Elisa Fernandez

Do FOMO à loucura e a correria em nossas vidas

Elisa Fernandez reflete sobre como o FOMO, o medo de ficar de fora, alimenta a correria, molda decisões e pode nos afastar do que realmente faz sentido

A busca constante por pertencimento e validação nas redes pode ampliar a ansiedade e distorcer decisões
A busca constante por pertencimento e validação nas redes pode ampliar a ansiedade e distorcer decisões Foto : Freepik / Divulgação / CP

Cara leitora,
Você já ouviu falar do FOMO, a sigla de Fear of Missing Out, ou o famoso medo de ficar de fora? FOMO é um termo cunhado lá em 2004 pelo investidor e escritor Patrick McGinnis, quando as redes sociais eram apenas um rascunho do que viriam a se tornar.

Curiosamente, esse fenômeno ganhou musculatura anos depois, impulsionado por feeds infinitos, stories editados e pelas vidas aparentemente perfeitas que nos são apresentadas diariamente. O FOMO é aquela sensação persistente de que algo importante está acontecendo em algum lugar onde você não está. Um conceito que cresceu junto com as redes sociais, agendas lotadas e a ilusão de que presença constante é sinônimo de relevância.

Mas o FOMO vai além do medo de perder um evento. É o medo de perder status, pertencimento e história para contar. É a ansiedade de ficar de fora da conversa, do grupo e da narrativa dominante. Quando isso se mistura com desejo, exclusividade e validação social, o resultado é um coquetel perigoso e altamente explosivo.

No universo dos eventos, potencializado por uma comunicação e um marketing cada vez mais estratégicos, o Fyre Festival virou um verdadeiro case de estudo, ainda que pelo avesso. Vendido como uma experiência de luxo nas Bahamas, foi impulsionado por influenciadores, imagens impecáveis e uma narrativa irresistível.

Na prática, entregou caos, infraestrutura precária e promessas não cumpridas.

O Fyre Festival se tornou o maior símbolo de como o FOMO é capaz de inflar expectativas e colapsar a realidade. Ele mostrou como narrativa, estética e influência digital conseguem transformar expectativa em desejo coletivo, criando um senso de urgência e pertencimento que passa a ser, paradoxalmente, meta e indicador de sucesso para muitos eventos.

O problema é que o FOMO não se restringe aos grandes festivais. Ele empurra a gente para tudo. Eventos, reuniões, convites e encontros que muitas vezes nem fazem tanto sentido assim. Já parou para pensar no quanto o receio e a angústia de ficar de fora já te colocaram em situações e lugares absolutamente desnecessários?

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Assim como aconteceu no festival, as pessoas acabam pagando fortunas sem sequer perguntar o básico. E isso não acontece por ingenuidade pura, mas porque o FOMO desliga o pensamento crítico. Ninguém quer ficar de fora, mesmo sem saber exatamente do quê. Vivemos um tempo em que parecer importa mais do que ser, e em que o medo de ficar de fora pesa mais do que o risco de entrar numa grande furada.

Hoje, gerar buzz, provocar FOMO e fazer o público sentir que precisa estar lá virou objetivo declarado em muitos briefings. O problema surge quando a experiência real não sustenta a promessa. Nesse momento, o que era estratégia de atração se transforma rapidamente em crise de reputação. O case deixou claro que comunicação poderosa pode até lotar um evento, mas só entrega consistente constrói legado.

Talvez a grande lição seja justamente essa. Nem tudo que ativa o seu FOMO merece o seu dinheiro, o seu tempo ou a sua energia emocional. Às vezes, ficar de fora é exatamente o movimento mais lúcido que você pode fazer. E, curiosamente, também o mais libertador.

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.