Caso realizado o sonho do jornalista e produtor de Vera Cruz Diego Weigelt de contemplar o Rio Grande do Sul como player na produção de café, pode ser um alento para mudar a realidade de hoje. Afinal, a agricultura brasileira é a maior produtora e exportadora mundial de café. Quatro entre dez xícaras consumidas no planeta saem dos cafezais do Brasil, mas nenhuma de solo gaúcho.
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O café ‘possível’ na agricultura gaúcha
Assim como ocorre no algodão, commodity em que o Brasil também lidera globalmente a produção e os embarques, o Rio Grande do Sul não tem tradição na cafeicultura. A explicação é o clima frio, as costumeiras geadas, que fazem um mal terrível às plantas e também às da pluma.
“Vamos dizer assim, a produção de café aparece, mas eventualmente na questão dos pomares domésticos. Se propaga em alguns arranjos de agroflorestas, principalmente no Litoral Norte”, descreve Luis Bohn, da Emater/RS-Ascar, o contexto da “cafeicultura gaúcha”.
Segundo ele, nessa região, a atividade “já teve uma expressão no passado”, inclusive com uma pequena fábrica em Torres, na divisa com Santa Catarina, e alguns agricultores envolvidos com a atividade. “Alguns produtores produziam café, (mas) muito como elemento cultural. É uma região que foi muito influenciada pelo troperismo. Ou seja, muita influência do Centro-Oeste do Brasil. E poderia dizer que até o hábito do consumo de café é maior do que o chimarrão, talvez por isso”, explica.
“Muitas famílias até hoje preservam café e têm ferramentais de produção de subsistência para o café. Ou seja, algumas árvores são deixadas nos seus quintais ou nos bananais, o que permite isso hoje. (Frutos) são colhidos, torrados, pelos próprios produtores para seu autoconsumo”, complementa. “A gente não observa nenhum movimento comercial nesse sentido. Pelo menos de maior expressão.”
É o caso do engenheiro-agrônomo Aloisio Schmaedecke Perdomini, que tem propriedade em Palmares do Sul, onde produz eucalipto comercialmente, assim como diversas frutíferas e café. São apenas 50 plantas, dez das quais em produção, cultivadas em parceria com árvores de flamboyans, jacarandás e guapuruvus no sistema agrofloresta, ou seja, os cafeeiros são protegidos das geadas.
A apenas 7 quilômetros do mar, ou seja, em um local mais tranquilo no que se refere ao fenômeno esbranquecido que se forma em dias muito frios e de temperaturas mais amenas, quando o Estado é atingido pelo inverno. Além disso, relata, ao contrário do que ocorria 20 ou 30 anos atrás, as geadas têm sido raras e bem leves, o que Perdomini atribui aos efeitos do aquecimento global.
Motivo social
A principal razão do cultivo não é a econômica, mas, sim, social – leia-se, saborear a agradável bebida junto a visitas com o orgulho do produto ter nascido, literalmente, em casa. Neste ano ele só gerou 4 quilos. “Eu não tenho uma perspectiva de virar produtor de café. Não é uma atividade econômica para mim, mas é uma brincadeira que tem uma repercussão social, com os amigos”, ressalta.
“Eu plantei o café como curiosidade no começo, não como produção. Mas agora eu tô tomando meu café. Aí, quando vem um amigo, vou torrar o meu café. É um diferencial”, confidencia. “Invariavelmente, isso abre um sorriso largo e uma amizade fortalecida. O café tem esse poder de criar um vínculo mais forte. Esse poder de atrair as pessoas.”
Mesmo assim, revela que pretende expandir a lavoura. O produtor gera as mudas para si e também para as pessoas que o visitam. “Esse pessoal leva as mudas e estão tentando (o cultivo). Vários deles não conseguem”, conta, acrescentando que muitos fazem o cultivo por uma questão decorativa. “Ele é uma planta tão bonita que também serve como ornamental. Produz o café, mas embeleza ao mesmo tempo”, justifica.
“Fora o fato de se ter um diferencial pelo ineditismo. Vai ser um nicho, acredito eu que vai ter produtores que vão conseguir uma produção de qualidade, mas nichado. Pessoas que têm o interesse de conhecer um sabor novo, uma experiência nova”, entende.
Festival de café
Os dois cafeicultores estão entre os participantes do 4º Caféstival, evento no BarraShopping Sul. A programação começou na sexta, e neste sábado às 11h15min, falarão os agricultores da Serra do Caparaó, região cafeeira de Minas Gerais e Espírito Santo referência internacional na produção de cafés especiais arábica cultivados em altitudes superiores a 1,2 mil metros. A região possui Denominação de Origem oficial e se destaca pela agricultura familiar, rastreabilidade e cultivo sustentável. Na sequência, às 12h30min, Weigelt e Perdomini, abordarão o tema “Produção de café no RS”.