Política

Lula precisa ‘virar o jogo’ em 2025

Amparados por diferentes sondagens, partidários, aliados e analistas políticos consideram que prazo para governo se reconectar com população está se esgotando

Foto : Ricardo Stuckert / PR / CP

Em pleno meio de mandato, mais do que em qualquer momento desde o início do terceiro governo do presidente Lula, há, entre petistas e aliados, um sentimento de urgência sobre 2025. No sentido de que não basta que se transforme em um ano de ‘muitas entregas’ por parte do governo. Elas precisarão ser percebidas de fato pela população. O que, até agora, não vem ocorrendo.

Os problemas de conexão com a sociedade são debatidos internamente há muitos meses, mas o governo e o PT têm encontrado dificuldade em passar do diagnóstico à resolução. O resultado desta hesitação chegou a uma espécie de ápice no último final de semana, quando foram divulgados diferentes levantamentos sobre a percepção da população a respeito do terceiro mandato de Lula, e suas expectativas para o futuro a curto prazo.

Na sexta-feira, o Datafolha divulgou no jornal Folha de São Paulo levantamento mostrando queda importante na aprovação do presidente: de 35% em dezembro para 24% agora. A pior de Lula até aqui, considerando seus três mandatos. A reprovação subiu de 34% para 41%. E 32% acham o governo regular. Eram 29% em dezembro.

Luiz Inácio da Silva mudou a comunicação, mas ainda enfrenta problemas de apresentar resultados | Foto: Ricardo Stuckert / PR / CP

A pior notícia da pesquisa, contudo, foi a queda entre os próprios eleitores. Entre os que votaram no petista no segundo turno de 2022, o ótimo ou bom caiu de 66% em dezembro para 46% em fevereiro. A maioria migrou para o regular. As baixas são significativas entre grupos caros ao presidente, a saber: mulheres, negros, mais pobres, menos escolarizados e nordestinos.

No sábado o site Uol publicou outra sondagem, do Ipec (ex-Ibope), que ouviu eleitores sobre se Lula deve ou não se candidatar à reeleição em 2026. Entre os entrevistados, 62% responderam que não. Em setembro do ano passado, eram 58%.

Apesar de a variação não ser expressiva, o detalhamento da pesquisa preocupa as hostes petistas. Porque, entre os contrários à tentativa de reeleição, 36% justificaram a opção dizendo considerar que o presidente não estaria fazendo um bom trabalho.

Entre os que votaram nele em 2022, mas são contra ele tentar outro mandato em 2026, 31% justificam sua opção em função da idade do presidente, hoje com 79 anos. Outros 27% apontam que não estaria fazendo um bom trabalho. E 14%, que deveria dar espaço a novas lideranças.

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No domingo, o jornal o Globo divulgou levantamento encomendado à Quaest sobre as aspirações e percepções da classe média no país, com dados colhidos em 2024. A pesquisa trouxe boas e más notícias ao chamado campo da esquerda na política.

Apurou, por exemplo, que a classe média está pessimista com a economia, que há desvalorização do diploma de curso superior, e que o empreendedorismo está em alta. O aumento da escolaridade é bandeira histórica entre progressistas. E a troca que parcelas significativas da população fazem de postos com carteira assinada e direitos trabalhistas por ocupações onde é tênue a linha entre empreendedorismo e informalidade tem se mostrado um desafio para os partidos de esquerda.

Maioria é contra privatização de empresas como a Petrbras | Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil / CP

Por outro lado, maioria ampla dos entrevistados considerou que o governo deveria ter mais empresas estatais do que possui hoje, e é contra a privatização de grandes empresas como Petrobras e Correios. E a quase totalidade defende que é dever do governo oferecer saúde e educação gratuitos para todos.

Se não ‘virar a chave’, entrará muito enfraquecido para 2026

Mesmo que existam alinhamentos a serem capitaneados, como as opiniões sobre privatizações e deveres dos governos, no conjunto os dados dos levantamentos acenderam um sinal vermelho no campo à esquerda.

E pesquisadores e analistas políticos são unânimes em considerar que, se o governo não ‘virar a chave’ nos próximos meses, entrará muito enfraquecido nas articulações para as eleições gerais de 2026. Isto, além de turbinar ainda mais uma direita vitaminada, que já demonstrou o quanto sabe se conectar com amplas parcelas do eleitorado, assombra a esquerda por outro motivo: o de que, a depender dos números, Lula pode não concorrer.

Dentro e fora do PT, é ponto pacífico que o presidente, a esta altura, não nutre qualquer simpatia por disputar uma eleição na qual não arranque como favorito. A justificativa oficial a ser utilizada, caso de fato o governo não consiga ‘virar o jogo’, serão as questões de saúde.

Na prática, o entendimento entre partidários e aliados é o de que nem Lula e nem ninguém com uma trajetória como a sua se colocaria na posição de encerrar a vida pública com uma suposta derrota dessa monta.

O coordenador do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, professor Rodrigo Gonzalez, adverte que os índices de popularidade de Lula 3 não podem ser comparados com os do primeiro e segundo mandatos, porque os cenários são completamente diferentes tanto do ponto de vista econômico como político. Sobre o econômico, lembra que o presidente, antes, tinha margem muito maior para aprovar políticas públicas. Sobre o político, destaca que a polarização, crescente desde 2010, se estabeleceu em definitivo a partir de 2018.

“Dito isto, é fato que o governo patina na divulgação de uma agenda positiva, e que o presidente precisa de políticas de impacto, obras e algum tipo de turbinação na renda, para que a população diga ‘o Lula está nos salvando’. Muito provavelmente vai tentar medidas de benefício geral que ajudem o consumo, o crédito e a distribuição de renda, e que sejam atribuídas ao governo. O timing dele é, no máximo, fevereiro de 2026. Isso significa que, se no Natal as pessoas ainda estiverem com a sensação de hoje, não dá mais tempo de recuperar.”

Conforme o professor, em relação às pesquisas, o governo necessitará de, no final deste ano, ter no mínimo equilibrado os números. “O ideal seria pelo menos alcançar os 40% de aprovação. Mas, se chegar nos 35% e conseguir deixar o regular como a maior faixa, é competitivo. Porque, para os eleitores, quando não está nem melhor e nem pior, já é motivo para deixar como está.” Gonzalez salienta ainda que Lula precisará “fazer a mágica de atrair conservadores.”

“Neste sentido, entre o final de março e meados de abril já teremos indicativos sobre os humores do eleitorado. Até lá deve ter ocorrido a reforma ministerial e será possível perceber se a movimentação do governo para diminuir a rejeição está dando resultados”, projeta.