Política

Eleições 2026: Entenda a crise que desgasta aliança do PT e PDT no RS

Siglas garantem que desejam união, mas não abrem mão da cabeça de chapa, estão afastadas no Estado e têm dificuldade em se livrar da ingerência dos comandos nacionais

Pré-candidatos Edegar Pretto e Juliana Brizola estiveram juntos durante posse da presidência do PT no RS
Pré-candidatos Edegar Pretto e Juliana Brizola estiveram juntos durante posse da presidência do PT no RS Foto : Divulgação / CP

Aliados antigos que seguem juntos em Brasília mas, há mais de uma década, se distanciaram em solo gaúcho, onde mantêm relação protocolar, o PT e o PDT protagonizam há meses no RS uma crise envolvendo a disputa pelo governo do Estado. A situação neste início de março é tão tensa, que, na última segunda-feira, uma postagem nas redes sociais fez a crise escalar, aumentando a desavença interna entre petistas e mostrando seu potencial para, ao invés de unir as duas legendas, afastá-las ainda mais. A elevação do nível de conflito tende a fazer com que um desfecho aconteça ainda neste mês.

De um lado da confusão está o PT, federado com PCdoB e PV, que fechou aliança com a federação PSol/Rede, e recebeu na semana passada a garantia do apoio do PSB. A coalizão, de oposição ao governo Eduardo Leite (PSD), definiu em 2025 Manuela D’Ávila (PSol) e Paulo Pimenta (PT) como os nomes para o Senado, e Edegar Pretto (PT) para a corrida ao Palácio Piratini. Publicamente, seus articuladores garantem que aguardam pelo PDT para ocupar a vaga de vice. Mas, na verdade, são as negociações com o PSB que estão avançadas para que a sigla complete a chapa.

De outro lado está o PDT, ainda sem nenhum aliado, hoje integrante da base aliada de Leite, com cargos no primeiro escalão, e que tem como pré-candidata ao governo Juliana Brizola. Ela se apresenta como uma alternativa de centro e seu nome é ventilado para a corrida estadual desde o desempenho alcançado nas eleições municipais de 2024. No ano passado, ganhou força a partir da manutenção de bons índices em diferentes sondagens de intenções de votos, e do apoio do presidente nacional trabalhista, Carlos Lupi.

No tabuleiro para o fechamento dos palanques regionais do presidente Lula, Lupi coloca o apoio do PT ao PDT no RS como moeda de troca que garanta o inverso em uma série de outros estados. O PDT espera que o PT abra mão da candidatura e ocupe a vaga de vice na chapa de Juliana. A conquista de um aliado é fundamental para que sua candidatura se viabilize.

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Sozinhas, as exigências de Lupi, contudo, não teriam força para alimentar as especulações constantes de que os petistas poderiam não encabeçar uma chapa. Vêm de dentro do PT as ações que colocam a pré-candidatura do partido em um movimento constante de pêndulo. É um contexto no qual a costura de Lula se combina com um fogo amigo pesado dentro do PT gaúcho.

A direção do partido em Brasília não esconde que, se dependesse apenas dos interesses nacionais, o PT poderia apoiar o PDT para o governo no RS, independente do resultado final do pleito, e dar prioridade à eleição de um senador. Ainda em 2025, contudo, o PT no RS comunicou ao comando partidário que essa possibilidade, na prática, humilharia o diretório gaúcho, provocando uma fratura difícil de cicatrizar, e a nacional deu sinal verde para Pretto seguir em frente. Não foi o bastante para serenar as desavenças miúdas da sigla no RS. Oficialmente, todos estão unidos em torno de Pretto. Mas, no cotidiano das articulações, há petistas que, há meses, em conversas reservadas com jornalistas e pedetistas, alimentam a tese de que, com a pressão certa, ele poderá desistir. No ano passado, posições então defendidas pelo ex-governador Tarso Genro e pelo ex-deputado Henrique Fontana, que integra a executiva nacional, serviram de combustível às especulações. Agora, elas são atribuídas principalmente a parte do círculo do deputado Paulo Pimenta, mesmo que ele não participe diretamente de qualquer movimento nesse sentido.

O que dificulta o entendimento

O PT e o PDT no RS tomaram caminhos distintos nos últimos anos. Em 2018 e 2022 parcelas de candidatos pedetistas nas chapas proporcionais apoiaram Jair Bolsonaro (PL) abertamente ou de forma velada. Junto às bases, eles seguem sem esconder suas preferências.

Apoiadores de Edegar Pretto questionam como deputados ou lideranças do PDT gaúcho que colecionam críticas ao presidente Lula podem ajudar ou de fato fazer campanha pela reeleição do petista.

Com pretensões de pelo menos manter suas bancadas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa, a direção petista no Estado já alertou a nacional sobre o ‘desânimo’ que se abateria sobre candidatos nas proporcionais sem um nome do próprio partido para defender, com risco real de encolhimento.

O PDT está na base do governo Eduardo Leite (PSD), franco adversário do PT, e que contou com parlamentares trabalhistas para aprovar temas caros ao chamado campo da esquerda.

