Eleições

Especialista explica como direita e extrema direita avançam nas Américas

Professora de Relações Internacionais aborda o contexto histórico que resultou na ascensão de líderes alinhados com Donald Trump na América Latina

Para detalhar as movimentações norte-americanas, o Correio do Povo conversou com a historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia, da Ufrgs. Confira.

Correio do Povo: Há elementos ou indícios suficientes de que o governo Trump tenta influenciar as eleições no Brasil?

Tatiana Vargas-Maia: Precisamos diferenciar influência de interferência. Quando falamos de influência, são sobretudo elementos contextuais. Neste sentido, sim, temos elementos nítidos de que o governo de Donald Trump tenta influenciar o contexto político brasileiro, e nosso ano eleitoral. Observamos isto na presença e no intercâmbio que ele tem estabelecido com membros da família Bolsonaro ou outros integrantes da extrema direita brasileira. Nas retaliações a decisões do governo brasileiro a partir de dimensões econômicas, como as duas ondas do tarifaço. E na forma como mira indivíduos importantes na arena política. Penso pontualmente nas sanções à Alexandre de Moraes e à ameaça de impor outras, e no processo de não renovação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos. Isto vai criando uma série de constrangimentos que, sem sombra de dúvida, influenciam o contexto político e eleitoral. Então, com alguma tranquilidade, digo que o governo norte-americano tem influenciado ou tentado influenciar as eleições no Brasil. Mas é um equívoco falar em interferência, pois esta trata de processos mais drásticos. Na dinâmica eleitoral, trataria de mudança de resultados, interferência em urnas, enfim, processos mais violentos e diretos.

CP: Quais os principais interesses da administração Trump no Brasil?

TVM: Há dois níveis de interesses. Os de cunho econômico e o que o Brasil representa economicamente tanto no contexto regional das Américas, como no contexto global. Somos uma grande economia, com muitos parceiros ao redor do mundo, que tem se diversificado, e com recursos muito importantes. Temos falado muito de terras raras e petróleo. Então, economicamente, há um interesse que não é específico do governo Trump, e sim estável nas relações Brasil-Estados Unidos, com o Brasil sendo o maior país da América Latina, com uma expressão regional bastante forte. Pontualmente, no governo Trump, é preciso entender a presença das big techs, o lobby dos grandes e-commerce e das plataformas de comunicação social, e a produção de hardware, que depende da extração de metais específicos. A outra arena de interesse de Trump no Brasil é a da articulação de uma extrema direita contemporânea. Apesar de, à primeira vista, parecer que são governos interessados apenas na sua política doméstica, porque são muito nacionalistas e trabalham com uma dinâmica, pelo menos discursivamente, de fechamento e isolamento nacional, este é um movimento político que se articula transnacionalmente. A família Bolsonaro participa, de modo geral, deste ecossistema. São afinidades ideológicas e colaborações estabelecidas não agora, mas há mais tempo. São articulações em rede não apenas de influência e apoio financeiro, mas também de trocas de estratégias.

CP: Qual a diferença, para os Estados Unidos, de o Brasil eleger Lula ou Flávio Bolsonaro?

TVM: Flávio Bolsonaro seria um presidente muito mais fácil de lidar. Porque se alinha ideologicamente com Donald Trump. E porque, ao longo deste último ano, mostrou uma subserviência e um posicionamento bastante acríticos, diretos e fáceis com os Estados Unidos. O anúncio que fez, de que, caso eleito, sua equipe de transição contaria com agentes políticos do governo norte-americano, é um exemplo desta subserviência. Isto é bastante impensável no caso da reeleição de Lula. E, de qualquer forma, não deveria acontecer, porque não existe qualquer motivo para um governo estrangeiro participar da transição entre governos no Brasil. Mas evidenciou o quanto Flávio Bolsonaro está disposto ao alinhamento automático. Isso, em termos da relação Brasil-Estados Unidos, diminui enormemente os custos de transação para os Estados Unidos. Facilita que Trump se aproxime de objetivos diferentes no âmbito regional, entre eles o acesso a recursos que estão no Brasil. E que podem ajudá-lo a consolidar seus projetos dentro do espaço doméstico do próprio país. Então, na prática, faz bastante diferença para os EUA o resultado da eleição no Brasil.

CP: Quais os principais motivos do avanço de líderes e partidos de direita e extrema direita na América Latina?

TVM: A direita sempre esteve bastante consolidada na América Latina, e participa da composição de regimes democráticos desde a Revolução Francesa. Já a consolidação de uma extrema direita no século 21, nos últimos 10 anos especificamente, na América Latina, leva a outros fatores. Que tratam, principalmente, de uma certa frustração e uma insatisfação por parte do eleitorado desses países, após a identificação de uma série de promessas fracassadas. No início do século 21 se falava em uma onda rosa na América Latina. Ela descrevia a chegada de representantes de esquerda, centro-esquerda ou esquerda liberal aos governos, com uma promessa bastante otimista de resolução de muitos problemas históricos. Sobretudo, os de cunho econômico e de desenvolvimento social. Inclusão econômica, acesso aos mercados de trabalho e consumo e a conquista de uma vida material um pouco mais estável para parcelas amplas da população latino-americana que nunca haviam acessado isso. E, ainda, acesso à educação, à saúde, e uma dimensão de integração social um pouco mais plena. É injusto dizer que as propostas da onda rosa fracassaram. Se observarmos os índices de desenvolvimento social de diferentes países da América Latina, temos evidências de avanços significativos importantes. No caso do Brasil, os efeitos benéficos do Bolsa Família para a população em geral estão bem documentados por diferentes pesquisas. Mas, em política, as expectativas do eleitorado não são para o longo prazo. John Keynes dizia que, no longo prazo, estaremos todos mortos. E, por isso, os resultados, principalmente os de cunho econômico, precisam ser mais imediatamente sentidos. É muito difícil argumentar eleitoralmente com uma pessoa que passa por dificuldades econômicas, que está desempregada, endividada, ou com um membro da família doente, que ela pode ficar tranquila porque seus bisnetos viverão em um país melhor. Isto definitivamente não é uma boa chamada eleitoral. E então, se cria uma tensão no processo eleitoral de democracias em desenvolvimento, como é o caso dos países da América Latina, sobre a necessidade de respostas mais rápidas para todos estes problemas. Interpreto muito o avanço da extrema direita em países da América Latina como isto: a percepção da população de que os sucessos dos governos de centro-esquerda do início do século 21 não foram rápidos ou abundantes o suficiente. Não foram gerais o suficiente. No Brasil, por exemplo, se resolve uma dimensão de desenvolvimento social, mas o problema da violência se agrava e compromete o cotidiano. Por isso a nossa direita enfatiza tanto o populismo penal. E então, em eleições que ocorrem de maneira justa e aberta, há representantes da extrema direita que conseguem mobilizar eleitoralmente esses medos, frustrações, ansiedades e aflições, mesmo que a própria extrema direita não consiga elaborar soluções. Tanto que seu sucesso na América Latina é pontual. Não vemos líderes que conseguem renovar mandatos de maneira sucessiva e estável. Como inclusive ocorre também nos Estados Unidos. Em paralelo, a esquerda sofre do mesmo problema de não conseguir resolver ou oferecer um alívio mais imediato para as frustrações da população, e também tem dificuldade em permanecer no poder.

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