Política

Para Hamilton Mourão, aprovar anistia sem Bolsonaro seria caminho “mais simples”

Senador do Rio Grande do Sul comenta sobre o clamor por anistia, o julgamento por tentativa de golpe, as sanções dos Estados Unidos e as eleições de 2026

“Acho que muito simples é aprovar para a turma do 8 de Janeiro”, declarou o general
“Acho que muito simples é aprovar para a turma do 8 de Janeiro”, declarou o general Foto : Mauro Schaefer

Senador do Rio Grande do Sul, o general da reserva Hamilton Mourão (Republicanos) foi um dos primeiros políticos do país a propor um projeto de anistia após os episódios de 8 de janeiro de 2023. À época, o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus companheiros do alto escalato das Forças Armadas ainda não haviam virado réus por tentativa de golpe de Estado.

Agora, aliados dos Bolsonaro da extrema-direita ao Centrão disputam qual será a anistia possível: a “ampla, geral e irrestrita”, como defendem os mais fervorosos apoiadores do ex-presidente, ou um projeto voltado aos condenadas do 8 de Janeiro, que não incluiria os réus da trama golpista.

“Acho que muito simples é aprovar para a turma do 8 de Janeiro”, admite Mourão, nesta entrevista exclusiva ao Correio do Povo. O senador ainda fala sobre o mérito do julgamento em si, cujo processo considera “viciado”, opina que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deveria buscar um diálogo direto com o mandatário estadunidense Donald Trump diante da crise diplomática e avalia os cenários nacional e estadual para as eleições gerais de 2026.

Principais trechos da entrevista com o senador gaúcho Hamilton Mourão

  • O Congresso Nacional debate diferentes possibilidades de anistia envolvendo o 8 de Janeiro, como se posiciona nesse debate?

Em 2023 fui o primeiro que apresentei um projeto de anistia. Está parado no Senado. Estamos numa situação de divisão no país. Para romper isso tem que haver uma pacificação. A anistia seria importante para essa pacificação, para zerar o jogo e pararmos de nos atacarmos mutuamente. Vejo a anistia, como tivemos já em outros eventos do passado até muito piores, onde tivemos revoltas, guerra civil, mortos. Agora não tem morte, não tem nada. O máximo que tem é a depredação de patrimônio público. Cairia muito bem nesse momento.

  • Os movimentos recentes dão fôlego à anistia?

A pauta da anistia ganhou uma impulsão com o julgamento. Mas também após a reunião que tivemos na audiência pública da Comissão de Segurança Pública do Senado, onde aquele ex-assessor do ministro (Alexandre de) Moraes apresentou uma série de denúncias sobre conduta irregular, da forma que estavam sendo conduzidas as investigações. E uma ação também do governador Tarcísio (de Freitas, São Paulo) trabalhando lá em Brasília.

  • Como foi a atuação de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo?

Ele é habilidoso. Tem essa capacidade de conversar com os mais diversos tipos de parlamentares, diferentes espectros, políticos de outros partidos. Acho que vem fazendo isso de forma muito eficiente.

  • Há votos para aprovar a anistia no Senado?

Eu tenho minhas dúvidas hoje. Vai precisar de 41 votos. Se olhar o número de assinaturas que temos no caso do impeachment do ministro Alexandre de Moraes, são 41. Acho que existe uma maioria capaz de aprovar, mas tudo vai depender da boa vontade do presidente do Senado, Davi Alcolume.

  • Alcolumbre tem uma proposta alternativa à anistia “ampla, geral e irrestrita”.

É, porque quando você fala em anistia ampla, envolve desde os condenados do 8 de Janeiro até os eventuais condenados do processo do STF agora. Ainda estamos no primeiro núcleo, o núcleo do (ex) presidente Bolsonaro. São cinco núcleos, mais de 40 envolvidos. Acho que muito simples é aprovar para a turma do 8 de Janeiro. Quando entrei com o meu projeto de anistia, eu estava olhando essa turma, até porque não tinha iniciado esse processo (do STF). Essa turma do 8 de Janeiro tinha que ter sido julgada na primeira instância, e não na última. Quando você é julgado na última instância, a quem você apela? Só que aí entra esse outro pacote do presidente Bolsonaro. Há a ideia de juntar tudo num projeto só. Então, vamos aguardar. Vejo que, na Câmara, juntando ali União Brasil, PP, PL e Republicanos, mais algumas dissidências de outros partidos, eles têm um número para aprovar. E no Senado, olhamos para esses 41.

  • Fica no limite.

Está no limite. Está na borderline.

  • Como viu os recentes movimentos da oposição para ocupar as mesas diretoras da Câmara e do Senado?

Na Câmara, ele foi muito mais radical que no Senado. Até pela natureza. Na Câmara, o pessoal é mais voluntarioso, mais jovem. Ali a coisa foi mais dura. Foi quando foi decretada a prisão domiciliar do (ex) presidente Bolsonaro, aquelas medidas cautelares. Aí entrou a questão das ações do deputado Eduardo Bolsonaro, as sanções do Donald Trump. Foi um protesto. Todo protesto é válido. A turma da esquerda disse ‘ah, meu Deus do céu’, mas sempre foram eles que fizeram isso. É uma forma de ação política.

  • Como vê, como um general, a alta cúpula do Exército sentada no banco dos réus no STF?

