Ruas e espaços públicos do Centro Histórico de Porto Alegre, pouco movimentados durante a noite, foram tomados por uma multidão na quinta-feira, durante mais uma edição do Bar em Bar, tradicional celebração de início do semestre organizada pelo Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (Dafa) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Segundo a organização, a estimativa é de que cerca de 10 mil pessoas tenham participado.
A proposta é reunir estudantes e público em geral em uma caminhada por bares e pontos da cidade, fazendo do próprio percurso uma forma de ocupar e vivenciar o espaço urbano durante a noite. Realizado pelo Dafa desde 2017, com inspiração em um evento criado nos anos 1990 pelo Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura, o Bar em Bar busca levar o público a locais que costumam ter pouco movimento no período noturno. A edição deste ano teve apoio do Diretório Central dos Estudantes (DCE), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Estadual dos Estudantes (UEE)
“A ideia é ocupar as ruas e ir andando de bar em bar, também apreciando a noite que normalmente a gente não consegue vivenciar assim por várias questões de segurança e violência”, explica o coordenador do Dafa, Gabriel Zenker.
Mastros com bandeiras do Dafa orientavam o grupo durante o percurso, que teve paradas em pontos estratégicos, enquanto os organizadores anunciavam por megafones o início e a retomada da caminhada. Neste ano, a concentração começou na Faculdade de Arquitetura e seguiu pela rua Coronel Genuíno, passou pela Ponte de Pedra e pela Esquina Democrática, avançou por baixo do Viaduto Otávio Rocha e terminou na região da Praça da Alfândega.
“A Esquina Democrática e a Praça da Alfândega, durante a noite, são lugares de insegurança e abandono. Até a própria Esquina Democrática tem hoje em dia muito mais um papel de passagem do que de permanência”, afirma o estudante de Arquitetura.
A passagem da multidão mudou a paisagem noturna dos locais percorridos e chamou a atenção de quem acompanhava o movimento. Moradores de prédios observaram a caminhada pelas janelas, registraram imagens e, em alguns pontos, entraram na brincadeira, cantando as músicas reproduzidas pelos participantes em caixas de som. O movimento avançou pela madrugada e, na região da Praça da Alfândega, ainda havia pessoas por volta das 3h desta sexta-feira.
Evento ganhou novas dimensões
Apesar de ter origem entre estudantes de Arquitetura, a celebração passou a reunir um público mais diverso ao longo dos anos. Além de universitários de diferentes cursos, a edição deste ano contou com pessoas de diferentes idades, famílias com crianças e curiosos que encontraram a multidão durante a passagem pelas ruas.
“A gente tinha uma expectativa um pouco alta pela construção que estava sendo feita ali nos posts, nos compartilhamentos, que já estavam superando as marcas das últimas edições. Mas a gente não tinha nem um pouco a dimensão do que poderia se tornar ontem”, afirmou o coordenador do Dafa, que ainda conta que no momento de maior concentração, a Praça da Alfândega e a área no entorno da Ponte de Pedra estavam ocupadas simultaneamente pelos participantes.
A quantidade de pessoas também movimentou o comércio informal. Apenas uma parcela do público conseguia entrar nos bares, enquanto a maior parte permanecia nas calçadas. A demanda atraiu ambulantes e carrinhos de comida de rua, que acompanharam a concentração ao longo do percurso.
O tema desta edição foi Da Lama ao Caos, em referência ao álbum de Chico Science & Nação Zumbi, lançado em 1994. Na divulgação, os organizadores associaram o disco a questões como urbanização, direito à cidade e desigualdade social e defenderam a ocupação das ruas e da vida noturna.
“A cidade é nossa e não existe processo de gentrificação e pressão do mercado imobiliário que nos impedirá de festejar a vida do espaço público”, diz a organização do evento.
O comando do 9º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo policiamento da área, informou que não teve conhecimento de ocorrências relevantes relacionadas ao evento. A organização também criou uma comissão de segurança contra o assédio, formada por estudantes. A orientação era que os participantes procurassem integrantes identificados com lenços vermelhos e roxos em caso de ocorrência.