Recentemente a expressão “FOMO” se popularizou nas redes sociais. Muito utilizada por jovens, a sigla é a abreviação de Fear of Missing Out, que pode ser traduzido como medo de ficar de fora ou de perder algo. Apesar de ser comum o uso da expressão em memes ou mesmo em conversas, esse medo pode causar sofrimento psicológico real.
“É interessante pensarmos que é algo nomeado na internet, mas que é um fenômeno que a gente passa há muito tempo. Esse medo de ficar de fora não nasce agora, nessa geração”, aponta Vanessa Branco, docente de Psicologia na UniRitter.
A psicóloga explica que ter medo de ficar de fora de uma situação é algo natural. “Temos a necessidade de fazer parte de grupos, de sermos reconhecidos, amados, de sermos conhecidos pela nossa personalidade”, contextualiza. O medo pode ser gerado pelo receio de perder algum momento ou de não ter algo e, consequentemente, ser excluído do grupo.
A docente também observa que termos da psicologia se popularizaram nos últimos anos, principalmente após a pandemia. “Hoje todo mundo conhece TOC, FOMO, autismo ou TDAH, e a apropriação de expressões de saúde mental pela população geral é muito interessante, porque também faz com que as pessoas pesquisem mais sobre o tema”, comenta a professora.
Para ela, a popularização dos termos possibilita o debate e maior conhecimento sobre os termos e seus significados. Porém, a especialista reforça que grupos distintos fazem apropriações diferentes dos conceitos e exemplifica que, no caso de conteúdos em redes sociais, termos como o FOMO podem ser utilizados para capturar a atenção dos usuários.
Por isso, o ambiente digital, onde costuma ocorrer o incentivo ao consumo como forma de pertencimento a determinados grupos, pode ser potencializador do FOMO. “Na sociedade do consumo, esse apelo para que as coisas falem por nós está muito presente, então, a gente imagina que se pintar o cabelo de determinada cor ou em determinado estilo, ou se usar certos tipos de roupas ou acessórios, esses elementos visuais vão falar por nós”, reforça Vanessa.
As redes sociais também podem gerar no usuário a comparação entre sua realidade e o que outras pessoas estão fazendo. É comum que os conteúdos compartilhados mostrem apenas o lado positivo das situações, essa comparação também está relacionada ao fenômeno de receio de não estar vivenciando algo. “Parece que as outras pessoas estão vivendo experiências mais prazerosas e satisfatórias do que quem assiste pela tela, dá a impressão que elas têm mais gratificação na vida e são mais socialmente valorizadas até”, comenta.
A comparação constante e a angústia de não estar vivenciando certas situações podem causar ansiedade excessiva. “Lembrando que todos somos ansiosos de alguma maneira, ansiedade faz parte da nossa cognição humana, mas quando ela é exacerbada pode causar até sintomas físicos”, destaca a docente.
Conforme a especialista, é preciso estar atento para sinais, entre eles: hábito de checar constantemente as redes sociais para saber o que outras pessoas estão fazendo, diminuição da satisfação durante momentos de interação presenciais e sentimentos de inadequação constante.
A psicóloga alerta para casos mais sérios, quando a relação problemática com as redes sociais pode tomar forma de sintomas de quadros de ansiedade social, depressão, baixa autoestima, perfeccionismo, transtorno alimentar ou de imagem, síndrome do impostor, ou processos de auto sabotagem, procrastinação e paralisia, gerados por uma percepção de insuficiência para realização das atividades devido a comparação ou receio constante de estar de fora de algo, impactando a saúde mental.
A docente explica que a diferença entre uma sensação comum de estar de fora de um assunto ou experiência e um processo mais preocupante é quando ocorre ruminação constante de pensamento sobre o que se perdeu. Vanessa exemplifica com a hipótese de ir a um show: a pessoa pode escolher não ir por motivos pessoais, como estar cansado ou ter compromissos no dia seguinte. Após ver em redes sociais que amigos foram, é comum que a pessoa se sinta um pouco triste por ter perdido o evento. Entretanto, a situação se torna preocupante se a pessoa passa a ter pensamentos constantes achando que é insuficiente porque não consegue ir a um lugar e dar conta das tarefas.
