No Dia do Médico, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) promoveu o painel Fala RS que debateu a qualidade dos cursos de Medicina no Estado. No evento, a entidade divulgou os resultados de uma pesquisa de opinião pública realizada com pacientes gaúchos que apontou a necessidade de investimentos nos cursos já existentes, assim como na estrutura utilizada pelos estudantes, em vez da criação de novas faculdades de Medicina.
Além de conselheiros da entidade, o painel contou com a participação de gestores públicos, diretores de hospitais da região Metropolitana e coordenadores de cursos de Medicina no RS. Segundo o presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade, o objetivo do encontro desta sexta-feira é de, a partir dos resultados da pesquisa, enfrentar o desafio atua da formação médica no Estado.
"Ficou claro nesse estudo que não se pode banalizar a formação médica. O que a população gaúcha viu é que falta estrutura, condições, hospitais, postos de saúde e critérios mínimos. Pois formar mal um médico reflete em problemas na ponta, com falta de diagnósticos e até ilícitos éticos. Não é qualquer posto ou qualquer hospital que pode se tornar um local para formação profissional. Da forma como está, estamos vendo uma abertura desenfreada de novas vagas, mas o que falta é estrutura de qualidade, e não médicos. Nós temos que chegar a um denominador comum para melhorar tanto a formação quanto a assiatência à saúde da população", apontou.
Atualmente, o RS conta com 20 cursos de Medicina, sendo sete em universidades federais e 13 em universidades particulares. Entre as soluções propostas no painel foram a regionalização de regramentos, relacionados com demandas e estrutura, para que um novo curso de formação seja criado, além da possibilidade de realização de um exame de ordem para que o médico possa exercer a profissão. "Nós precisamos estabelecer critérios claros para a criação de novos cursos. Esse assunto não se esgota aqui. Ele recém começou", completou o presidente do Cremers.
Veja o debate completo no painel Fala RS:
Pelo viés do sistema público, o secretário de Saúde de Porto Alegre, Fernando Ritter, relatou a preocupação com a qualidade da formação em função da característica especial do profissional da área de não poder falhar e destacou que a Capital já não tem mais capacidade para absorver novos cursos, além dos já existentes. Ritter também sugeriu que uma nova pesquisa seja realizada com médicos preceptores, que acompanham os alunos em formação nos últimos anos do curso.
"A gente vê a expansão dos cursos com uma certa preocupação. Além das três universidades da cidade, nós recebemos alunos de toda a região e até de outros pontos do Estado. Mas a gente tem que pensar no número de alunos por leitos e por profissionais que vão recebê-los. Não dá para colocar, dentro de uma sala de consulta, um médico preceptor e cinco ou seis alunos para atender um paciente. Interiorizar é importante, mas é ainda mais importante ter hospitais, unidades de saúde e uma estrutura robusta, porque senão o profissional acaba se formando sem ter qualificação", falou Ritter.
O coordenador de Medicina da Feevale, Pedro Lombardi Beria, reforça que, mesmo com apenas oito anos de abertura das vagas, o investimento em estrutura e qualificação em todo o Vale do Sinos, com centros integrados, convênios com hospitais e demais estruturas da saúde, permite que o curso forme profissionais qualificados. Além disso, ele reforça que outro reflexo disso tem sido a implementação de atendimentos especializados que antes não existiam na região.
"Em nosso ambulatório próprio, atendemos a 22 diferentes especialidades médicas, com cerca de 2,5 mil atendimentos por semestre. Algumas das especialidades antes não estavam disponíveis pelo SUS. Por isso, as primeiras turmas formadas já apresentam um bom desenvolvimento e já se fixaram na região. Entretanto, quanto aos padrões para abertura de novos cursos, somos bastante criteriosos e observamos que são critérios muito baixos, como os cinco leitos por vaga. Em nossas estruturas hospitalares, contamos com cerca de 800 leitos SUS e o critério para a universidade seria de 400. Ou seja, temos o dobro do necessário", citou.
CREMERS PROMOVE PAINEL FALA RS
Metodologia da pesquisa de opinião
O diretor do Instituto Methodus, José Carlos Sauer, explicou a metodologia da pesquisa realizada para o Cremers. Ao todo, foram entrevistadas 200 pessoas, usuárias de planos de saúde, e que residem em 14 municípios do RS onde há um curso de Medicina. "Com base nisso, foi feito uma série de questionamentos que passam pela avaliação do serviço dos médicos e também como eles veem o investimento na área da saúde e na formação de novos profissionais. O que chamou a atenção é o reconhecimento de que o investimento na formação deve passar pela qualificação das universidades e não necessariamente pela ampliação das vagas", citou.
Conforme a pesquisa, 89,2% dos entrevistados destacaram que o caminho a ser seguido é priorizar a formação de médicos altamente qualificados, mesmo que isso possa resultar em um menor número de profissionais no mercado. Além disso, 93,6% das pessoas ouvidas ressaltar que mais importante investir na qualificação dos cursos já existentes do que abrir novas faculdades de Medicina.