Ensino

Pesquisas nacionais realçam protagonismo feminino

No início de ano, Tatiana Sampaio e Eduarda Silveira ganharam destaque com suas colaborações à saúde por meio do ensino público

Ferramenta desenvolvida por Eduarda identifica lesões cutâneas, incluindo lesões benignas, pré-malignas e malignas
Ferramenta desenvolvida por Eduarda identifica lesões cutâneas, incluindo lesões benignas, pré-malignas e malignas Foto : Ana Elisandra Freire Campos / Especial / CP


Liderada por mulheres, a ciência brasileira vive momento de êxtase. Seja no diagnóstico ou na cura de doenças, pesquisadoras brasileiras ganharam destaque, neste ano, devido a trabalhos com grande potencial de auxílio à medicina. Esta onda de representatividade não poderia vir em momento mais oportuno: em fevereiro, foi celebrado o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência; já em março, o Dia Internacional da Mulher.

Sob comando da bióloga Tatiana Sampaio, um medicamento fabricado nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) entrou na primeira fase de testes clínicos no último mês. Após 29 anos de pesquisa, a cientista pode ter descoberto um tratamento para tetra e paraplegia, com uma eficácia nunca antes alcançada pela medicina mundial. Isso aconteceria graças a polilaminina, uma substância que pode auxiliar na reconexão de neurônios do cérebro e do resto do corpo, perdida pelos pacientes.

Apesar dos testes ainda estarem na primeira etapa de testes em humanos, e pesquisadores e entidades exigirem cautela, a equipe apresentou resultados parciais positivos: assegura que, de oito pacientes já medicados, seis tiveram alguma melhora na função motora, índice de 75% – enquanto estudos indicam que as melhoras espontâneas, quando não há qualquer procedimento médico, são verificadas entre 10% a 30% dos casos.

O trabalho desenvolvido por Tatiana acentua uma estatística de representatividade dentro da pesquisa nacional: a maioria de cientistas brasileiros são mulheres. De acordo com o Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG), o público feminino lidera tanto no ingresso quanto na conclusão da pós-graduação no Brasil. Os dados mostram que, em 2023, as mulheres representavam 57% de mestres e doutores brasileiros, 58% de bolsistas no país e 53% de bolsistas no Exterior.

Apesar disso, quando analisado o quadro de profissionais que estão de fato empregados no ramo científico, a superioridade feminina não se mantém. Em 2024, no Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), 504 cargos de servidores eram ocupados por homens (77,2%), enquanto apenas 149 empregavam mulheres (22,8%). Além disso, elas compõem apenas 43% do corpo docente da pós-graduação no Brasil, conforme dados divulgados pelo Ministério da Educação.

Cenário Gaúcho

Na vitrine da pesquisa brasileira, o Rio Grande do Sul também revela cientistas de grande potencial. Eduarda Silveira ainda é graduanda de Engenharia da Computação no Campus Bagé da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e já tem um projeto divulgado na Revista Brasileira de Cancerologia. O trabalho esteve presente na edição de janeiro/fevereiro/março do periódico do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Sob orientação do docente Sandro Camargo, ela desenvolveu uma Inteligência Artificial (IA) que auxilia no diagnóstico precoce do câncer de pele. A tecnologia foi desenvolvida através do algoritmo de detecção de objetos Yolo e de um banco de dados com mais de 2.639 imagens de dermatoscópios, retiradas da base do International Skin Imaging Collaboration (ISIC), com anotações de suas biópsias originais e respectivas classificações. A partir do reconhecimento de um padrão, a ferramenta é orientada a identificar lesões similares.

O diagnóstico precoce do câncer de pele, o tipo mais comum da doença no Brasil, é fator decisivo no seu tratamento. Conforme a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), quando identificado cedo, o melanoma, tipo mais grave de câncer de pele, é curado em mais de 90% dos casos. Já nos tumores com mais de 4 milímetros, a taxa de sucesso cai para menos de 50%.

