Morando em Portugal e afastada da família há cerca de 12 anos, a irmã do homem acusado crimes sexuais afirma que precisou de décadas para tomar a decisão mais difícil da vida: denunciar publicamente o próprio familiar. O impulso veio depois de ler, nas redes sociais, o relato de uma professora, que descreveu o relacionamento que manteve em Torres, no Litoral Norte, com o homem, preso preventivamente e investigado por estupro e outros crimes contra mulheres.
Segundo a irmã, ao terminar a leitura, teve a sensação de reencontrar comportamentos que, segundo ela, acompanhavam o irmão desde a adolescência. "Foi como se eu estivesse lendo uma história que eu já conhecia. Naquele momento, percebi que não podia mais ficar calada", afirma.
A partir dessa decisão, ela criou uma página nas redes sociais para reunir relatos de mulheres que afirmam ter sido vítimas do investigado. O objetivo, diz, não era apenas tornar públicas as denúncias, mas impedir que outras mulheres se sentissem isoladas. "Primeiro eu precisava que aquela professora entendesse que ela não era um caso isolado. Eu tinha medo de que ela acabasse voltando para ele, como acontece em tantos relacionamentos abusivos", conta.
Desde então, a página cresceu e passou a receber novos depoimentos diariamente. Segundo a irmã, as mensagens continuam chegando, inclusive durante a madrugada. "Todo dia aparece alguém novo. Às vezes eu acordo e já encontro mais relatos esperando", comenta.
Ela afirma que romper o silêncio exigiu anos de afastamento da família e acompanhamento psicológico. Durante muito tempo, diz ter carregado o sentimento de culpa por imaginar as consequências da denúncia. "Eu cresci ouvindo que, se falasse alguma coisa, destruiria a família. Me sentia culpada antes mesmo de fazer qualquer coisa", justifica.
Foi justamente esse sentimento que, segundo ela, precisou superar para decidir agir. "Eu precisei de muitos anos de terapia para entender que eu não era responsável pelos atos dele", ressalta.
Ela acredita que a repercussão do caso permitiu que outras mulheres encontrassem coragem para falar. "Cada relato que chega mostra que quebrar o silêncio valeu a pena. Se eu não tivesse feito isso, quem iria interromper esse ciclo?", questiona.
Ela relata ainda que denunciar o próprio irmão nunca deixou de ser doloroso. Ainda assim, afirma que o sofrimento passou a dividir espaço com a convicção de que fez a escolha correta. "É meu irmão e isso nunca vai deixar de doer. Mas hoje eu tenho uma sensação quase física de que estou fazendo a coisa certa", afirma.
MPRS segue atuando no caso
Conforme o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), a atuação no caso antecede a repercussão nas redes sociais. Conforme o órgão, o investigado já foi denunciado três vezes por crimes praticados contra a mesma mulher nos municípios de Torres e Sapucaia do Sul.
As denúncias incluem ameaça, perseguição (stalking), violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas. Segundo o MPRS, a vítima precisou abandonar o apartamento onde morava e buscar transferência do local de trabalho para preservar a própria segurança.
Na última semana, o Ministério Público também manifestou-se favoravelmente à decretação da prisão preventiva do investigado no inquérito que apura o crime de estupro. No parecer, o promotor de Justiça Márcio Roberto Silva de Carvalho apontou que a investigação reuniu elementos indicativos da prática de crime contra a dignidade sexual e sustentou que a liberdade do investigado representava risco à ordem pública.
O documento também menciona relatos de outras mulheres que afirmam ter sido vítimas do investigado e observa que esses depoimentos ganharam repercussão após serem divulgados em uma página criada nas redes sociais. O acusado foi preso preventivamente em Balneário Camboriú (SC), na quinta-feira.
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O que diz o investigado
A defesa do investigado é procurada para se manifestar sobre o caso. O espaço permanece aberto para eventual manifestação. Antes de ser preso, em seu perfil pessoal no Instagram, no entanto, o acusado publicou uma nota em que nega parte das informações divulgadas e afirma que apresentará sua defesa no curso das investigações.
Na publicação, ele afirma que os fatos "serão tratados com responsabilidade, respeito e compromisso com a verdade" e diz que não pretende transformar o caso "em uma disputa nas redes sociais". Também sustenta que "muitas informações que passaram a circular não correspondem à realidade, apresentam distorções ou foram retiradas de contexto" e que tudo será esclarecido "perante as autoridades competentes, com a apresentação das provas necessárias".
Confira na íntegra:
"Depois de alguns dias de silêncio e profunda reflexão, decidi fazer este que será meu único pronunciamento sobre os acontecimentos recentes.
Os fatos que vieram a público são extremamente sérios e serão tratados com responsabilidade, respeito e compromisso com a verdade. Não transformarei esta situação em uma disputa nas redes sociais, nem farei acusações ou julgamentos por meio de manifestações públicas.
Reconheço que existem acontecimentos que precisam ser enfrentados com seriedade. Ao mesmo tempo, muitas informações que passaram a circular não correspondem à realidade, apresentam distorções ou foram retiradas de contexto. Tudo será esclarecido perante as autoridades competentes, com a apresentação das provas necessárias.
Esclareço também que não sou foragido da Justiça, não estou me ocultando e permaneço integralmente à disposição das autoridades.
Faço um pedido especial de respeito à minha família. Minha mãe, minha irmã, meus filhos — entre eles um menor de idade — e meus demais familiares não têm qualquer responsabilidade pelos fatos e, ainda assim, foram expostos a ataques e situações que lhes causaram sofrimento. Nenhuma busca por justiça deve atingir pessoas inocentes.
Ao longo da minha vida construí uma trajetória de trabalho, dedicação à minha profissão, amor pelos meus filhos, cuidado com minha família, amizades verdadeiras e uma relação muito especial com a música.
Como qualquer pessoa, cometi acertos e erros. Tenho consciência de que escolhas do passado devem ser encaradas com responsabilidade. Mas acredito que ninguém deve ser definido apenas pelos seus momentos mais difíceis, sem que toda a sua trajetória também seja considerada.
Agradeço profundamente o apoio, o carinho e a confiança que tenho recebido de familiares, amigos, clientes e de tantas pessoas que conhecem minha história.
Esta será minha única manifestação pública sobre o assunto. A partir de agora, exercerei meu direito de defesa exclusivamente pelos meios legais, com respeito a todos os envolvidos e confiança de que os fatos serão devidamente esclarecidos."