Elisa Fernandez

A Sina de Ofélia no mundo corporativo

Elisa Fernandez usa a metáfora de Ofélia para refletir sobre silêncios, reconhecimento e liderança no mundo corporativo contemporâneo

A metáfora de Ofélia ajuda a refletir sobre silêncios e reconhecimento no ambiente corporativo
A metáfora de Ofélia ajuda a refletir sobre silêncios e reconhecimento no ambiente corporativo Foto : Freepik / Divulgação / CP

Cara leitora,

Adoro me inspirar em músicas e isso já não é mais novidade para você que me acompanha, não é mesmo? Recentemente impactada por uma música que está viralizando nos reels sob a hashtag “Sina de Ofélia”, descobri que ela é uma releitura inspirada em “The Fate of Ophelia”, de Taylor Swift, que tem circulado em versões em português geradas por IA e vem sendo muito usada em vídeos reflexivos nas redes.

Curiosa que sou, fui buscar saber mais sobre a sina de Ofélia imaginando que poderia render um bom tema para a coluna. Bingo! Ou seria touché?

Ofélia, personagem de Hamlet, de William Shakespeare, nasce cercada por silêncios. Sua existência se constrói no intervalo entre as vontades dos outros. Do pai, do irmão, do homem que ama, da moral da época, das expectativas alheias. Um tema potente, simbólico e absolutamente atual.

A sina de Ofélia atravessa séculos porque continua dolorosamente contemporânea, especialmente quando traçamos uma analogia com o universo corporativo.

Não li Hamlet. Mas há obras que dispensam leitura literal para serem compreendidas, porque atravessam a cultura e viram metáfora de vida. Ofélia é uma delas.

A figura frágil e melancólica acabou se tornando símbolo de uma realidade que muitas mulheres ainda conhecem bem, mas que também revela muito sobre estruturas, ambientes e modelos de liderança que insistem em se repetir.

A música que viralizou no Instagram, com versos sobre “se afogar na dor” até ser resgatada, ecoa algo bastante familiar no mercado de trabalho, a necessidade constante de provar valor, de ir além, muitas vezes muito além das próprias funções, apenas para ser visto, reconhecido, considerado.

A coluna de hoje não é um desabafo individual, nem sobre salvar ninguém, e menos ainda uma bandeira levantada. É uma percepção coletiva.
É sobre reconhecer talento, competência e esforço quando eles estão diante dos nossos olhos.

Porque, muitas vezes, Ofélia não é apenas uma personagem literária. Ela aparece na vida real, em profissionais que entregam mais do que se espera, sustentam resultados, mergulham fundo no que fazem e, ainda assim, seguem aguardando um reconhecimento que nem sempre chega ou que chega aquém do que foi entregue.

Trabalha-se duro para não se afogar nas expectativas alheias. Busca-se espaço, voz e reconhecimento justo. Não o elogio protocolar, não a promessa para depois. Mas a valorização concreta do talento e dos resultados.

E aqui está o ponto, especialmente para quem ocupa posições de liderança.
Liderança madura não se sente ameaçada pelo brilho alheio. Ela reconhece, valoriza e amplia. Porque talento não é risco, é ativo. E isso não é discurso bonito, é prática cotidiana.

Para quem lidera, este texto talvez seja um convite. Um convite para mudar a regra do jogo, não com discursos, mas com atitudes. Com reconhecimento real. Com coragem para bancar talento onde ele existe.

Talvez o verdadeiro antídoto contra a sina de Ofélia, hoje, não seja o resgate romântico. Seja algo bem mais simples e bem mais difícil, a coragem de reconhecer alguém à altura do que entrega.

E isso, acredite, diz muito mais sobre quem reconhece do que sobre quem é reconhecido.

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.

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