O ex-príncipe Andrew se isolou nesta sexta-feira (20) em Sandringham, propriedade privada do rei Charles III no leste da Inglaterra, um dia após ser preso em conexão com o caso Epstein, que abalou os alicerces da monarquia britânica. Andrew, que foi afastado de suas funções reais em decorrência do escândalo, foi "colocado em liberdade enquanto as investigações continuam" na noite de quinta-feira.
O ex-príncipe passou 11 horas sob custódia policial após suspeitas de má conduta em cargo público devido a seus laços com o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein entre 2001 e 2011, quando era representante especial do Reino Unido para o comércio internacional.
No mês passado, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou milhões de arquivos de sua investigação sobre Epstein. Documentos parecem indicar que o ex-príncipe repassou informações confidenciais ao financista americano.
Segundo um e-mail de 24 de dezembro de 2010, o irmão do rei Charles III encaminhou "um relatório confidencial" sobre oportunidades de investimento no Afeganistão. Outros documentos sugerem que, em 2010, Andrew enviou relatórios ao financista sobre viagens de negócios à China, Singapura e Vietnã.
Este é um caso distinto das acusações de abuso sexual feitas contra Andrew por Virginia Giuffre, uma americana-australiana. Ela relatou, em um livro de memórias chocante, que havia sido traficada três vezes para ter relações sexuais com Andrew, duas vezes quando tinha 17 anos. O caso foi resolvido extrajudicialmente em 2022 por um valor que permanece confidencial, mas que, segundo a imprensa britânica, gira em torno de US$ 12 milhões (R$ 62,7 milhões).
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Ameaça para a monarquia
Nesta sexta-feira, quase todos os jornais britânicos estamparam a mesma foto de Andrew em suas capas. Sua prisão coincidiu com seu 66º aniversário. Ele foi visto saindo da delegacia em um veículo, com aparência abatida e olhar vago.
"Podemos confirmar que nossas buscas em Norfolk foram concluídas", declarou a polícia local na noite de quinta-feira. As buscas ocorreram na propriedade de Sandringham e na residência do ex-príncipe na propriedade de Windsor, ao oeste de Londres.
Embora nenhuma acusação tenha sido formalizada ainda, a má conduta em cargo público acarreta pena máxima de prisão perpétua, segundo o Crown Prosecution Service (Ministério Público da Coroa).
O rei Charles III não alterou sua agenda na quinta-feira e compareceu à abertura da Semana de Moda de Londres. Em nota, distanciou-se do irmão e afirmou que "a lei deve seguir seu curso".
Ed Owens, renomado historiador e comentarista da monarquia britânica, reconheceu à AFP a crise que a instituição britânica enfrenta. "Este é um momento extremamente significativo para a monarquia britânica", disse Owens.
Ele se recusou a especular se Andrew Mountbatten-Windsor, como deverá ser chamado após ter sido destituído de todos os seus títulos, será formalmente acusado. "São elementos desconhecidos neste caso específico que, acredito, estão causando tanta preocupação e, possivelmente, representam uma ameaça à monarquia", acrescentou Owens.
Pelo menos nove forças policiais no Reino Unido confirmaram que estão avaliando alegações decorrentes dos arquivos de Epstein, muitas delas relacionadas a Andrew.
Queda
Desde que o escândalo veio à tona, a imprensa não tem demonstrado nenhuma piedade com o ex-príncipe em desgraça. "Em queda", estampou o Daily Mail em sua primeira página, enquanto o The Sun observou que, como qualquer outra pessoa presa, Andrew teve uma amostra de saliva coletada para teste de DNA, além de suas impressões digitais e uma fotografia.
O presidente americano, Donald Trump, classificou a prisão como "muito triste". "Acho uma vergonha. Acho muito triste. Acho muito ruim para a família real", disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One.
Anna Whitelock, professora do University College London e autora de vários livros sobre a família real britânica, afirmou que a prisão marca um ponto de virada. "Normalmente, a abordagem típica de 'manter a calma e seguir em frente' se aplica, mas nessas circunstâncias, será muito difícil", disse a historiadora à AFP.