O ano de 2026 colocou a carne bovina brasileira no centro de dois impasses comerciais. Principal destino do produto, a China instituiu uma cota de importação e aplicará uma taxa adicional de 55% sobre embarques do Brasil que superarem o limite fixado para o período. Da União Europeia veio a exclusão do Brasil da lista de países que cumprem as regras do bloco relacionadas ao uso de antimicrobianos na pecuária. Essas barreiras criadas fora da porteira, porém, não impactam as expectativas do setor em torno da Expointer, que começa neste sábado (29) em Esteio, avalia o professor Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). O cenário de mercado atual, destaca, é de preços em alta para a proteína vermelha.
Segundo Barcellos, o excesso de chuvas causado pelo fenômeno El Niño neste inverno prejudicou as pastagens e a manutenção dos rebanhos, pressionando os preços do boi gordo para cima, ao contrário do que se espera nesta época do ano. Além desses impactos climáticos, o comportamento das cotações reflete restrições na oferta de animais para abate. “Temos uma escassez de gado no mundo, dificuldades de povoamento dos campos e uma grande oportunidade para ganhos genéticos, aquisição de reprodutores. Embora a Expointer não seja o local para isso, é uma vitrine em que todos se espelham e que depois repercute nos grandes leilões de primavera no Estado”, diz Barcellos.
Para o professor, o cenário só não é mais positivo quando se considera o alto nível de endividamento dos produtores rurais em geral, o que inibe novos investimentos nas propriedades.
“(Há) um grande interesse em povoar campos, embora o crédito seja escasso, e isso valoriza o gado de reposição, de animais para cria. Então, é uma Expointer diferente das demais, em que a pecuária está num ano muito favorável e com uma perspectiva de continuar assim nos próximos cinco anos, porque esta queda na oferta não será superada nos próximos anos”, aponta.
Maior exportador mundial de carne bovina, o Brasil poderá encerrar o ano com uma retração de 20 milhões de cabeças em seu rebanho, segundo Barcellos. “Essa redução é decorrente de um ciclo de baixa, o que desencadeou um aumento dos abates, incluindo um percentual excessivo de matrizes”, explica o professor. A queda da oferta não atinge apenas o mercado brasileiro. Questões econômicas, políticas e climáticas levaram à diminuição dos estoques de animais também nos Estados Unidos, na Argentina e na Austrália, por exemplo.
“A recuperação de rebanho é lenta, exige crédito e externalidades que motivam o pecuarista a reter matrizes. Difícil de ocorrer de forma combinada, como ocorreu na redução do rebanho”, diz o coordenador do NesPro. “Adicionalmente destaco a questão do crescimento populacional, que aumenta a demanda (por carne bovina)”, acrescenta.
Neste ano, a programação do NesPro na Expointer inclui aulas abertas sobre conforto animal nos galpões, gado de corte e leite, raças bovinas e pavilhão de gado de corte. Uma das novidades, segundo Barcellos, será o lançamento de plataformas de orientação aos pecuaristas sobre questões climáticas e tecnologias para as propriedades. Confira abaixo como as principais lideranças da pecuária gaúcha marcarão presença na Expointer.
Uma resgate das raízes históricas da feira
À frente de duas instituições ligadas à bovinocultura, a Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raça (Febrac) e a Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul, que representa a principal raça leiteira desenvolvida no Estado, o pecuarista Marcos Tang entende que a Expointer precisa resgatar suas raízes históricas. Para o dirigente, apesar de serem as estrelas da mostra, os animais podem acabar ficando em segundo plano da perspectiva dos visitantes. “Em muitas raças, aquele exemplar (premiado), grande campeão, é o que há de melhor no mundo. Então, que seja uma oportunidade, para quem visita, de conhecer um pouco. Acho que isso se perdeu um pouco nos últimos anos por causa do comércio de produtos”, avalia.
Ao longo dos nove dias do evento, destaca Tang, a agropecuária gaúcha apresentará à comunidade científica e econômica o seu legado.
“A genética é um ato contínuo, geralmente começado pelos nossos pais e avós. Quando uma vaca sai da propriedade, não sai só um indivíduo com brinco, sai uma história”, afirma Tang. “Nas raças leiteiras, você quer longevidade e produtividade; nas de carne, você quer precocidade e resultado. O produtor está fazendo isso. Para mim, este ainda é o grande intuito: mostrarmos o quanto, mesmo com as dificuldades, o produtor continua fazendo esse aperfeiçoamento genético.”
Segundo o pecuarista, a maior virtude da Expointer está nas conexões que proporciona. O evento favorece a troca de experiências entre os produtores e o diálogo sem intermediários com o mercado. “É necessário que se tenha esse entendimento da necessidade de cada um, consumidor e produtor, também para desmistificar muitas fake news. Ali você pode ver o quanto o criador tem boas maneiras com seus animais; que tem conforto animal e produz algo de qualidade”, observa.
Para facilitar a vida dos expositores, alguns dos quais transportam até 20 animais em caminhões para participar do evento, inclusive vindos de outros estados, Tang informa que a Febrac reforçará os serviços do Shopping Rural. Novidade apresentada na Expointer de 2025, o espaço oferece insumos e alimentação de alta qualidade para os animais, como pasto verde, feno, ração, pré-secado e também material elétrico. “Eles ficam praticamente mais de dez dias dentro do parque. Uma vaca, por exemplo, come 30 quilos de silagem por dia e meio fardo de feno, imagina o quanto que tu tens que trazer. Então, se tiver a oferta aqui num preço justo, a gente está realmente dando condições”, ressalta o dirigente.