A direção partidária trabalhista anuncia que vai encaminhar a saída do governo, mas deputados estaduais seguem informando que estão mais próximos do MDB do que do PT. Eles lembram que a falta de identificação com o PT ficou evidente nas últimas eleições municipais em Porto Alegre. Na ocasião, o PDT se coligou com o União Brasil. Após não seguir para o segundo turno, o partido oficialmente endossou a candidatura petista, mas emitiu uma nota na qual deixou claro que a ação havia sido determinada pelo comando nacional.

O presidente do PT gaúcho, Valdeci Oliveira, e o pré-candidato Edegar Pretto falam em manter a mesa de negociações com o PDT, mas na prática ela não foi instalada até o momento. O presidente estadual do PDT, Romildo Bolzan Júnior, é taxativo em dizer que o assunto é nacional e “não existe” mesa de negociação composta no RS.

Aliado de primeira hora do PT, com participação na majoritária, o PSol foi procurado pelo PDT na semana passada. Os pedetistas saíram com a avaliação de que a sigla apoiará a decisão petista, seja ela qual for. Mas o PSol divulgou nota após o encontro reafirmando o compromisso com a escolha de Pretto. Na última terça, o vereador Roberto Robaina foi às redes sociais para reforçar que é preciso dar confiança para a pré-candidatura de Pretto. Segundo ele, o PSol não é contra uma aliança com o PDT, mas se ocorrer uma troca de partidos na cabeça da chapa, a sigla vai rediscutir sua posição.

Gera desconforto dentro da coalizão já existente o fato de ela ter sido formada e possuir os nomes definidos sem nenhuma participação do PDT nas negociações. O entendimento majoritário é o de que, após a chapa ter sido decidida, o PDT estaria tentando comandar uma aliança com a qual não teria proximidade.

A postagem que fez a tensão escalar

O fato que fez a tensão entre PT e PDT escalar foi a postagem no instagram do presidente da Conab e pré-candidato do PT ao governo do Estado, Edegar Pretto, sobre a reunião que manteve com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, em Brasília, na segunda, para tratar de cenário eleitoral. Na reunião, Edinho solicitou que o PT não encerrasse negociações com o PDT no RS. Após o encontro, Pretto postou foto e um texto que começa assinalando que a prioridade no RS é a reeleição de Lula, e que ele trabalha por um palanque único do presidente no RS. Edinho respondeu agradecendo o pré-candidato pela capacidade de entendimento e destacando que o palanque único é fundamental para a reeleição de Lula.

A postagem animou o presidente estadual do PDT, Romildo Bolzan Júnior, a ligar para o presidente do PT gaúcho, Valdeci Oliveira, e sondar o dirigente sobre se havia ambiente para uma reunião de encaminhamento de tratativas. Valdeci pediu um tempo para medir a temperatura interna.

Ao mesmo tempo, articuladores de Pretto se apressaram em procurar jornalistas para que ele mesmo explicasse que o objetivo da postagem era garantir que as portas continuavam abertas para o PDT e não havia qualquer recuo na pré-candidatura petista. Já a direção pedetista e o entorno da pré-candidata do partido ao governo, a ex-deputada Juliana Brizola, identificou o texto como uma sinalização clara de que o PT vai desistir. Nova reunião entre representantes do PT gaúcho e Edinho deve acontecer na semana que vem.

O que eles dizem

“Não é possível prorrogar a decisão para além do final de março, no máximo o início de abril. Porque chega uma hora em que os movimentos tomam corpo de uma forma que fica ruim recuar. Nós, no PDT, não temos Plano B. Não vamos ser vice de ninguém. A Juliana é candidata e ponto. Não temos duas conversas. O Lupi e o Lula estão acertados. E o que está acertado lá é o que vai acontecer aqui.” (Romildo Bolzan Júnior, presidente do PDT/RS)

“O que estamos fazendo é mais um gesto porque desejamos ter o PDT conosco, se possível, no primeiro turno. A nossa vaga de vice está em aberto justamente para fazer esta composição. Nossa pré-candidatura foi estabelecida no PT e com outros partidos, que agora já são cinco. Existe uma decisão coletiva e é ela que está valendo. Minha pré-candidatura é uma decisão irreversível.” (Edegar Pretto, pré-candidato do PT ao governo do Estado)

“As postagens são no sentido de um esforço pela unidade no RS. Na segunda conversei rapidamente com o presidente Romildo por telefone. Nos próximos dias devemos reunir para dar continuidade, primeiro, ao debate sobre o palanque do Lula. Mas informação nova que mude a estratégia que estamos adotando no Estado, não há. Eu, como presidente, sigo articulando o que foi decidido no encontro do ano passado: a pré-candidatura do companheiro Edegar governador.” (Valdeci Oliveira, presidente do PT/RS)

“O PSol concordou em ter o PT ocupando a cabeça de chapa. Se acontecer uma mudança nesse posto, vamos debater. A nota que fizemos após a reunião que tivemos com o PDT deixa muito clara nossa posição. Decidimos apoiar o PT. Se o PT quiser fazer outra política, obviamente vamos voltar a discutir. Só que isso é mera especulação para nós. Nem cogitamos essa hipótese. O Edegar nos assegura que é o candidato. E estamos pelo nosso candidato. Foi a escolha do PT. E fizemos uma aliança com o PT.” (vereador Roberto Robaina, do PSol)