Polícia

Suspeito de decapitar homem e matar outros dois a tiros, "carniceiro de facção" é preso em Porto Alegre

Jovem de 21 anos é investigado por fuzilar clientes de bar na Vila Conceição e também no episódio de corpo sem cabeça localizado no Morro da Cruz

Da esquerda p/direita: delegados Daniel Queiroz,  Mario Souza, Heraldo Guerreiro, coronel Fábio Schmitt e delegados Rafael Pereira e Gabriel Borges
Da esquerda p/direita: delegados Daniel Queiroz, Mario Souza, Heraldo Guerreiro, coronel Fábio Schmitt e delegados Rafael Pereira e Gabriel Borges Foto : Marcel Horowitz / CP

Um jovem de 21 anos é suspeito de decapitar um rival e matar outros dois homens a tiros em um bar na zona Leste de Porto Alegre. Apontado como "carniceiro de facção", ele teria admitido, sem qualquer sinal de culpa, a autoria dos crimes. A informação foi divulgada em coletiva nesta sexta-feira.

Preso no bairro Bom Jesus, ele seria responsável por cerca de 25% dos assassinatos registrados ao longo do mês de maio na Capital. Quando interrogado por policiais do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP), teria confessado as mortes com ar de orgulho.

A ascensão do jovem na hierarquia do grupo criminoso que atua na região é considerada meteórica, justamente devido ao perfil violento de suas ações. Um de seus maiores entusiastas seria o traficante de apelido Nego Cris, liderança da quadrilha, que está foragido desde outubro.

Atentado em bar na Vila Conceição

O primeiro ato de barbárie foi no dia 17 de maio, na Vila Maria da Conceição, no bairro Partenon. Com uma submetralhadora, o jovem executou duas vítimas e deixou outra ferida após invadir um bar na rua Paulino Azurenha.

Foram alvejados Guilherme de Oliveira Coronas, 18 anos, e João Victor Costa Conceição, 19 anos, que morreram no local. Além deles, uma mulher grávida também foi baleada, mas sobreviveu.

"O motivo do atentado foi simplesmente o fato do bar ser localizado na área de traficantes rivais. No entanto, o atirador errou de estabelecimento e cometeu o crime em um lugar que não tinha ligação com facções”, afirmou o delegado titular da 1ª Delegacia de Homicídios, Gabriel Borges.

Corpo decapitado no Morro da Cruz

Outro caso de aparente psicopatia ocorreu cinco dias depois, na noite de 22 de maio, quando dois homens foram sequestrados no bairro Jardim Carvalho. Ambos seriam integrantes de uma gangue da Vila Cruzeiro, na zona Sul, e foram atraídos e emboscados a partir de uma falsa proposta sobre a venda de uma motocicleta.

A dupla foi obrigada a embarcar em um veículo e transportada rumo a um imóvel, onde foi submetida a sessões de tortura madrugada adentro. Segundo o depoimento do próprio “carniceiro”, que foi um dos torturadores, as vítimas tiveram as mãos amarradas e os dedos decepados.

“O preso admitiu ter arrancado alguns dedos das vítimas. Nós localizamos o cativeiro e vimos que tinha muito sangue espalhado no chão. Ficou evidente que um crime violento havia acontecido ali”, explicou o delegado titular da 5ª Delegacia de Homicídios, Daniel Queiroz.

Ainda segundo o titular da 5ª DHPP, em determinado momento, um dos reféns conseguiu desamarrar as cordas e fugiu. Outro, foi decapitado e teve o corpo encontrado na noite seguinte, em um matagal no Morro da Cruz, no bairro Partenon.

O cadáver era de Thiago Lopes da Fontoura, 26 anos, que somava antecedentes criminais por roubo de veículos. Até o momento desta publicação, a cabeça dele ainda não havia sido encontrada.

Prisão do carniceiro

O suspeito foi localizado e preso no bairro Bom Jesus, onde ele também mora. Ao perceber a aproximação dos policiais, tentou fugir a pé, mas foi perseguido e acabou sendo imobilizado.

Ele vai responder por homicídio qualificado, tortura, sequestro e cárcere privado. Os registros policiais do jovem, por roubo, foram cometidos quando ainda era adolescente.

"A decapitação é um crime que, além de extremamente grave, também simboliza um ato de desrespeito entre facções. Isso poderia ter gerado reações de outros criminosos. Graças ao trabalho dos policiais, foi possível prender o responsável e, assim, evitar outras possíveis tragédias”, destacou o chefe de Polícia, delegado Heraldo Guerreiro.

Pressão operacional no bairro Bom Jesus

De acordo com o comandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC), coronel Fábio Schmitt, a Brigada Militar tem no bairro Bom Jesus um foco de pressão operacional. As operações de saturação da área entraram em vigor na segunda-feira, com ordem de manter constância nos próximos dias.

"As tropas não vão sair do bairro Bom Jesus. Instauramos a saturação no local desde segunda-feira, e vamos continuar ao longo dos próximos dias, até restabelecer a sensação de segurança aos moradores de bem”, ressaltou o coronel Schmitt.

O diretor do DHPP, delegado Mario Souza, pontua que a facção local é alvo do protocolo contra homicídios. Com base na teoria da dissuasão focada, o objetivo é reduzir crimes contra a vida por meio da repressão seletiva de pessoas, no caso, as envolvidas em assassinatos.

A prática engloba o indiciamento de mandantes, ações de saturação de área, apreensões pontuais, aumento de revistas em presídios, operações contra lavagem de dinheiro e transferência de presos, primeiro em âmbito estadual e, depois, ao sistema federal. Em outras palavras, o método produz asfixia financeira e isolamento de lideranças.

"Nosso protocolo foi instaurado contra a facção do bairro Bom Jesus, por tempo indeterminado. Não há prazo para o fim das ações, porque o grupo criminoso precisa entender que, por cada homicídio, terá prejuízos gigantescos. Vamos aplicar força máxima contra todos os envolvidos em mortes”, enfatizou o delegado Mario Souza.

Dissuasão focada

O protocolo contra homicídios no Estado tem como base a teoria da dissuasão focada, que visa reduzir crimes contra a vida por meio da repressão seletiva de pessoas, no caso, as responsáveis por ordenar assassinatos.

A ideia é influenciar os mandantes para que não provoquem mortes, combinando a aplicação da lei com outras medidas, como a asfixia financeira de facções e a transferência de presos.

O criador da técnica foi o criminologista norte-americano David Kennedy. Professor da Universidade de Nova York, ele foi o responsável por aplicar a teoria nos Estados Unidos, tendo como principal exemplo Boston, onde houve redução brusca de homicídios em meados dos anos 1990.

Outro case de sucesso é a Colômbia. No ano passado, após a prática da dissuasão focada, Medellín alcançou o menor nível de violência em 40 anos.

No solo gaúcho, o Departamento de Homicídios da PC, BM e Polícia Penal são pioneiros na aplicação do método. Ao final do primeiro semestre de 2023, a tática gerou uma redução de 54,4% dos assassinatos em Porto Alegre.

A cifra foi o menor número do indicador para qualquer mês computado desde 2010, quando teve início a série histórica, o que posicionou a Capital abaixo do índice considerado epidêmico pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

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