Para quem vê de fora, tudo parece normal. A lavoura está plantada, a família reunida e a rotina mantida. No entanto, dentro de muitas propriedades rurais do Rio Grande do Sul, o sofrimento psíquico é vivido em silêncio até se transformar em tragédia. Quando uma pessoa tira a própria vida, a dor e o estigma se espalham pela família e pela comunidade, deixando marcas em quem fica, muitas vezes sem rede de apoio, sem respostas e com o peso da culpa. A complexidade dos casos desafia a sociedade e o poder público a encontrarem caminhos e estratégias para amenizar o sofrimento e evitar novas ocorrências.
O Boletim Epidemiológico Lesão Autoprovocada e Suicídio da Secretaria Estadual da Saúde, de 2025, indica, ao menos, 1.528 óbitos no ano anterior no Rio Grande do Sul. Desse total, 23 são de agricultores, mas estima-se que o número possa ser maior, uma vez que algumas declarações de óbito indicam, na atividade profissional, aposentadoria, sem a atividade pregressa.
Ao ouvir experiências de familiares de pessoas que cometeram suicídio para escrever sua tese de doutorado, a enfermeira Eliane Lavall, chefe de Enfermagem da Unidade de Internação Psiquiátrica adulta e CAPS do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, percebeu que havia um discurso comum em torno dos casos. “Ouvia-se falar que estava tudo bem na família, ‘como assim se suicidou?’” Porém, a pesquisa mostrou que a grande maioria das situações era antecedida de um intenso sofrimento psíquico. “Havia uma longa história prévia de sofrimento até a pessoa chegar no ato suicida, às vezes precedida de tentativas ou verbalização clara de ideação.” Isso a levou a concluir que as dificuldades dificilmente extravasam o grupo mais próximo.
“Ocultar a manifestação de problemas e conflitos no núcleo familiar transmite uma imagem diferente da vida intrafamiliar, trazendo surpresas a amigos, conhecidos, comunidade com os quais o indivíduo mantinha vínculos”, explica.
Fora da pesquisa, esse padrão se repete nas propriedades. Após perder o pai José*, de 71 anos, Roberto ficou sabendo de outros casos de suicídios no meio rural, próximo de onde reside na Região Metropolitana. A família foi surpreendida em novembro pelo ato de José, que tinha depressão, e até agora procura por motivos. “A depressão corrói de forma oculta”, define o filho, que contava com a ajuda do agricultor em sua propriedade para ordenhar vacas, cuidar dos cavalos e, principalmente, para olhar as crianças durante o trabalho dos pais.
Sobre esse aspecto, a secretária-geral da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Jaciara Muller, observa que há uma necessidade crescente de apoio à saúde mental dos agricultores gaúchos, especialmente diante das sucessivas crises climáticas e do elevado endividamento.
“A insegurança financeira, a dificuldade de renegociar dívidas e o risco de perda da propriedade têm agravado o sofrimento emocional de muitas famílias rurais, impactando diretamente sua qualidade de vida”, reconhece.
Por isso, a entidade defende que o enfrentamento passe não só por soluções econômicas, mas especialmente por políticas públicas que incluam acolhimento, escuta e atendimento em saúde mental voltados ao meio rural.
“Cuidar da saúde emocional de quem produz alimentos é fundamental para a sustentabilidade do campo e das comunidades rurais”, diz.
A mesma preocupação é compartilhada no âmbito da Secretaria Estadual de Saúde, que tem desenvolvido ações para ampliar o acesso e o acolhimento desse grupo específico.
*Os nomes nesta reportagem foram alterados para preservar as famílias.
Leia mais em:
Entre lavouras e silêncio: a saúde mental dos agricultores em alerta no Rio Grande do Sul
O que mais causa sofrimento ao agricultor
O impacto na vida das pessoas que ficam
Onde procurar ajuda
- CAPS e Unidades Básicas de Saúde
- UPA 24H, SAMU 192, Pronto Socorro; Hospitais
- Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita)
- Acessando www.cvv.org.br