Elisa Fernandez

Coisas da vida

Elisa Fernandez se inspira na trajetória da cantora Rita Lee para uma profunda reflexão sobre escolhas

Lenda do rock nacional, Rita Lee inspira diálogos sobre quebrar padrões até hoje
Lenda do rock nacional, Rita Lee inspira diálogos sobre quebrar padrões até hoje Foto : Instagram / Reprodução / CP

Cara leitora,

Recentemente, mergulhei em duas obras maravilhosas sobre Rita Lee, a diva do rock nacional. Suas histórias me inspiraram a refletir sobre as coisas da vida, aquelas decisões que parecem simples, mas nos paralisam entre ir ou ficar.

Em Ritas (2025), documentário dirigido por Oswaldo Saldanha e Karen Harley, cenas inéditas e entrevistas revelam não só sua trajetória, mas seu processo criativo. Impecável!
Já em Rita Lee: Mania de Você (2025), vemos a artista em primeira pessoa, cercada por depoimentos emocionantes dos filhos e de Roberto de Carvalho, seu parceiro de vida e música. Entre altos e baixos, excessos, genialidade e afeto, o filme escancara a essência da “Rainha do Rock Brasileiro”.

Para apaixonados por música e biografias, como eu, é um prato cheio.

O rock no Brasil nasceu nos anos 1950, inspirado pelos movimentos americano e britânico, e ganhou alma própria na década seguinte com a Jovem Guarda, a Tropicália e Os Mutantes, a banda de rock psicodélico de São Paulo, da qual Rita foi vocalista e alma irreverente. Eles deram ao rock uma identidade nacional.

Entre o saudosismo e as músicas que marcaram minha geração, é quase impossível não sair cantarolando um de seus sucessos. No meu caso, há semanas, um refrão virou minha trilha sonora mental:

“Ah, são coisas da vida
E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica”

Rita era única. Mas, como mulher, impossível não refletir sobre o quanto deve ter sido desafiador ser Rita Lee. Não só por ser precursora num tempo politicamente conturbado, mas por quebrar padrões, nos relacionamentos, nas escolhas de vida, na maternidade de três meninos, nos vícios, nas overdoses e até na internação forçada pela própria família. Também penso o quanto pode ter sido difícil viver com Rita: ser seu marido, seus filhos, conviver com sua intensidade no âmbito familiar. Longe de mim julgar, muito pelo contrário. Tento me colocar nesses papéis que não são meus, como exercício de empatia. Isso me ajuda a enxergar a vida sob outras perspectivas e é isso que me faz refletir e escrever.

E com esse refrão martelando na cabeça, é inevitável não refletir sobre as coisas da vida, essas situações cotidianas que nos desafiam emocionalmente.
“A gente se olha e não sabe se vai ou se fica”. Você já parou para pensar no poder dessa frase?

Quantas vezes, em meio a uma discussão, você quis ir embora, mas não sabia se era o certo? Ou ficou travado(a) numa reunião interminável, sem propósito aparente, desejando levantar-se e sair? Na sala de espera de um exame complicado?
No portão de embarque, odiando voar, mas com o bilhete na mão?
Ou quando encontra alguém diferente, que mexe com você, mas o medo de se machucar fala mais alto?

São tantas as situações em que não sabemos se vamos ou ficamos, que a lista pode ser infinita.
Mas a verdade é que, diferente de Rita, que ia, a maioria de nós fica.
Por medo. Por insegurança. Por comodismo. Por necessidade. Pela tal zona de conforto. A gente fica.

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E o mais curioso dessa reflexão é perceber que, com o tempo, e acho que principalmente com a idade, a gente quer mais é ir!
Criar coragem. Se importar menos. Arriscar mais.
Sem contar aquela vontade quase urgente de descomplicar tudo.

No fim das contas, talvez o maior aprendizado seja aceitar que as coisas da vida nem sempre fazem sentido, mas com o tempo, a gente aprende a ir. E isso muda tudo. E isso é muito bom!


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.