O projeto, que contou com a parceria da Nvidia, empresa de tecnologia americana, identifica até oito classes de lesões. Nas experimentações, o modelo conseguiu identificar oito a cada dez imagens de lesões analisadas, alcançando acurácia média de 80,53% e sensibilidade média de 80,44%. De acordo com o professor, pesquisas internacionais na área relatam sensibilidades entre 72% e 89% e acurácia média entre 78% e 91%, atestando um desempenho promissor do projeto.

Ela explica que o objetivo agora é tentar levar a ferramenta para ser utilizada em consultórios médicos do Sistema Único de Saúde (SUS), mas o caminho é longo, já que enfrenta resistência quanto a sua utilização. “Existe um certo tipo de barreira por parte dos profissionais, pois pensam que ela poderia substituir o trabalho dos médicos, mas estão enganados. Ela funciona apenas como um auxílio a biópsia”, explicou.

Outra intensão da estudante é aumentar o grau de representatividade da ferramenta. Ela relata que a base de dados só conta com imagens de tons de pele claros. “Tem um déficit nesse ponto. Seria legal se conseguisse abranger mais tonalidades e fazer algo voltado para a diversidade do Brasil”, completa.

A reitora da Universidade Federal do RS (Ufrgs), a física Márcia Barbosa, eleita uma das dez brasileiras que transformam a ciência no mundo pela revista Forbes, aponta que ambas pesquisas são importantes para dar visibilidade ao tema, e devem ser contínuas. “Neste momento, é importante dar visibilidade a essas mulheres, faz com que jovens, meninas, pensem ‘nossa, eu posso ser cientista’”, aponta. “Mas é igualmente importante reconhecer todas as outras que já fizeram descobertas. Normalmente, em descobertas de mulheres, se coloca o produto na prateleira, mas depois se esquece quem o colocou lá”, lamenta.

Orçamento em debate

Em paralelo à luta pelo espaço das mulheres, há também a preocupação com os investimentos necessários na pesquisa e no ensino público. De acordo com Tatiana Sampaio, cortes na verba de universidades públicas, entre 2015 e 2016, fizeram com que a UFRJ não tivesse recursos suficientes para arcar com a patente internacional da substância, tirando do Brasil a oportunidade de obter o uso exclusivo da polilaminina. Mas este problema não parou na última década.

Na virada do último ano, houve novos cortes. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2026, aprovado pelo Congresso Nacional em dezembro de 2025, apresentava uma diminuição de R$ 488 milhões a serem destinados às universidades federais neste ano, sofrendo redução de 7,05% nos recursos previstos inicialmente pela Casa. Em janeiro de 2026, o Ministério da Educação anunciou que iria recompor integralmente o valor.

Márcia Barbosa explica que este repasse ainda não permite tranquilidade. “O valor já foi recomposto, mas só garante água, luz e terceirizados. Costumo dizer que estamos pobres e limpinhos. Ainda precisamos de um orçamento que nos permita manter a infraestrutura”, pondera.

De acordo com a reitora, apesar do valor destinado para pesquisa vir de outras fontes, como o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), manter a estrutura das salas também é crucial para a manutenção de projetos.

“Não consigo reformar prédios velhos com o orçamento repassado. Quando chove, por exemplo, há o risco de laboratórios que valem milhões serem danificados”, exemplifica.

Enquanto a pesquisa de Tatiana já começa a ser testada em pacientes e a de Eduarda aguarda permissões para experimentos clínicos, as conquistas são notórias, e outras milhares de meninas enxergam nelas a possibilidade de trabalhar com ciência. Assim, apesar dos mais de 1.400 quilômetros que separam a UFRJ da Unipampa, a busca pelo reconhecimento feminino dentro da ciência e pela valorização do ensino público entrelaçam histórias e podem inspirar futuras gerações de meninas cientistas.

*Sob supervisão de Cristiano Abreu e Letícia Heinzelmann