Plano de ações para promover a carne gaúcha
Reputação é a palavra que define o estágio atual da pecuária gaúcha, tem certeza a presidente do Instituto Desenvolve Pecuária, Antonia Scalzilli. Se, em 2024, o evento em Esteio ficou marcado como a “Expointer da Reconstrução”, simbolizando a capacidade de superação do agronegócio após as enchentes de 2024, e o do ano passado foi recebido como uma oportunidade de reflexão, Antonia espera que esta edição da feira instigue a mudança de pensamento na cadeia produtiva. “O Brasil precisa buscar acordos comerciais que mudem essa visão de que a nossa pecuária é ‘commodity’. Temos que buscar mercados de maior valor agregado. Precisamos vender transparência, confiança”, enfatiza.
A pecuarista observa que o país já é reconhecido oficialmente como área livre de febre aftosa sem vacinação por grandes parceiros comerciais. Ainda há muito a avançar, porém, na implementação de sistemas de rastreabilidade bovina frente às exigências de mercados importadores e da pressão por sustentabilidade.
“O pecuarista gaúcho precisa entender que ele é um empresário do campo e precisa aprender a fazer conta. A rastreabilidade é uma ferramenta indispensável para dentro da porteira, que vai possibilitar com que ele faça métricas, estabeleça metas e tome as decisões baseadas nos dados”, defende Antonia.
Mote do Fundo de Promoção da Carne Gaúcha (Fundocarne), a comunicação dos atributos diferenciais da carne produzida no Rio Grande do Sul estará no centro das ações do Instituto Desenvolve Pecuária na Expointer. “Então, cada vez mais destacar o Rio Grande do Sul, que produz uma carne completamente diferente, porque tem um bioma, um clima, aças britânicas. Produzir, no Rio Grande do Sul significa preservar o meio ambiente, o nosso bioma, que é compatível com a pecuária”, enfatiza a pecuarista.
Criado em fevereiro, o fundo é mantido com recursos coletados de forma voluntária de produtores, frigoríficos, associações de raça e leiloeiros, em todas as fases da operação comercial, e os próximos passos do projeto serão anunciados na segunda-feira (31 de agosto). “Vamos começar a botar na rua, realmente, o Fundocarne. Será a primeira ação do nosso planejamento estratégico”, adianta a pecuarista.
Além do curso Da Mangueira à Carcaça, a programação do Instituto na Expointer prevê debates sobre reforma tributária, engorda intensiva e nutrição animal, certificação de origem da AproPampa (selo de Indicação Geográfica da carne produzida no Bioma Pampa Gaúcho) e a palestra “O Peão do Amanhã”. Segundo Antonia, estão previstas ainda ações de capacitação para polícias com foco no combate aos crimes rurais.
Angus aproxima genética da experiência de consumo
Para a Associação Brasileira de Angus, a Expointer significará a oportunidade de mostrar como os pesados investimentos em genética animal se refletem em resultados comprováveis na ponta do consumo. A entidade repetirá neste ano suas ações de degustação, mas sob um novo foco: destacar a versatilidade do selo Carne Angus Certificada, chancela concedida em parceria com frigoríficos que atesta o alto padrão dos cortes bovinos da raça em termos de sabor, maciez e marmoreio. Na segunda-feira (31), haverá um coquetel na sede da associação no parque de Esteio. “Vamos trazer não só hambúrguer, mas salsicha, linguiça. Trazer produtos alternativos para consumidores diferentes, mostrar que o programa não certifica só carne”, explica o gerente nacional do Programa Carne Angus Certificada, Maychel Carvalho Borges.
Nessa linha, o ponto alto da programação será o preparo de assados de carne certificada Angus junto à pista de julgamentos da raça, iniciativa introduzida na edição passada da Expointer. Os eventos especiais estão previstos para a segunda e a terça-feira (31 de agosto e 1º de setembro), quando ocorrerão as avaliações de animais de curral (rústicos) e buçal. “Nós queremos não só repetir, mas melhorar essa experiência. A Expointer é o único lugar em que a gente pode levar desde a genética até o churrasco de fato”, diz Maychel.
A raça também levará para a feira o espaço Tecno Angus, no qual lançou, em 2025, o selo Beef on Dairy. A iniciativa estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandês e Jersey com touros Angus para produzir cortes premium e diversificar a renda na pecuária.
“Vamos levar um pouquinho de tecnologias e de ciência da carne para mostrar ao público, unindo essa questão de genética com a produção de carne de qualidade”, detalha Maychel.
Em meio a essas ações, acrescenta o gerente nacional, serão apresentados os números de desempenho do Programa Carne Angus Certificada no primeiro semestre de 2026. “Estamos em crescimento tanto em exportação quanto em produção de carne, mais animais abatidos dentro do programa”, adianta Borges. Na Expointer, a associação da raça fará ainda o lançamento do Indicador do Boi Datagro para o Rio Grande do Sul. Já utilizado em nove estados, o indexador reflete as cotações diárias do boi gordo.