Polícia

Como as forças de segurança estancaram a sequência de execuções entre facções em Porto Alegre

Após série de homicídios no fim de junho, lideranças suspeitas foram isoladas em presídios, celulares apreendidos e o protocolo das sete medidas evitou novos ataques

Sequência de crimes foi registrada na Capital no final de junho
Sequência de crimes foi registrada na Capital no final de junho Foto : Guilherme Sperafico / Especial / CP

A sequência de homicídios que colocou Porto Alegre em alerta no fim de junho levou as forças de segurança a adotarem uma resposta imediata baseada no Protocolo das Sete Medidas de Enfrentamento aos Homicídios. Três semanas depois, a Polícia Civil afirma que as principais lideranças suspeitas de coordenar os ataques já foram identificadas, isoladas em presídios de maior segurança e impedidas de manter contato com integrantes das facções.

Segundo o delegado Daniel Queiroz, titular da 5ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pelas investigações dos casos registrados na Zona Norte da Capital, a estratégia foi determinante para interromper a escalada de violência.

"De início, já identificamos as lideranças suspeitas de coordenar o ataque, e foram isoladas em presídios de maior segurança para não haver qualquer contato. Foram apreendidos celulares também, de possíveis indivíduos que participaram da ação e, nesse momento, aguardamos deferimento judicial para análise dos dados dos aparelhos", afirma.

Os nomes dos investigados e os estabelecimentos prisionais para onde foram transferidos não foram divulgados para preservar as investigações.

Queiroz afirma que o resultado do trabalho é o fato de a guerra entre os grupos criminosos ter cessado nas últimas semanas, sem registros de novos crimes em sequência. "O principal é que, com a ação imediata dos órgãos de segurança, o protocolo das sete medidas aplicado estancou eventual continuidade do conflito", resume.

Resposta integrada

O protocolo foi colocado em prática após uma sequência de homicídios atribuída, em investigação, à disputa entre organizações criminosas. A estratégia reúne Brigada Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, Ministério Público e Poder Judiciário em ações simultâneas de repressão e inteligência.

Além da saturação das áreas consideradas críticas, a resposta inclui investigações para identificar executores e mandantes, revistas em presídios, isolamento de lideranças, transferências de presos, apreensão de celulares e investigação patrimonial das facções.

Durante os primeiros dias da operação, as forças de segurança prenderam ao menos 22 pessoas, apreenderam três adolescentes e retiraram oito armas de fogo de circulação, além de drogas e munições. Desde o início de julho, os dados não foram mais atualizados pelas autoridades, por conta do defeso eleitoral, que limita a divulgação de informações.

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Relembre a sequência de crimes

A série de assassinatos começou na tarde de 24 de junho, quando dois homens foram mortos dentro de uma Range Rover na Vila Pedreira, no bairro Cristal. Gabriel Becker de Farias, de 30 anos, e Therick Eduardo da Cruz Melo, de 25, foram mortos na ocasião.

Conforme a investigação, Gabriel teria ido ao local para cobrar dívidas de aluguel e estava acompanhado de Therick, sobrinho de um ex-líder da facção V7. Ainda no mesmo dia, a Brigada Militar prendeu um homem, duas mulheres e apreendeu um adolescente suspeitos de participação na emboscada, apontada como uma ação da facção Bala na Cara.

Dois dias depois, na noite de 25 de junho, a violência se espalhou para a Zona Norte. Na rua Seis de Novembro, no bairro Mário Quintana, três homens desceram de um Renault Captur branco e abriram fogo contra um grupo de jovens. João Vittor Veiga Silveira, de 16 anos, morreu no local. Paulo Fernando Oliveira Rodrigues, de 19 anos, chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos e morreu durante a madrugada. Um terceiro jovem, de 22 anos, sobreviveu. Os dois mortos eram cunhados e o crime teria sido uma retaliação ao duplo homicídio no Cristal.

Horas depois, já na madrugada do dia 26, uma chacina foi registrada no bairro Passo das Pedras. Lauren Eduarda Rodrigues Borba, de 20 anos, Luiz Fernando Figueiredo de Souza e um terceiro homem, foram encontrados mortos com marcas de tiros em uma residência. A principal linha investigativa aponta que as vítimas eram ligadas à facção Família do Sul, aliada aos grupos V7 e Anti-Bala, e que o triplo homicídio teria ocorrido como represália ao ataque registrado horas antes no Mário Quintana.

Ainda na manhã de 26 de junho, a violência fez outra vítima. Eduarda da Graça Machado, de 33 anos, foi morta a tiros na Praça Doutor Baltazar de Bem, no bairro Vila Jardim. Conforme a investigação, ela teria ligação com a facção Bala na Cara, mas a Polícia Civil ainda apura se o caso integra a mesma sequência de homicídios.

Na noite do mesmo dia, a sequência de mortes continuou no bairro Coronel Aparício Borges. Diogo Silva das Neves, de 24 anos, foi perseguido, baleado e atingido com pedradas na região da cabeça na Travessa das Camélias. Ele também teria vínculo com a facção V7.

Na manhã do dia 29, Jaider Torrão Ferreira Júnior, de 36 anos, foi executado com dezenas de disparos quando chegava a uma clínica de fisioterapia, no bairro Santana. Natural de Canoas, ele utilizava tornozeleira eletrônica, possuía antecedentes criminais e já havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio. Conforme a Polícia Civil, porém, as investigações indicaram que esse crime tem relação com o histórico criminoso da vítima na Região Metropolitana, e não com a sequência de represálias investigada na Capital. Dias depois, um homem que auxiliou na fuga dos atiradores, foi preso.