É um processo que eu considero viciado. A polícia investiga, o Ministério Público denuncia, o juiz julga. E nós temos tudo isso concentrado numa única pessoa. É um fato que não há como contestar. Essa ação foi levada a efeito o tempo todo pelo ministro Alexandre de Moraes. Ele vai em cima do lado mais fraco dessa equação, que se chama tenente-coronel (Mauro) Cid. Sob o argumento da questão da falsificação de um cartão de vacina, ele faz uma busca e apreensão na casa do Cid, pega celulares, computadores, etc. E a partir daí tem uma série de conversações e de documentos que nunca vieram a público, mas são conversações que ocorreram e que não passaram disso. Então, fica aquela discussão se esse ato preparatório representa crime, se não é crime, etc. Essa é a questão jurídica. Em relação aos nossos companheiros que estão lá, os generais (Augusto) Heleno, Braga Netto, Paulo Sérgio (Nogueira) e o almirante (Almir) Garnier, na minha visão é uma forçação de barra. Eram generais da reserva que não tinham comando de tropa e que não tinham a mínima capacidade de efetivamente dar um golpe de Estado com tropa na rua aqui no Brasil. As acusações não se sustentam se olhar efetivamente à luz do que é uma tentativa efetiva de golpe de Estado.

  • Na ação penal, se fala muito sobre reuniões que teriam ocorrido em meados de dezembro de 2022 no Palácio do Planalto. O senhor esteve com o ex-presidente Bolsonaro naquela época?

Sim, eu fui testemunha do (ex) presidente Bolsonaro no processo. Uma das perguntas que me foi feita foi essa questão. Eu, no dia seguinte à vitória eleitoral do presidente Lula e do seu vice-presidente Geraldo Alckmin, liguei ao Alckmin e me coloquei à disposição para o que fosse necessário e o (ex) presidente Bolsonaro jamais fez qualquer interferência nisso. Naquele período, Bolsonaro ficou muito abatido. Havia uma desconfiança em relação ao processo eleitoral, que, na minha visão, está muito calcada na forma como o árbitro procedeu. O Tribunal (Superior) Eleitoral foi parcial, interferindo e proibindo determinadas manifestações da chapa Bolsonaro-Braga Netto. Na minha visão, não estava correto. Aí tem essa história dessas reuniões, das quais eu nunca participei, nunca vi e jamais tomei conhecimento disso.

  • Decorre também do julgamento a questão diplomática envolvendo os Estados Unidos. Qual deve ser a solução?

Uma potência exerce o seu poder ou por meio da coerção, ou por meio da força econômica, ou por meio da atração pela forma como o país se coloca em âmbito mundial. Os Estados Unidos sempre procuraram agir muito mais pela atração do que pela coerção e pelo dinheiro. Só que o presidente Trump, lá no primeiro governo dele, já tinha procurado colocar mudanças nessa ordem econômica mundial, principalmente em relação ao que ele via como um avanço da China sem cumprir as regras do jogo dos demais países. Nós, num primeiro momento, ficamos naquele pacote da tarifa de 10%. Só que ele, aproveitando como um biombo a situação política interna, a qual está submetido o (ex) presidente Bolsonaro, ele avança para cima do Brasil muito mais, talvez, voltado ao arroubo juvenil do governo atual de ser anti-americano, dessa questão do Brics, que não é um grupo econômico, é um grupo que a China está usando para também fazer a sua ação geopolítica. Então ele avança para cima da gente e aí nós perdemos o diálogo. O presidente Trump foi eleito no final do ano passado, assumiu no dia 20 de janeiro e em nenhum momento nosso presidente se dignou a conversar com ele. Essa diplomacia tem que acontecer. Não adianta parlamentar falar com parlamentar. O presidente Alckmin também tentando pelos canais dele. Mas o presidente da República tem que falar com o presidente Trump e colocarem as cartas na mesa. Mostrar que o argumento de que o Brasil prejudica os Estados Unidos não para em pé.Somos deficitários nessa relação.

  • Para 2026, a direita possui um cenário muito pulverizado, com diversas candidaturas possíveis, incluindo a do governador de SP, Tarcísio de Freitas, que é do seu partido.

A realidade é que o nosso grupo deve muito ao presidente Bolsonaro. Colocou a direita de novo no jogo. Éramos um país torto para a esquerda, todo mundo era de esquerda, mesmo não sendo. E ele está fora desse jogo atualmente, está inelegível e surgem vários candidatos. Ainda vamos ter que esperar terminar esse processo do julgamento para juntar os partidos e enfrentar quem for o candidato do atual governo, se é o atual presidente ou outro indicado por ele. Até porque o atual presidente já não tem mais condições físicas nem cognitivas de continuar governando o país.

  • O candidato da direita precisa necessariamente ser indicado pelo Bolsonaro?

Não digo indicado, mas precisa que o (ex) presidente Bolsonaro bote a mão no ombro e diga assim: esse cara tem a meu aval.

  • Qual será o futuro de Tarcísio?

Hoje ele está mais interessado em resolver a situação do (ex) presidente Bolsonaro do que propriamente se colocar como eventual candidato a presidente da República. Apesar de muita gente já ter colocado essa visão de ele ser o elemento mais preparado para ser o próximo presidente, ele está preferindo jogar de forma mais discreta.

  • Qual deve ser o posicionamento do Republicanos nas eleições estaduais?

O Republicanos é um partido que tem um núcleo adepto do (ex) presidente Bolsonaro, mas tem um outro grupo que é mais de centro. O partido ainda vai aguardar essas definições para efetivamente se posicionar. Mas vemos que tudo se encaminha para apoiar um candidato que consiga unir no mínimo dois desses partidos em torno dele. Temos a (pré) candidatura do (Luciano) Zucco, que é uma liderança do nosso campo, mas vamos ter que construir um caminho, algo com mais apoio. Não dá pra ir sozinho.