Saúde

Como o RS derrubou em mais de 95% os casos confirmados de dengue em um ano

Clima, sorotipos “tradicionais” em circulação e estratégias de contenção foram fatores de auxílio, diz Centro Estadual de Vigilância em Saúde

Agentes de  combate a endemias trabalham na prevenção dos focos do aedes aegypti
Agentes de combate a endemias trabalham na prevenção dos focos do aedes aegypti Foto : Tobias Bernardo / Prefeitura de Pelotas / CP

Os números oficiais não mentem: o Rio Grande do Sul está em melhor situação relacionada ao controle da dengue do que em anos anteriores. De acordo com o Painel de Casos de Dengue, da Secretaria Estadual da Saúde (SES), o estado tinha, até a última segunda-feira, pouco mais de 20,2 mil notificações da doença causada pela picada do mosquito Aedes aegypti em 2026, representando incidência de 47,9 casos a cada 100 mil habitantes. Em todo o ano passado, foram 135 mil notificações e 746,3 casos por 100 mil pessoas, representando, portanto, 6,6 vezes menos infecções e incidência 15 vezes menor em 2026 sobre 2025.

Já as confirmações foram 2.447 neste ano em todo o RS, o menor número desde 2019. Para se ter uma ideia, em 2025, neste mesmo período, havia 52.357 casos confirmados, 95,3% menos, e em 2024, 209.258. As mortes, que no ano passado inteiro foram 53, agora estão em três. “Não podemos precisar que há um fator específico para esta redução. É algo que está ocorrendo em todo o Brasil”, disse a diretora do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Tani Ranieri.

Ela aponta, por exemplo, para a extensão do período de frio no Rio Grande do Sul, que impede o ciclo do inseto e a eclosão dos ovos ocasionada pela umidade e pelo calor. O El Niño, que tanto preocupa a população gaúcha por chuvas intensas e alagamentos, pode também ter contribuído. “As precipitações podem até ter feito com que estes criadouros fossem ‘lavados’, e por fim levados embora”, observou ela. Outro fator comentado pela diretora é o circulação relativa dos sorotipos tradicionais do vírus, o Denv-1 e o Denv-2, os quais grande parte da população gaúcha já possui imunidade.

Estratégias de contenção e monitoramento, como a instalação de ovitrampas, armadilhas para a coleta de ovos do Aedes aegypti, presentes em 86% dos municípios do RS, e a aplicação da chamada Borrifação Residual Intradomiciliar (BRI) com inseticida que atua durante quatro meses, feita em 224 cidades, podem ainda ter auxiliado. Historicamente, segundo a SES, o período de maior circulação da dengue no estado ocorre no mês de abril, nas semanas epidemiológicas 15 e 16.

Em 2025, este período acumulou 9.728 casos; em 2026, 527. Mas isto não significa que a guarda deve ser baixada, disse Tani, com as medidas individuais de proteção ainda necessárias, como a limpeza de potes, pneus e demais utensílios que podem acumular água; manter caixas d’água tampadas e usar telas em portas e janelas e repelentes em áreas de maior transmissão.

Alerta no próximo verão

Para o próximo verão, há o alerta da introdução do sorotipo Denv-3, que circula em outros estados brasileiros e ainda é relativamente inédito no RS. “Se ele entrar aqui com certeza, vai haver um número de pessoas suscetíveis muito grande. Consequentemente, podemos ter um aumento de casos relacionados a ele”, salientou a diretora.

A vacinação contra a dengue, feita desde 2024 pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pode ainda ter ajudado, embora o público-alvo atual do imunizante Qdenga, da japonesa Takeda, seja somente para crianças e adolescentes entre dez e 14 anos, faixa etária considerada de alto risco de hospitalização. A vacina nacional, desenvolvida pelo Instituto Butantan, está por ora com a imunização suspensa após um excedente de reações alérgicas graves.

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