Saúde

Dia Mundial da Saúde Mental: por que nos identificamos com sintomas apresentados nas redes sociais?

Especialista faz alerta e explica quando o diagnóstico é necessário

Especialista faz alerta e explica quando o diagnóstico é necessário
Especialista faz alerta e explica quando o diagnóstico é necessário Foto : Marcelo Camargo / Agência Brasil / CP

De acordo com o Ministério da Previdência Social, em 2025, cerca de 500 mil brasileiros se afastaram do trabalho por questões de saúde mental. O mesmo levantamento indica que, entre 2021 e 2025, ocorreu um aumento de 188% nestes casos. A pesquisa Covitel 2023 mostrou que 12% da população brasileira sofre com depressão e 26% com algum transtorno de ansiedade.

Os números revelam não apenas a dimensão do problema, mas também a urgência de abordá-lo com responsabilidade, evitando tanto o silêncio quanto a banalização. Para alertar sobre a importância da atenção ao bem-estar emocional, o dia 10 de outubro foi instituído como o Dia Mundial da Saúde Mental.

A docente de Psicologia na UniRitter, Marina Severo, explica que antigamente existia muito preconceito e tabu em torno de temas relacionados à saúde mental. Atualmente, se fala mais sobre o tema e, com isso, as pessoas entendem que podem buscar ajuda e que não precisam viver com um sofrimento ou dificuldade.

“A função do diagnóstico é ajudar a entender um funcionamento e os cuidados necessários. Além disso, antes, pessoas passavam a vida tentando se encaixar na norma, mas hoje discutimos muito sobre o espaço para que as diferenças existam”, afirma.

Cuidados ao consumir conteúdos na internet

As redes sociais são canais que podem ajudar na disseminação de informações sobre saúde mental. Porém, ao mesmo tempo que esta difusão auxilia as pessoas a se entenderem, a docente alerta que podem ser feitos reducionismos perigosos sobre o tema.

“Todos temos funcionamentos particulares, mas com características parecidas entre si. É normal se identificar com certas características de um diagnóstico, mas isso isoladamente só significa que somos seres humanos”, esclarece.

Sentir-se desatento, ansioso, triste ou irritado em alguma situação é algo comum. Muitas vezes, são estes sentimentos em comum que aparecem em conteúdos de redes sociais como características de algum diagnóstico e, por isso, ocorre a identificação.

Entretanto, isto não deve ser a base para que uma pessoa assuma que tem aquele diagnóstico. “Vídeos e posts de redes sociais não devem ser o fim da conversa, mas, sim, o começo. Se algum conteúdo chamou a atenção nesse sentido, isso deve ser discutido em terapia”, recomenda Marina. Além disso, a docente observa que, muitas vezes, há uma dificuldade das pessoas em identificar as próprias emoções e, nisso, passa-se a transformar todas as emoções em algo patológico.

Veja Também

Entender a fonte do conteúdo consumido é um dos principais cuidados. “Muitas pessoas que divulgam informações sobre saúde mental não são instruídas para isso”, destaca. O conteúdo produzido por um profissional da área da saúde deve seguir práticas legais e de ética da profissão.

Outro ponto que Marina chama a atenção é para a função que o conteúdo está ocupando na vida da pessoa: se é o início de uma discussão para algo que ela não havia pensado ou se é uma categorização de um sintoma com promessa de solução rápida. Neste segundo caso, é preciso estar atento, pois o processo de diagnóstico e tratamento adequado depende de questões particulares de cada pessoa, podendo levar bastante tempo.

Quando é preciso um diagnóstico?

Marina esclarece que é preciso investigar mais profundamente quando algum sintoma passa a causar prejuízos na vida da pessoa ou quando ela não consegue mais lidar sozinha com tal sentimento.

“Existem certos diagnósticos que acompanham uma pessoa ao longo da vida. Eles não são definidores da existência ou das potencialidades da pessoa, mas exigem um acompanhamento a longo prazo. Já outros podem se referir a momentos da vida, necessitando igualmente de atenção e cuidado”, reforça.

O primeiro passo é realizar consultas com um psicólogo. Quando necessário, o processo de psicodiagnóstico é feito a partir de avaliação clínica com testes cientificamente validados e conversas com o profissional. Além do psicólogo capacitado para a realização do psicodiagnóstico, quando necessário, também podem ser feitas consultas com psiquiatras.

“Ao final da análise, é apresentado um laudo explicativo de todo o processo, que contém uma conclusão do caso”, explica.

O diagnóstico pode auxiliar a pessoa a entender o seu quadro e realizar o acompanhamento com profissionais da saúde de forma mais adequada. Entretanto, Marina destaca que o tratamento adequado vai além do diagnóstico ou de um sintoma específico:

“Ter o tratamento adequado significa de fato olhar para a questão, é um processo complexo e delicado que busca articular diversas áreas da vida da pessoa. Quando falamos de saúde mental, muitas vezes nos atemos na discussão do diagnóstico, mas estar saudável é um conjunto de fatores biopsicossociais que integram a vida da pessoa. Por isso, um sintoma ou mesmo um diagnóstico precisa ser visto dentro do contexto e de forma relacional, entendendo como a pessoa lida com ele”, conclui.