Cara leitora,
A honestidade aparece como um valor raro, quase erótico, num mundo saturado de jogos, máscaras e performances.
Tem gente que se apaixona por um corpo, outros por um sorriso, alguns por ideologia. Há quem, assim como eu, fique fascinada por gente honesta. Mas, quando falo em honestidade, não me refiro àquela bruta, que machuca. Falo da honestidade crua, nua, que pode ser absurdamente sexy por simplesmente não fazer cena nem pedir desculpas por existir.
Outro dia, me peguei cantarolando Cazuza, quando, na música Maior Abandonado, ele canta: “mentiras sinceras me interessam”. A verdade é que, em alguma época da vida, talvez tenham me interessado também. E você? Já conviveu com “mentiras sinceras” ou “meias-verdades”? E aquelas situações em que fingimos não ver, não saber, só para não nos incomodarmos? Quem nunca?
Hoje, ando com menos paciência para meias-verdades embaladas em afeto.
Talvez seja por isso que Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados), aquele filme clássico do Kubrick, me marcou tanto. Mas pelo tédio! Um filme cheio de símbolos, luxúria, promessas de profundidade e, ainda assim, zero conexão real. Tive a sensação de ter assistido a uma performance bonita sobre o vazio. Sabe quando tudo é encenação e ninguém diz o que realmente sente? Pois é. Nada mais decepcionante do que gente que performa sentimentos.
O casal central, Bill e Alice Harford, interpretados por Tom Cruise e Nicole Kidman, aparenta viver uma vida confortável, estruturada e bem-sucedida. Mas, por trás das aparências, o filme mergulha nas tensões e fantasias não ditas que existem entre eles.
Na superfície, eles têm um casamento estável. São bonitos, têm uma filha, frequentam festas elegantes, vivem em um apartamento impecável. Existe um pacto silencioso de manter as aparências, como se a estabilidade valesse mais do que o confronto com as próprias verdades.
É justamente na quebra dessa superfície que o filme começa e, na minha percepção, ele gira em torno do não-dito. Mas é inegável que suas camadas são sensíveis, principalmente quando trazidas para a vida real.
O casal tem um relacionamento de aparência e harmonia, que se desestabiliza quando o acordo do desejo silenciado é abalado por Alice, ao revelar num desabafo brutal, que já fantasiou sexualmente com outro homem. Isso rompe também o pacto da fantasia controlada, aquele onde tudo pode existir, desde que não chegue à mesa do café da manhã.
Eles passam por uma jornada de revelações, não apenas pela infidelidade física, mas pela traição emocional e existencial dos pactos que sustentavam a relação. É um filme sobre acordos implícitos que sustentam alguns relacionamentos. Mas será que sustentam? E o que acontece quando são colocados em xeque?
Não é um filme sobre traição física, mas sobre a fragilidade dos pactos emocionais, o não-dito, o peso das fantasias e o poder da verdade, mesmo que ela doa.
Então me caiu uma ficha: a verdade excita. Não aquela que grita, mas a que se mostra. Que não precisa de máscara, nem de jogo. A que chega devagar e diz: “é isso que tem, e eu estou tentando ser melhor”. Sem pressa, sem pose.
Imagino que a verdade tenha gosto de café. E olha que eu nem tomo café. Mas sei que pode ser forte, direto, sem açúcar e quem gosta, não vive sem.
Acho que o novo afrodisíaco é isso mesmo: alguém que não precisa de mistério para provocar desejo. Alguém que fala a real, encara o próprio caos e, ainda assim, oferece presença.
Vulnerabilidade é o novo charme. E a honestidade? Um luxo cada vez mais raro e, convenhamos, cada vez mais sexy.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
