Ensino

Prejuízos no Ensino levam estudantes às ruas na França

Protestos por melhorias educacionais e contra cortes de recursos no setor avançam no país e já afetam vizinhos, como Bélgica e Itália

Demografia francesa é um dos fatores que inflamam a crise
Demografia francesa é um dos fatores que inflamam a crise Foto : LOIC VENANCE / AFP / CP

Falta de professores, salas de aula superlotadas, horários sobrecarregados e infraestrutura escolar precária. Este cenário é bem familiar em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e Brasil. Mas o problema vem ganhando grandes proporções e se alastra é na França, desde meados de setembro, como revolta contra medidas de austeridade fiscal que também impactam a Educação.

O movimento estudantil, que se iniciou em uma escola de Ensino Médio (liceu) no subúrbio de Paris, conquista adesão e repercussão nacional. Explode em confrontos violentos com a polícia e resulta em milhares de prisões e fechamento de instituições de ensino. Há forte tensão social, com os estudantes de nível médio (entre 15 e 18 anos, na maioria) liderando bloqueios, e contando com o apoio de sindicatos, professores e universitários.

Embora em menor escala de violência que na França, estudantes na Itália realizam manifestações contra a deterioração dos prédios escolares, a falta de verbas para o Ensino público e o aumento do custo de vida. E estudantes do Ensino Médio da comunidade francófona da Bélgica, igualmente, há dias, realizam atos públicos contra os cortes no orçamento da Educação. Em parte, inspirados pelos protestos da fronteiriça França.

Em uma semana que escalou em conflitos, com uso de gás lacrimogêneo, por policiais, e revide, com pedras e objetos, por estudantes, a França suspendeu, na quarta-feira (7/10), o uso policial de granadas de efeito moral durante os protestos, depois que um adolescente perdeu uma mão por um dos artefatos. O governo também respondeu a uma das reivindicações e anunciou a contratação, nos próximos dias, de 3 mil professores substitutos. Porém, as organizações estudantis e os sindicatos seguem mobilizados e anunciam novas manifestações na próxima terça-feira (13/10). Ontem, aproximadamente 150 escolas, das 3,7 mil, permaneceram fechadas na França.

O atual saldo, informado pelo Ministério da Justiça francês, é que as autoridades locais prenderam mais de 5 mil menores em protestos estudantis, havendo seis em prisão preventiva.

Contexto

O jornalista gaúcho Jonathas Costa, que acompanha os fatos na França, avalia que “dois fatores têm sido fundamentais para dar escala ao movimento: a violência policial e as redes sociais. As imagens dos confrontos, especialmente dos episódios mais graves, como o caso do adolescente que perdeu uma das mãos em Lens, ampliam a indignação e acabam dando novo fôlego às manifestações. Ao mesmo tempo, as redes permitem que estudantes de diferentes escolas reconheçam problemas comuns, compartilhem suas reivindicações e percebam que fazem parte de algo maior”.

Até agora, afirma que pesquisas de opinião pública têm demonstrado apoio da sociedade francesa ao movimento, mas que cresce a preocupação com a violência, especialmente, com feridos. E acrescenta que começam a surgir comparações com Maio de 1968, "uma referência incontornável quando se fala em mobilização estudantil na França". No entanto, acredita que é cedo para estabelecer esse paralelo de forma definitiva. "O movimento atual tem suas próprias pautas e circunstâncias, e ainda precisamos entender até onde ele pode chegar, e se conseguirá incorporar outros setores da sociedade. O que já chama a atenção é a velocidade com que uma mobilização localizada ganhou dimensão nacional e passou a ocupar o debate público. A comparação com 1968 diz tanto sobre a força simbólica daquele episódio na memória francesa quanto sobre a expectativa em torno do que estamos vendo agora".

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Movimento de 1968

Maio de 1968 na França foi uma grande onda de protestos de estudantes e trabalhadores, com impactos na sociedade francesa. Começou em março de 1968, na Universidade de Nanterre e, depois, na Sorbonne, em Paris. A mobilização criticava o sistema educacional conservador, autoridade tradicional e regras comportamentais de alunos. Assim, em 6 de maio de 1968, uma forte repressão policial a uma passeata no Bairro Latino (em Paris) levou os estudantes a erguerem barricadas, transformando o protesto local em uma crise nacional.

Em 13 de maio, milhares de estudantes marcharam e cerca de 10 milhões de trabalhadores entraram em greve geral, paralisando a França. Os estudantes faziam reivindicações libertárias, filosóficas e comportamentais, enquanto os operários exigiam aumentos salariais e redução na jornada de trabalho. Embora não tenha derrubado o governo, marcou profunda revolução cultural em costumes, moral e relação com a autoridade na Europa e no mundo.

Demografia

Outro ponto que ajuda a entender a crise, conforme Jonathas, é a demografia. “Em 2010, a França registrou mais de 830 mil nascimentos, um dos maiores das últimas décadas. E, 15 anos depois, essa geração chegou ao Ensino Médio e encontrou salas cada vez mais cheias.” Ele revela que o tamanho médio das turmas nos liceus gerais e tecnológicos aumentou, de 27,7 alunos (em 2010) para 30,2 (2025).

Em cobertura jornalística nas ruas, o repórter reforça que os problemas de recursos humanos e infraestrutura educacional são as principais reclamações de toda a comunidade escolar (alunos, pais e professores), ajudando a explicar o apoio que os alunos vêm recebendo desde o início das mobilizações. E considera que "esse contexto demográfico é uma das pistas para entender por que o movimento começou no Ensino Médio e só depois ganhou força nas universidades”.