber o valor total da transação e calcular posteriormente os tributos devidos, pagando-os ao governo por meio da Darf, o novo sistema fará a retenção automática do imposto no momento exato da transação financeira, o que pode trazer mudanças também ao consumidor final, afirmou Wulff.

“Vai afetar diretamente nas operações com Pix, por exemplo. Uma vez feita a transação comercial, 26,5% deste valor será retido. De um Pix de R$ 100 feito para uma empresa vendendo um produto, R$ 73,50 entra na conta dela diretamente, e o restante vai para a conta do governo. Em si o Pix não é afetado, é simplesmente subtraído o valor dele, assim como será do boleto, do TED, cartão de crédito, como de qualquer operação registrada no Banco Central”, comentou ele.

“Imagine o efeito de uma alíquota prevista pelo governo federal de 26,5%, sendo concedido como um potencial desconto para aqueles que pagarem em papel-moeda, no caso, dinheiro. Há grandes chances de isto ocorrer nos comércios informais, pequenos CNPJs, CPFs, restaurantes, minimercados, se não houver uma conscientização. Nas grandes e médias operações não há como ocorrer, porque são 100% bancarizadas. O brasileiro está pronto para ver R$ 100 na gôndola e R$ 126 no caixa?”.

As mudanças na tributação para as empresas, com a eliminação do ICMS, ISS, PIS e Cofins já iniciando de maneira gradual em 1º de janeiro de 2026, com o começo da alíquota-teste seletiva de 1% da Contribuição Sobre Bens e Serviços (CBS), e implementado totalmente em 2032. O split payment, que não é uma taxação extra, deve entrar em vigor em 2028, porém já começa a ser construído no próximo ano. Mas 92% das empresas não está preparada para estas alterações e aguarda a regulamentação para esta adaptação, segundo levantamento da própria Tax Group.

A diretora financeira das Lojas Lebes, Dulce Consuelo Gobee, salientou que a companhia ainda não está convicta sobre como a reforma impactará em sua operação e fluxo. “Estamos exatamente neste momento realizando o levantamento destes impactos”, disse ela. Perguntada sobre como os juros altos impactam na concessão de crédito, ela disse que a Lebes observa isto com cautela.

“Em alguma medida, estamos acostumados a navegar nestes mercados com taxa de juros e inadimplência altos. Temos uma relação próxima com nossos clientes, especialmente no interior do Estado, e isto faz com que, de alguma forma, sejamos referência”, comentou Dulce. Já o diretor de Controladoria das Lojas Renner S.A., Luciano Teixeira Agliardi, observou que o split payment pode ser positivo para seu negócio, mesmo reconhecendo os eventuais impactos no fluxo de caixa.

“Acho que ele traz uma equidade para o mercado, ou seja, é uma ferramenta poderosa de combate à sonegação, e para manter um mercado saudável. É um desafio tecnológico, não tem precedentes de uso em escala no mundo, mas é verdade que o Brasil também é um dos países mais avançados do planeta em meios de pagamento tecnológicos”, afirmou ele. O Tá na Mesa desta quarta também teve a presença do diretor financeiro da CMPC Brasil, Diego Merino.

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