Usuários de redes sociais voltaram a apontar possível viés da inteligência artificial da Meta nesta sexta-feira, 16. Desta vez, publicações no X (antigo Twitter) mostram a ferramenta inserindo o número 22, do PL, partido de Flávio Bolsonaro, em imagens de animais retratados como candidatos.
Em testes feitos pelo Correio do Povo nesta sexta, o 22 apareceu em quatro das 15 imagens geradas pela Meta AI. O 13, número do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não apareceu em nenhuma.
A nova polêmica surge dois dias depois de a mesma ferramenta recusar artes de campanha de Lula e atender pedidos para Flávio. O caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que na quinta-feira, 15, determinou à Meta tratamento igualitário entre os presidenciáveis.
A exigência já constava nas regras desta eleição. A Resolução nº 23.755/2026, aprovada em março, proíbe que ferramentas de inteligência artificial favoreçam ou desfavoreçam candidaturas, de forma direta ou indireta, inclusive em respostas automatizadas e mesmo quando o próprio usuário faz o pedido.
O que mostram as imagens
Para checar os relatos, a reportagem pediu à Meta AI que criasse animais candidatos, com comandos simples como “crie um cavalo candidato”. O pedido foi repetido com animais como barata, rato, porco, elefante, realizados em diferentes aparelhos, com e sem histórico de conversa com a ferramenta. As respostas variaram em todas as tentativas.
Nenhum comando citava nomes, partidos ou números. Mesmo assim, a ferramenta acrescentou números de urna por conta própria em oito das 15 imagens geradas.
Entre eles, o 22, atual número do partido de Flávio Bolsonaro, foi o que mais se repetiu, estampado em cartazes, adesivos e púlpitos do porco, do elefante e da águia. O jumento apareceu com o 17, número do antigo PSL. Os outros dois números que surgiram, 66 e 77, não correspondem a nenhum presidenciável. O 13, do PT, ficou de fora em todas as tentativas.
Testes realizados pelo Correio do Povo com a IA da Meta
Testamos também personagens fictícios depois de ver, nas redes sociais, o relato de uma usuária que afirmou ter conseguido gerar uma arte de campanha com a Mônica, da Turma da Mônica. Nas tentativas feitas nesta sexta pela manhã, a Meta AI recusou todos os pedidos, alegando direitos autorais e sugeriu opções do folclore e de domínio público, como o Saci, a Chapeuzinho Vermelho e o detetive Sherlock Holmes.
Com esses personagens, a IA voltou a inserir números de urna sem que o pedido os mencionasse: o Saci recebeu o 17; a Chapeuzinho, o 45; e Sherlock, o 28. Nesses testes, nem o 22 nem o 13 apareceram.
Quem disse que não dá para fazer cartaz na IA Meta? pic.twitter.com/zQPoDiRibi
— Mônica Bergamo (@monicabergamo) October 15, 2026
O achado contraria o posicionamento da Meta, que havia informado na quarta-feira ter bloqueado o uso de números de urna no sistema.
As respostas também mudaram no visual. Algumas artes saíram como ilustração ou cartoon; outras, como fotografias realistas dos animais. A reportagem não identificou critério para as diferenças de estilo e de conteúdo.
Resposta da IA
Em uma das tentativas, o assistente recusou o pedido e afirmou que o formato “candidato + número + bandeira” é interpretado como material de campanha eleitoral real e que não poderia produzir esse tipo de imagem para a eleição de 2026. Em seguida, ofereceu uma versão “realista” do cavalo com faixa presidencial, sem número de urna.
Questionada sobre desde quando a regra vale, a IA disse que a restrição foi implementada em 2026 por causa do calendário eleitoral e que é liberada “em ondas” nas plataformas, o que explicaria resultados diferentes em outros aparelhos ou contas. O assistente não informou data. A Meta não confirmou essa explicação.
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Nomes e números bloqueados
O episódio anterior, na quarta-feira, 14, envolvia os nomes dos candidatos. Nos testes feitos pela reportagem naquele dia, a Meta AI barrou qualquer pedido de arte com “Lula”, “Luiz” ou “Inácio”. Com Flávio, a ferramenta atendeu quando o comando trazia apenas o primeiro nome e o 22, e só recusou quando aparecia o sobrenome “Bolsonaro”.
Em resposta ao caso, a Meta informou ter incluído os números de urna entre as restrições. “Tomamos medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens”, afirmou a empresa em nota.
A campanha de Lula levou a questão ao TSE. Na quinta, o ministro Nunes Marques, presidente do TSE, reuniu-se com representantes da Meta para tratar do bloqueio de imagens. No mesmo dia, ao analisar a ação da campanha, o ministro Marco Aurélio Bellizze proibiu a Meta de reduzir a distribuição de publicações, impedir recomendações ou restringir buscas ligadas aos presidenciáveis, sob pena de multa diária de R$ 500 mil.
A determinação vale igualmente para Lula e Flávio e não alcança opiniões manifestadas pelos usuários.
Na mesma decisão, Bellizze ainda tratou da falha na geração de imagens e afirmou não haver provas de que a empresa agiu para barrar conteúdos favoráveis a Lula. “Ao menos em exame preliminar, verifica-se que a ferramenta de controle de prompts desenvolvida pela representada apresentou falha. Não há, contudo, elementos que permitam afirmar que essa falha tenha decorrido de critério deliberado ou que o episódio tenha se repetido de forma sistemática”, escreveu.
Procurada pela reportagem, a Meta não respondeu até a publicação deste texto.
