Todos nós apreciamos boas histórias. Desde a infância, somos envolvidos por narrativas diversas, que encantam e ensinam gerações. Em alguns lugares, deixam de ser apenas ouvidas ou lidas e se expandem para mundos inteiros, nos quais cada pessoa tem um papel a cumprir. É o que acontece no RPG – sigla em inglês para role-playing game. O jogo de interpretação mobiliza os participantes, que assumem personagens e são guiados por uma narrativa fictícia.
No Colégio Farroupilha, em Porto Alegre, esse universo ganha vida no Clube Arcanos, grupo que reúne alunos do 8° ano do Ensino Fundamental (EF) ao 3° ano do Ensino Médio (EM). Neste ano, quase 100 estudantes de diferentes escolas participaram do “Conclave Arcano”, um encontro anual que é promovido pelo clube. Durante uma tarde, os jovens vivenciaram uma versão de “O Senhor dos Anéis”, em um jogo que estimula a criatividade, a sociabilidade e a resolução de problemas.
A temática foi escolhida porque o evento ocorreu na semana do aniversário de lançamento de “O Hobbit”, de J.R.R. Tolkien, referência da literatura de fantasia e autor de “O Senhor dos Anéis”. A partir daí, os alunos elaboraram uma simulação ambientada na Terra Média, com ameaças de reis magos e ministérios de magia.
Magia e liderança
Victor Langhanz, de 18 anos, aluno do 3° ano/EM, conta que a participação ativa no clube, seja conduzindo mesas de jogo, seja organizando eventos, ajuda a desenvolver a noção de responsabilidade e liderança. Para ele, o RPG também estimula a criatividade e funciona como processo de autoconhecimento, já que o grupo oferece um espaço acolhedor para que os alunos façam o que gostam e se encontrem.
O clube também atua como escape, para quem enfrenta a pressão da vida estudantil, por exemplo, tornando a rotina mais leve, ao proporcionar a imersão em outro mundo. No caso de Victor, às voltas com o vestibular, o imaginário é boa ajuda para acalmar a ansiedade. “Estar no clube é um respiro de vestibular e estudos. É um ambiente onde as coisas parecem mais leves, dentro de um mundo que nós mesmos construímos”, explica.
Os alunos ainda descrevem o clube como um ótimo espaço para fazer novos amigos. “Às vezes é mais fácil conversar com as pessoas dentro de um contexto de imaginação, onde eu sou um elfo e meu amigo, um mago, do que quando somos apenas dois alunos do Ensino Médio”, argumenta Victor. Segundo ele, trabalhar por um objetivo comum no jogo, compartilhando momentos de tensão e vitória, aproxima os jogadores e cria memórias afetivas marcantes.
Aprendizagem
Além dos ganhos socioemocionais, a aprendizagem teórica está no centro do grupo. Chrystian Oliveira, professor de Língua Inglesa e educador responsável pelo Clube Arcanos, assinala que o RPG no ambiente escolar é metodologia que alia a aprendizagem colaborativa ao desenvolvimento de competências. E acrescenta que “ao transformar o currículo pedagógico em cenários imersivos, a prática estimula a resolução de problemas, a escuta ativa, a empatia e a autonomia diante de decisões e resultados imprevisíveis”.
A ponte entre sala de aula e clube se dá por práticas pedagógicas que relacionam os conteúdos escolares às histórias criadas pelos alunos. “O professor da disciplina é convidado para propor atividades relacionadas ao conteúdo que os alunos estão estudando em sala de aula. O desafio do grupo é, então, aplicar esse aprendizado dentro de uma história ou de uma atividade do clube”, revela Chrystian.
O educador cita um exemplo recente, com o docente de Biologia, que ensinava anatomia dos seres vivos. “Os estudantes são desafiados a criar um ser fantasioso que é baseado em seres reais; ou a explicar cientificamente a existência de criaturas fantásticas.” Embora a atividade não valha nota, Chrystian diz perceber dedicação e entusiasmo dos alunos, já que o conteúdo está entrelaçado ao RPG.