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FOMO através de gerações
A professora de Psicologia da UniRitter destaca que pessoas de idades diferentes podem lidar com esse sofrimento de formas distintas. Além disso, apesar de ser potencializado pelas redes sociais, o FOMO sempre existiu.
A docente explica que cada geração costuma ter “gatilhos” diferentes. No caso de gerações anteriores aos millenials, ou seja, nascidos antes de 1981, o fenômeno estava mais frequentemente relacionado ao trabalho, a partir do receio de ficar de fora de algum fato relacionado à esfera profissional.
Já no caso dos millennials, aqueles nascidos entre 1981 e 1996, embora não tenham nascido nativos digitais, a especialista percebe que esses já sofrem alguma influência das redes sociais. A docente aponta que o medo dos millennials está mais relacionado a estar fora de determinada linha do tempo, que seria considerada normal para cada fase da vida. São comparações como “aquela pessoa comprou um carro e eu ainda não”, o que também pode causar sintomas mais graves de ansiedade.
No caso da geração Z, nascida entre 1997 e 2010, a docente observa outros aspectos. “Esta é uma geração que passa a ser mais atingida pelo FOMO gerado diretamente pelas redes sociais”, aponta.
Vanessa também explica que, nesses casos, o fenômeno costuma estar mais relacionado ao consumo, como a busca por ter um produto que seja uma “diferenciação social”. Ao mesmo tempo que um item diferencia que o tem, se for considerado exclusivo, pode até gerar status social e fazer com que essa pessoa passe a pertencer ao grupo que o tem.
A docente destaca que a geração alpha, dos nascidos após 2010, se enquadra como a mais vulnerável a sofrer efeitos do FOMO advindo das redes sociais. “São pessoas que ainda estão em desenvolvimento, que não possuem uma maturidade cognitiva para processar todos esses dados disponíveis virtualmente e todos esses conteúdos dinâmicos”, explica Vanessa. Por isso, ela considera que a regulamentação e uso moderado das plataformas de socialização online é importante para evitar situações mais graves envolvendo os jovens.
Apesar das diferenças entre gerações, a especialista reforça que essas angústias não estão limitadas a determinada faixa etária. As pessoas podem sentir FOMO por diferentes motivos e sofrer mais ou menos com isso, dependendo de suas características individuais e dos meios em que estão inseridas.
Além disso, Vanessa explica que adultos e idosos costumam ter vínculos mais fortalecidos com outras pessoas, o que colabora para que o fenômeno psicológico não se agrave, enquanto os mais jovens ainda estão construindo esses vínculos e, por isso, podem ser mais afetados.
Nesse contexto, a docente destaca que trabalhar habilidades sociais para se relacionar com outras pessoas é importante, assim como a necessidade de olhar de forma mais crítica para os conteúdos em redes sociais. “É preciso entender que a realidade mostrada em perfil de rede social é editada, como uma curadoria, servindo como uma provocação do FOMO de propósito como ferramenta de incentivo ao consumo”, ressalta.
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A alegria de ficar de fora
Em oposição ao fear of missing out, surgiu o movimento joy of missing out, ou JOMO, que pode ser traduzido como a alegria de perder algo. “É a felicidade de estar desconectado, de perder algum assunto ou experiência conscientemente, entendendo que não é possível acompanhar tudo”, explica a especialista.
Neste sentido, o JOMO é um movimento consciente de escolher do que participar, priorizando o bem-estar próprio.
A docente comenta que é importante pensar que, mesmo quando se perde algo, pode-se ganhar em outro aspecto. Por exemplo, quando alguém tem a possibilidade de ir em dois eventos e precisa perder um, é importante avaliar o que foi de positivo na escolha feita e na vivência experienciada, ao invés de apenas sofrer pelo que não foi possível estar presente.
Vanessa explica que avaliar o que se vive de positivo quando se deixa de fazer algo pode reduzir o FOMO. “É preciso se dar conta de que cada um tem suas imperfeições e que essas diferenças individuais dão muita potência de vida. É possível construir coisas que são só nossas ou que são só do nosso grupo. Isso reduz essas comparações destrutivas que as redes sociais causam”, conclui.