Os mais introvertidos também se beneficiam. “O clube recebe muitos estudantes tímidos ou com dificuldades de sociabilidade, sem muitos amigos. Por meio das aventuras, eles passam a se conhecer e a formar amizades”, conta o professor. Os jogadores aprendem ainda a lidar melhor com frustrações, a negociar em situações de conflito e a exercitar a imaginação.
Diante desses resultados, Chrystian planeja ampliar a atuação do clube dentro do colégio. A ideia é aumentar a frequência dos encontros e ainda organizar grandes eventos semestrais, para estreitar a integração com estudantes de outras escolas.
Marcos Dill, professor de Tecnologia do Colégio Portoá, na Capital, levou cerca de 30 alunos à atividade no Colégio Farroupilha. Como o RPG também pode ser jogado on-line, ele destaca que a importância dos eventos presenciais está justamente em tirar os estudantes das telas. “Acho muito importante trazê-los aqui, principalmente agora que estamos passando por uma realidade 100% virtual. Aqui, estão trabalhando com a questão do imaginário, com a interpretação dos personagens e ainda socializando presencialmente com novas pessoas.”
Primeiros passos
O Clube Arcanos foi fundado no ano de 2022 por quatro alunos e contando com o apoio de dois auxiliares de ensino. O objetivo era difundir o RPG no ambiente escolar e ampliar o círculo de amigos com esse interesse em comum. No mesmo ano, foi realizado o 1° Conclave, com pouco mais de dez alunos.
Daniel Kroeff, de 21 anos de idade, um dos fundadores e hoje ex-aluno do Colégio, lembra que tudo começou na época da Covid-19, em 2020. “Desde o início da pandemia, eu jogava bastante RPG com os meus amigos, já que estávamos muito isolados. Foi uma forma de manter essas amizades vivas e fortalecer os laços que eu estava criando naquele momento”, considera.
Com o grupo funcionando de maneira informal, surgiu, assim, a ideia de oficializar o projeto na escola. Daniel conta que apresentar a proposta ao Colégio Farroupilha foi um desafio, já que os alunos precisavam provar os benefícios pedagógicos da atividade, mas a instituição mostrou-se totalmente receptiva.
Daniel relembra, com carinho, os tempos no clube. “A cultura de jogar RPG está intrínseca no meu dia a dia. As minhas melhores amizades vieram daí. E hoje fico muito feliz de voltar à escola e ver o clube desse tamanho, com tantas crianças e adolescentes que se divertem, se conectam e aprendem coisas jogando RPG.” E acrescenta: “no mundo em que as pessoas vivem em redes sociais, acho que a criatividade tem que ser explorada presencialmente”.
Ao longo dos anos, o clube cresceu. No entanto, mantém o propósito que foi pensado pelos fundadores e reafirmados pelo professor Chrystian: explorar a criatividade e se conectar com amigos que seguirão pela vida. As histórias criadas no RPG podem não durar além daquela tarde diferente, mas as experiências dos participantes mostram que são capazes de deixar habilidades para a vida toda, render anedotas contadas entre amigos e integrar memórias afetivas.
O que é RPG?
- O RPG (Role-Playing Game, ou Jogo de Interpretação de Papéis) é um gênero de jogo em que os participantes assumem o papel de personagens fictícios e criam uma história de forma colaborativa.
- Cada jogador age e toma as decisões baseadas em personalidade, história e habilidades do seu personagem, como em um teatro de improviso.
- Existe um mestre do jogo, ou narrador, que é responsável por conduzir a história, descrever os ambientes, controlar os obstáculos e interpretar os personagens secundários.
- Um conjunto de regras pré-estabelecidas entre os jogadores e dados de várias faces, que determinam o sucesso ou fracasso das ações tentadas pelos personagens.
- Existem dois tipos de RPG: O RPG de Mesa é jogado com papel, lápis, fichas de personagem e dados, sendo baseado puramente na imaginação do grupo. E também o RPG Eletrônico, que transporta essa experiência para telas de videogame ou computador, automatizando regras e visuais.
*Sob supervisão de Maria José Vasconcelos